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Uma noite no hospital Al Shifa, em Gaza

24/07/2014
Os feridos chegavam em grupos de três, quatro ou até cinco de uma vez

Oito horas do dia 22 de julho: a equipe de Médicos Sem Fronteiras (MSF) está retornando do hospital Al Shifa, no centro da cidade de Gaza. Ao longo da noite, os feridos foram chegando ao setor de emergência – muitos deles transferidos do hospital Al Aqsa, que foi bombardeado no dia anterior.

 “Será uma noite longa”, comenta Alaa, motorista de MSF, enquanto o sol se põe em 21 de julho. Os mísseis de tanques e navios israelenses explodem a poucos quilômetros da base de MSF em Gaza, o chefe da equipe cirúrgica do hospital Al Shifa, onde os profissionais de saúde estavam. Um grande afluxo de feridos já era previsto.

“Estava cuidando de dois novos pacientes em tratamento intensivo na principal unidade de queimados”, conta Adriana, uma anestesista que acaba de se juntar à equipe de emergência de MSF em Gaza. “Uma era uma mãe de 24 anos. A jovem ficou enterrada sob os escombros de sua casa por 12 horas. Ela perdeu a filha e mais dez membros da família lá. Fizemos tudo o que podíamos para salvá-la, mas ela morreu esta manhã.”

O segundo paciente de Adriana era um garoto de dez anos. “O menininho tinha perdido a família. A mãe estava com ele quando um míssil atingiu a casa deles, que desabou. Ele sofreu queimaduras, síndrome do esmagamento e trauma, e teve mais de cem ferimentos pelo corpo causados por estilhaços de granada.”

Depois da cirurgia, o menino foi admitido na unidade de queimados do Al Shifa. Um pequeno ferimento em seu abdômen preocupava Kelly, outra anestesista da equipe de emergência de MSF. “Era um pequeno corte na barriga que não parava de sangrar”, lembra. “Pedi um exame do abdômen e vimos que ele tinha uma hemorragia interna. Os fragmentos da bomba tinham feito sete perfurações em seu intestino delgado.”

“Ela salvou a vida dele”, afirma Adriana.

Cosimo, um cirurgião de MSF, acabou de extrair uma bala de uma veia cardíaca de uma mulher de 20 anos. “Os outros dois pacientes que eu operei na noite passada tinham ferimentos no peito causados por explosões que ocorreram perto deles”, relata.  

Muitos dos feridos que chegam ao hospital Al Shifa foram transferidos do hospital Al Aqsa, que havia sido bombardeado mais cedo.

“Um homem de 20 anos era atendido no Al Aqsa quando o hospital foi atingido”, diz Kelly. “Ele foi trazido para a emergência do Al Shifa. Tivemos que amputar as duas pernas abaixo do joelho. A cirurgia levou quase três horas.”

A maioria dos pacientes no centro cirúrgico tem ferimentos graves que exigem diversas cirurgias.
“Ontem tivemos pelo menos dois casos de neurocirurgia”, conta Kelly. Às vezes, pelo tempo que os pacientes levam para chegar à sala de cirurgia, é tarde demais para salvá-los. “Uma menina de oito anos foi trazida para o centro cirúrgico”, diz Adriana. “Ela tinha perdido as duas pernas numa explosão e sofrido múltiplos traumas, incluindo na cabeça. Além de aliviar sua dor, não havia mais nada que podíamos fazer.”

Esta noite, os feridos estão chegando à unidade de tratamento intensivo em grupos de três, quarto ou cinco de uma vez. O primeiro a ser trazido para dentro vem do bairro de Shuja’iyeh, que ainda está sendo bombardeado. O ultimo grupo examinado pela equipe de MSF vem da área do entorno do hospital Al Aqsa. Pelo menos cinco pacientes não resistiram e morreram ao longo da noite.

Nas primeiras horas da manhã, ocorre um ataque aéreo nas proximidades. “O prédio inteiro da unidade de queimados tremeu, como durante um terremoto”, diz um membro da equipe de MSF.

São 8 horas quando a equipe deixa o hospital e retorna para o escritório de MSF. Uma pessoa por vez, segurando uma xícara de café, descreve a noite que teve. Os outros escutam, olhando para baixo, os relatos terríveis. Segundo as Nações Unidas, mais de dez pessoas foram mortas e 130 ficaram feridas no bombardeio da noite. Frente ao que eles testemunharam na noite anterior no hospital Al Shifa, a equipe concorda que os números parecem baixos.

MSF é uma organização internacional de ajuda humanitária que tem o compromisso de levar cuidados de saúde aos que mais necessitam sem distinção de raça, religião ou convicção política. O principal fator que nos faz atuar ou não, em qualquer lugar, é a capacidade de resposta médica-humanitária do governo e de instituições locais. Neste caso, Israel conta com uma estrutura de saúde com qualidade, mundialmente reconhecida.Se no futuro por alguma razão a população de Israel, assim como de qualquer outro país, se encontrar numa situação que requeira a presença de MSF estaremos prontos a agir. MSF já atuava em Gaza e com o reinício da guerra nossos profissionais estão presenciando os bombardeios. A organização permanece na área, pois a população civil, acuada pela guerra, precisa de urgentes cuidados médicos.

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