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Uma história contada por uma obstetriz

24/07/2015
“Às vezes, eu fico acordada durante a noite, contemplando o que aconteceu e pensando formas de encontrar uma solução para prevenir essas mortes maternas, que são evitáveis”

Foto: Matthias Steinbach/MSF

No canto esquerdo da maternidade do centro de saúde Dolo Ado, a obstetriz Aisha Akello tem uma discussão emocional com uma mulher sentada em seu leito hospitalar. Diferentemente das demais mulheres na modesta ala, deitadas ao lado de seus bebês recém-nascidos em seus leitos, Rabiya Osman, de 23 anos, está sozinha. Ela parece cansada e está pálida. Parece não prestar muita atenção ao que está sendo dito pela obstetriz, perdida em seus próprios pensamentos. Timidamente, ela olha nos olhos da obstetriz e acena com a cabeça. Rabiya havia entrado em trabalho de parto em sua casa dois dias antes. Ela mora a apenas 200 metros do centro de saúde. O parto foi obstruído e durou horas, e a parteira tradicional não pôde ajudá-la. Ela perdeu o bebê e a consciência devido à hemorragia excessiva.

“Quando ela foi carregada para o centro de saúde por alguns parentes, ela estava a ponto de morrer”, conta Aisha. “Ela estava perdendo muito sangue e estava inconsciente. Conseguimos conter a hemorragia, mas, como ela já estava gravemente anêmica, tivemos de fazer uma transfusão de sangue. Infelizmente, sua família foi contra o procedimento. Quando ela recobrou consciência, passamos horas tentando convencer a ela e sua família, mas todos os esforços foram em vão.”

A história de Rabiya se repete nos casos de muitas mulheres que Aisha trata todos os dias. “Muitas delas são contra procedimentos que podem salvar suas vidas na maternidade, como transfusões de sangue e cesáreas”, conta Aisha. Quando elas se decidem por aceitar os procedimentos é geralmente tarde demais, estando ou já o bebê morto ou a mãe em condição crítica.”

De acordo com Aisha, a falta de conhecimento e o receio de dar à luz em um centro de saúde é consequência de crenças tradicionais que sugerem que o parto domiciliar é mais seguro do que em centros de saúde. Essa percepção contribui para o afastamento das mulheres das instituições para parto. Além disso, o fato de que homens, e não mulheres, têm o direito de tomar decisões acerca de assuntos que dizem respeito a elas torna a situação ainda mais difícil, na medida em que muitas pessoas são envolvidas no processo decisório e isso leva muito tempo – tempo que poderia ser utilizado para salvar a vida de mulheres e seus bebês. Por mais de 13 anos, Aisha trabalha como obstetriz. Desse período, por sete anos ela trabalhou com a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) em países como Uganda, Nigéria, Sudão do Sul, Sudão e Etiópia, antes de se juntar ao projeto de Dolo Ado, na região somali, onde atualmente trabalha.

Comparando o trabalho realizado em diversos países, ela considera o índice de mortalidade materna em Liben, na Etiópia, um dos mais elevados, e o trabalho um dos mais desafiadores. “Perdemos vidas de mulheres para condições como partos obstruídos, pré-eclâmpsia e eclampsia pré-parto e sangramento pós-parto, que podem ser controlados, mas, como elas chegam até nós tarde demais, nossa capacidade é limitada”, conta Aisha. “Se essas três mães tivessem chegado em tempo, nós teríamos salvo suas vidas e as de seus filhos. Me entristece muito ver mulheres morrerem por conta de condições evitáveis. É de partir o coração e, às vezes, fico acordada durante a noite, contemplando o que aconteceu e pensando formas de encontrar uma solução para prevenir essas mortes maternas, que são evitáveis.”

Em dezembro de 2014, MSF deu início ao programa que envolve as atendentes tradicionais de parto – as parteiras – nos trabalhos de sensibilização da comunidade por meio de atividades educativas. Onze parteiras foram identificadas e treinadas. Uma delas é enviada a cada um dos 11 vilarejos de Dolo Ado. Relatórios demonstram que, desde que elas começaram a conduzir as atividades de sensibilização, o número de partos no centro de saúde aumentou de uma média de 18 por mês para 20, e depois para 50 e, por fim, 70. Nos meses de março, abril e maio foram registrados 54, 70 e 51 partos no centro, respectivamente. As agentes de saúde comunitárias acompanham as mães ao centro de saúde e ajudam as equipes de MSF a conduzirem atividades que contribuam para que as mulheres se sintam motivadas a irem aos centros de saúde para os partos e para consultas de pré e de pós-natal.

Esse é um passo na direção certa e um que Aisha espera que tenha continuidade e estimule mais mães a irem ao centro de saúde para darem à luz, receberem cuidados de pós-natal e imunizarem seus bebês.

A cidade de Dolo Ado fica localizada na região de Liben, no Estado Regional Somali da Etiópia. A população da cidade é de cerca de 130 mil pessoas. MSF atua em Dolo Ado desde 2009, oferecendo serviços de saúde primária e secundária no centro de saúde local. Em parceria com o governo etíope e o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), a organização oferece suporte médico e humanitário aos refugiados somalis nos acampamentos de Buramino e Hiloweyn.

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