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Uma década de guerra na Síria: 10 anos de necessidades humanitárias crescentes

15/03/2021
Áreas civis e infraestrutura, incluindo instalações médicas, continuam regularmente sob ataque e quase 60% da população está em situação de insegurança alimentar
Uma década de guerra na Síria: 10 anos de necessidades humanitárias crescentes

Foto: KARAM ALMASRI

Desde o início da guerra na Síria, há 10 anos, a vida do povo sírio está sob ameaça. Em 2011, uma onda de protestos se transformou rapidamente em uma guerra em larga escala, levando a uma situação humanitária devastadora, que persiste uma década depois. Ao longo de 10 anos, 12 milhões de sírios - metade da população antes do conflito - foram forçados a fugir e deixar suas casas para trás, frequentemente mais de uma vez, resultando na maior crise de deslocamento deste século. Muitos deles ainda estão deslocados até hoje.

Grande parte da infraestrutura da Síria também foi destruída por esses anos de conflito. O sistema de saúde, que funcionava relativamente bem até então, foi completamente devastado pela guerra. Centenas de instalações médicas foram bombardeadas, um grande número de profissionais médicos foi morto ou fugiu e a escassez de suprimentos médicos em muitas partes do país ainda persiste. Hoje, as necessidades médicas da população síria são enormes.

Médicos Sem Fronteiras (MSF) responde à crise na #Síria desde o seu início. Como organização médico-humanitária internacional, apoiamos sírios necessitados em diferentes áreas do país: desde a doação de suprimentos médicos até a instalação de hospitais e clínicas e o fornecimento de suporte remoto a instalações médicas e redes de médicos em áreas onde MSF não pode atuar diretamente. Hoje, assistimos sírios dentro do país, bem como em vários países vizinhos que hospedam refugiados sírios.

A linha do tempo a seguir descreve uma década de conflito, destacando as crescentes necessidades médicas e humanitárias de milhões de sírios e os esforços de MSF para atendê-las.

2011: protestos se transformam em conflito armado

Em 2011, um grande número de sírios saiu às ruas para exigir reformas democráticas. O levante rapidamente evoluiu de protestos inicialmente menores para protestos maciços durante o mês de março. Os protestos foram recebidos com violência policial e militar, prisões em massa e uma repressão brutal, resultando em centenas de mortos e milhares de feridos. À medida que os protestos se transformavam em conflito, os sírios começaram a deixar suas cidades, seja para diferentes partes do país ou fugindo para países vizinhos.

Para MSF, prestar atendimento médico às pessoas na Síria foi um desafio desde o início do conflito. De fato, de 2011 até hoje, MSF não obteve aprovação para trabalhar em áreas controladas pelo governo sírio, apesar dos frequentes pedidos de permissão; como resultado, nossas áreas de intervenção sempre estiveram concentradas em áreas fora do controle do governo.

Apesar disso, conseguimos oferecer assistência médica às pessoas necessitadas na Síria, apoiando redes de médicos sírios e fazendo doações de itens e equipamentos médicos para hospitais e clínicas de campanha nas províncias de Homs, Idlib, Hama e Dara. Sem conseguir acessar a capital, MSF fez doações ao Crescente Vermelho sírio em Damasco em resposta às crescentes necessidades médicas e à falta de suprimentos médicos na cidade.

Em países vizinhos como Líbano e Jordânia, MSF começou a apoiar sírios que precisavam de cuidados médicos indisponíveis dentro da Síria e criou projetos para ajudar refugiados que começaram a fugir da violência em seu país.

2012: uma guerra total

Em 2012, o conflito se agravou, com a formação e participação de diferentes partes no conflito. Apesar de várias tentativas de um cessar-fogo, o conflito logo evoluiu para uma guerra total e o número de mortos e feridos aumentou drasticamente em todo o país.

MSF abriu hospitais no norte da Síria para atender às crescentes necessidades médicas das pessoas nessas áreas. A maioria teve que ser instalada em locais não convencionais, incluindo vilas, granjas, escolas e porões, depois que várias instalações médicas foram atingidas e destruídas no conflito. Nesses hospitais, as equipes de MSF forneceram tratamento médico de emergência com foco principal no atendimento a traumas e cirurgias relacionadas à guerra.

Com o aumento do número de refugiados sírios nos países vizinhos, MSF expandiu suas atividades em lugares como o Vale do Bekaa, no Líbano, e em acampamentos montados em Domeez, no Curdistão iraquiano. Um número cada vez maior de refugiados sírios também buscava refúgio em outros lugares, afastando-se do Oriente Médio em direção à Europa.

2013: as necessidades dos sírios aumentam

Em 2013, os sírios não estavam apenas expostos a altos níveis de violência, mas também às consequências diretas de um sistema de saúde disfuncional e em deterioração. As equipes de MSF começaram a testemunhar o ressurgimento de doenças evitáveis. Casos de sarampo entre crianças em Alepo e a descoberta do primeiro caso de poliomielite na Síria em 14 anos foram os primeiros indícios de um problema de saúde no país como resultado da guerra, que levou a campanhas de vacinação em massa realizadas e apoiadas por MSF no nordeste da Síria. As organizações médicas do país também começaram a expressar mais fortemente suas dificuldades em atender às necessidades da população, sobretudo no manejo de casos de vítimas em massa e emergências agudas. Devido à intensidade dos combates no sul da Síria, MSF abriu um programa cirúrgico de emergência em Ramtha, norte da Jordânia, perto da fronteira com a Síria, para tratar feridos de guerra incapazes de receber tratamento nos 14 hospitais de campanha em Dara.

Enquanto isso, centenas de milhares de sírios ainda estavam deixando a Síria em busca de segurança ou tratamento médico em países vizinhos. Essas nações, que recebiam um fluxo contínuo de refugiados, passaram a adotar políticas de fronteira mais restritivas. Em resposta, MSF expandiu ainda mais o volume de suas operações na região para fornecer o máximo de assistência possível à população síria. No final de 2013, havia cerca de 1,5 milhão de refugiados sírios.

2014: os confrontos mortais se intensificam

Em 2014, a guerra ficou cada vez mais sangrenta. A ONU estimou que 6,5 milhões de pessoas foram deslocadas internamente, enquanto mais de três milhões fugiram da Síria.

Violência e insegurança, o aumento dos cercos e dos bombardeios, além de ataques a instalações de saúde e profissionais da área médica foram alguns dos desafios enfrentados pelas equipes de MSF, o que as impediu de realizar um programa mais amplo de ajuda médico-humanitária. O sequestro da equipe de MSF em 2014 também nos levou a interromper nossas atividades em áreas controladas pelo grupo do Estado Islâmico (EI) e a retirar equipes internacionais do noroeste da Síria.  Ainda assim, conseguimos manter nossa presença na Síria, abrindo novos projetos e ampliando nosso suporte remoto aos centros médicos do país.

2015: grande crise de deslocamento

Em 2015, o número de refugiados sírios que fugiram do país ultrapassou a marca de quatro milhões, com milhares deles tentando travessias perigosas pelo mar Mediterrâneo, enquanto outros seis milhões de pessoas foram deslocadas internamente na Síria. O conflito causou a maior crise de deslocamento desde a Segunda Guerra Mundial, deixando milhões em necessidade urgente de ajuda humanitária vital. Em resposta, MSF aumentou suas atividades em toda a região, lançando operações de busca e resgate no Mediterrâneo e apoiando as populações em suas viagens à Europa.

Com mais países e partidos estrangeiros entrando na guerra, 2015 foi caracterizado por extrema violência, afetando a vida de milhões de pessoas: áreas civis foram bombardeadas rotineiramente, muitas vezes em ataques de “duplo golpe” - em que o ataque inicial é seguido por um segundo ataque, tendo como alvo equipes de resgate ou a unidade de saúde que recebe os feridos. Também houve vários relatos de ataques que resultaram em sintomas de exposição a agentes químicos. Pelo menos 1,5 milhão de pessoas ficaram presas em áreas sitiadas sem acesso a ajuda humanitária, saúde ou evacuação médica.

Na Síria, 2015 marcou o ano em que MSF apoiou o maior número de instalações de saúde até o momento, chegando a mais de 150 unidades de saúde. No entanto, o apoio de MSF não evitou que essas instalações fossem afetadas diretamente pelo conflito. Em 2015, 23 profissionais de saúde sírios apoiados por MSF morreram e 58 ficaram feridos. Além disso, 63 hospitais e clínicas apoiados por MSF sofreram ataques aéreos ou foram bombardeados em 94 ocasiões diferentes em 2015 e 12 dessas instalações foram completamente destruídas.

MSF ganhou acesso à cidade fortemente destruída de Cobane/Ayn Al Arab, depois que o EI foi expulso pelas forças curdas com o apoio das forças de coalizão. A organização construiu um hospital na cidade, que foi destruído após outro intenso período de conflito depois de a cidade ser infiltrada por combatentes do EI. Apesar disso, MSF continuou apoiando a oferta de saúde primária e secundária na cidade.

2016: uma população encurralada

Em 2016, as táticas de cerco continuaram, os ataques de duplo golpe aumentaram e os ataques aéreos e bombardeios intensificados tornaram a crise humanitária dentro do país ainda mais terrível. Naquela época, muitas áreas civis haviam sido rotineiramente bombardeadas e privadas de ajuda. O acesso a alimentos e serviços de saúde era extremamente difícil para muitas pessoas, especialmente aquelas que viviam em locais sitiados.

Em dezembro, o governo sírio reassumiu o leste de Alepo, mas os moradores da região sofreram o bombardeio mais violento da guerra em cinco anos. O leste de Aleppo tornou-se o epicentro do conflito sírio, com todas as atrocidades cometidas em um só lugar: técnicas de cerco; destruição de vários hospitais; bombardeios indiscriminados contra áreas civis; e um total desrespeito pelas regras da guerra. MSF estava apoiando total ou parcialmente oito hospitais no leste de Alepo - todos eles foram bombardeados.

Instalações médicas, profissionais e pacientes continuaram a ser vítimas de ataques indiscriminados e direcionados. Em 2016, 32 instalações médicas que receberam nosso apoio sofreram ataques aéreos ou foram bombardeadas em 71 ocasiões distintas.

Enquanto isso, mais países vizinhos da Síria fecharam suas fronteiras para refugiados, deixando muitas pessoas presas em áreas sitiadas ou presas nas fronteiras fechadas, como aconteceu na fronteira com a Jordânia, bloqueando o acesso a atividades vitais para os feridos de guerra.

2017: uma corrida pelo território

Uma corrida para garantir território e controle surgiu como a principal mudança geopolítica do ano. Depois de uma grande ofensiva militar em Raqqa, o grupo EI perdeu o controle de grandes áreas do território no nordeste para as Forças Democráticas Sírias, apoiadas pelos EUA. MSF tratou centenas de feridos de guerra como resultado da intensa ofensiva de bombardeio em Raqqa, bem como aqueles gravemente feridos por armadilhas e outros dispositivos explosivos não detonados deixados para trás em casas destruídas na cidade. Enquanto isso, no sul do país, o governo sírio começou a retomar territórios nas províncias de Dara, Quneitra e Suwayda. Esses eventos tiveram consequências importantes na vida de centenas de milhares de pessoas que vivem nessas áreas devido aos fortes bombardeios.

Essas mudanças na dinâmica e no equilíbrio de poder atrapalharam nossas atividades em algumas das áreas onde atuamos. Um total de 11 instalações médicas que apoiamos foram atingidas por bombas ou projéteis em 12 ocasiões em ataques direcionados ou indiscriminados.

2018: ondas de deslocamento e retorno

Com intensos combates para obter o controle das regiões disputadas e com os avanços militares das forças do governo sírio, novas ondas de deslocamento começaram a migrar para o noroeste da Síria. Isso se seguiu a termos de rendição impostos pelo governo, garantindo passagem segura para combatentes e civis que desejassem ser transportados para outras áreas do país não controladas pelo governo, na maioria das vezes para a província de Idlib. Entretanto, no nordeste do país, as pessoas estavam voltando para cidades em ruínas e cidades cheias de armadilhas e minas terrestres.

Entre fevereiro e abril, o leste de Ghouta, nos subúrbios de Damasco, testemunhou um dos mais pesados bombardeios desde o início da guerra. Muitos centros de saúde foram atingidos e cerca de 2 mil pessoas foram mortas durante a ofensiva, que terminou com o governo sírio assumindo o controle do subúrbio.

Em muitos lugares, como Dara, leste de Ghouta, Hama e Homs, MSF não conseguiu continuar seu trabalho e apoio às instalações médicas depois que essas áreas foram reconquistadas pelo governo sírio. Nessa época, aumentamos nosso suporte médico no norte do país.

2019: operações militares no norte

Em 2019, o conflito continuou, afetando principalmente o norte da Síria.

No noroeste da Síria, centenas de milhares de pessoas foram deslocadas em consequência de uma ofensiva lançada pelas forças do governo sírio e seus aliados, notadamente a Rússia, na província de Idlib, o último reduto da oposição do país. A maioria dos recém-deslocados se dirigia para áreas onde não havia água potável ou assistência médica disponível. Eles tinham poucas opções, pois a maioria das áreas consideradas relativamente seguras já estavam superlotadas e sobrecarregadas em termos de assistência humanitária.

MSF intensificou as atividades no nordeste do país quando um rápido influxo de mais de 60 mil deslocados chegou ao campo de Al-Hol, a maioria deles vinha dos últimos redutos do grupo EI na província de Deir Ez-Zor. Mais tarde, naquele mesmo ano, os militares turcos, ao lado de grupos aliados da oposição armada síria, lançaram a operação "Primavera da Paz", com o objetivo de remover as Unidades de Proteção do Povo Curdo (YPG) de uma faixa de terra de 30 km de comprimento e 440 km de largura, ao longo da fronteira com a Turquia.

Além de conflitos e deslocamentos contínuos, em 2019, a Síria estava passando por sua pior crise econômica em anos e a libra síria atingiu o nível mais baixo de todos os tempos no mercado ilegal, tornando a vida das pessoas ainda mais difícil.

2020: ofensiva militar, crise econômica e pandemia global

2020 começou com a continuação de uma grande ofensiva militar no noroeste da Síria, resultando no deslocamento de cerca de um milhão de pessoas. Muitos deles já estavam deslocados dentro da área e fugiram do conflito várias vezes nos meses ou anos anteriores.

A pandemia de COVID-19 piorou ainda mais a já precária situação de saúde na Síria. Quatro meses depois que a pandemia foi oficialmente declarada, a doença chegou a Idlib, com um primeiro caso confirmado no dia 9 de julho. Os primeiros casos de COVID-19 ocorreram dentro da comunidade médica e isso se tornou uma preocupação crescente nos meses seguintes. Mesmo antes do surto, os recursos humanos eram muito limitados no setor de saúde, os hospitais da região frequentemente precisavam compartilhar equipes médicas para permanecer abertos. Nesse sentido, os poucos médicos infectados pelo vírus e afastados temporariamente do trabalho podem gerar um grande impacto no acesso a cuidados de saúde.

Enquanto isso, a crise econômica continuou e a desvalorização recorde da libra síria se tornou uma realidade para a população, traduzindo-se em uma incapacidade de acesso a necessidades básicas como moradia, alimentação e saúde. Refugiados em alguns países vizinhos também foram afetados por crises econômicas nos países anfitriões, como no Líbano.

Depois de nove anos de guerra, o sistema de saúde sírio estava totalmente colapsado, com suprimentos limitados, poucas equipes médicas e instalações de saúde que muitas vezes estavam fechadas ou não funcionavam mais.

Março de 2021

Uma década depois, o conflito na Síria ainda não acabou e a população continua a sofrer. Seus efeitos seguem tendo um impacto desastroso sobre os sírios em todo o mundo. Atualmente, quase 12 milhões de sírios - metade da população antes da guerra - estão deslocados dentro e fora da Síria. Cerca de 5,6 milhões de refugiados estão espalhados pelo mundo, a maioria na Turquia, Líbano, Jordânia, Iraque e Egito. 6,2 milhões de pessoas estão deslocadas internamente - o maior número em todo o mundo - a maioria delas vivendo em condições precárias.

Um recorde de 12,4 milhões de sírios - quase 60 por cento da população - está agora em situação de insegurança alimentar, de acordo com novos dados nacionais alarmantes do Programa Mundial de Alimentos da ONU (PMA). Em apenas um ano, mais de 4,5 milhões de sírios passaram a sofrer com a insegurança alimentar. A crise econômica, a perda de empregos como consequência da pandemia de COVID-19 e o aumento dos preços dos alimentos agravaram a situação dos sírios, deslocados e exaustos por uma década de conflito.



 

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