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“Um rapaz líbio de 20 anos contava sua história enquanto eu removia estilhaços de seu corpo”

22/08/2019
Conheça um pouco mais da história de uma das 356 pessoas resgatadas do mar pelo Ocean Viking.
“Um rapaz líbio de 20 anos contava sua história enquanto eu removia estilhaços de seu corpo”

Foto: MSF/Hannah Wallace Bowman

O médico de MSF Luca Pigozzi, a bordo do navio de busca e salvamento Ocean Viking, conta a história de Khalil, um rapaz de apenas 20 anos resgatado e atendido em alto mar após passar por situações de terror na Líbia, país onde conflitos armados se intensificaram nos últimos meses. A história de Khalil se assemelha a muitas dos 356 sobreviventes a bordo da embarcação, que busca há quase duas semanas um porto seguro para desembarcar essas pessoas em segurança.

“Khalil foi salvo de um barco de borracha na segunda-feira, 12 de agosto de 2019. Eu estava lá quando um dos tubos inflados do bote explodiu e as pessoas caíram na água. Eu ajudei a equipe de resgate quando eles puxaram Khalil e seus companheiros de viagem para fora do mar. Ele foi uma das 105 pessoas salvas do Mediterrâneo Central pelo Ocean Viking naquele dia.

Quando voltamos a bordo do navio de busca e salvamento, ele chamou minha atenção, reclamando de dores constantes no abdômen. Depois de um rápido exame, identifiquei o culpado: estilhaços. Estilhaços de granadas ou balas são um achado comum em pacientes feridos de guerra ou aqueles que vêm de uma zona de conflito, mas é sempre um confronto ver esse tipo de lesão traumática em alguém tão jovem - com apenas 20 anos de idade.

Às vezes o metal pode penetrar profundamente, ferindo os órgãos. Nessas situações, o paciente requer grande cirurgia.  No caso de Khalil, o estilhaço foi alojado a 1,5 cm sob a pele. Fizemos, então, a remoção do fragmento do lado esquerdo de seu corpo, pois causava desconforto significativo e havia riscos sérios de infecção. Enquanto trabalhava, ele me contou sua história.

Nunca foi seu plano fazer essa travessia por mar.

Ele era um motorista de táxi na Líbia. Alguns meses atrás, enquanto ele passava por um posto de controle, alguns homens armados pararam seu carro. Pediram para ver o telefone e  checaram as fotos armazenadas no aparelho. Uma delas mostrava ele  carregando uma arma. "Mas isso é normal na Líbia hoje em dia", ele me disse. "Há uma guerra acontecendo - todo mundo carrega uma arma agora".

Enquanto no navio estamos muitas vezes focados na situação na Líbia para refugiados e migrantes, a realidade é extremamente preocupante para todos os civis. Desde o início dos combates em Trípoli, em abril deste ano, centenas de pessoas foram mortas - principalmente os próprios líbios - e dezenas de milhares de pessoas foram deslocadas, já que bombardeios indiscriminados, tiros e ataques aéreos continuam em áreas densamente povoadas da cidade.

Os soldados acusaram Khalil de fazer parte de uma milícia ou grupo armado. Eles pegaram seu carro, seu dinheiro e documentos, antes de jogá-lo na prisão.

Ele foi detido por três meses. Todos os dias ele era interrogado e espancado - o que eu reconhecia pelas cicatrizes em seu corpo. As pessoas mantidas em cativeiro eram muito maltratadas, às vezes passando dias sem comida ou água. A tensão ia aumentando à medida que as pessoas ficavam cada vez mais angustiadas. Um dia, a tensão transbordou e houve um motim.

Khalil descreveu como as pessoas começaram a correr, tentando escapar. Quando ele tentou fugir, um dos guardas atirou nele com um Kalashnikov, mas a bala não o atingiu de forma fatal. Ao redor dele, via pessoas sendo baleadas e caindo. Ele não sabia se toda aquela gente havia morrido porque, naquele momento, ele lutava pela própria vida. Khalil apenas continuou correndo e correndo, apesar da ferida e do sangramento.

Nos dias seguintes, a principal preocupação dele era encontrar segurança. Temia ser encontrado por uma milícia ou grupo armado. Sua mãe disse que não era seguro estar em casa e, assim, resolveu continuar a se deslocar de um lugar para outro.

Quando finalmente chegou em Trípoli, ligou para um primo, que estava morando lá, em busca de ajuda. O primo contou que estava em turkina ou "no canto", como as pessoas chamam o local onde se reúnem antes de serem empurradas em barcos para atravessar o Mediterrâneo Central.  

Foi assim que ele saiu da Líbia, em um barco de borracha, aliviado por deixar um país devastado pela guerra onde não havia lugar seguro para ele. Não posso começar a imaginar como me sentiria em sua posição: forçado a entrar na escuridão do mar, arriscar minha vida na esperança de uma vida melhor ”.

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