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Um olhar sobre a desnutrição

16/10/2007
No Dia Mundial da Alimentação, Médicos Sem Fronteiras publica um pequeno dossiê sobre o problema que afeta 146 milhões de crianças de todo o mundo

A desnutrição afeta principalmente e de forma mais grave crianças com menos de dois anos de idade. No entanto, as que têm menos de cinco anos de idade, adolescentes, grávidas e mulheres em fase de aleitamento, os idosos e os doentes crônicos também são vulneráveis.

No Dia Mundial da Alimentação, Médicos Sem Fronteiras publica um pequeno dossiê sobre o problema que afeta cerca de 146 milhões de crianças em todo o mundo.

O que é desnutrição?


A desnutrição freqüentemente deixada de lado quando a discussão é a fome, especialmente no contexto do discurso pelo "fim da fome" ou "alimentação mundial". Essas definições vagas ajudam a perpetuar a resposta inadequada à desnutrição. É crucial saber fazer a distinção entre desnutrição e a fome, uma vez que o combate à desnutrição requer um esforço que vai além da distribuição de comida.

Geralmente, a fome é classificada como a deficiência em ingestão calórica – qualquer pessoas cuja dieta diária contiver menos do que o mínimo definido de 2.100 quilo calorias é considerada vítima da fome ou mal alimentada. A resposta típica à fome é a distribuição de alimentos que ajudam à ingestão calórica diária.

A desnutrição, no entanto, não é apenas o resultado da ingestão insuficiente de alimentos. É uma patologia causada principalmente pela falta de nutrientes essenciais. A maioria da ajuda alimentar configura-se uma resposta inadequada à desnutrição uma vez que oferece quantidades insuficientes de nutrientes essenciais ou os fornece de uma maneira que facilita sua destruição durante o cozimento do alimento ou não absorvido de maneira própria pelo corpo.


Quem apresenta mais risco de ficar desnutrido?

A desnutrição afeta em sua maioria e mais gravemente crianças com menos de dois anos de idade. No entanto, outras com menos de cinco anos de idade, adolescentes, grávidas ou mulheres em fase de aleitamento, idosos e doentes crônicos (incluindo os que têm HIV/Aids e tuberculose) também são vulneráveis. As crianças são especialmente suscetíveis a problemas de crescimento quando os alimentos têm de ser introduzidos na alimentação para complementar a amamentação no primeiro e segundo ano de vida. O desgaste e outras formas de desnutrição aguda freqüentemente se manifestam entre as crianças através de ciclos sazonais, especialmente durante o período de entressafra das colheitas.

"Quando as crianças sofrem de desnutrição aguda, seus sistemas imunológicos ficam tão fragilizados que o risco de morrer aumenta enormemente. Uma doença infantil banal como a infecção respiratória ou gastroenterite pode levar rapidamente a complicações em uma criança desnutrida e o risco de morte é alto", explica a médica Susan Shepherd, coordenadora médica do programa nutricional de MSF em Maradi, no Níger.


Como a desnutrição é identificada?

A desnutrição é identificada de três formas: através de indicadores de peso e altura de uma referida população, pela medição da circunferência do braço (MUAC) ou pela presença de edemas nas faces ou pés.

Se as deficiências na dieta persistirem, as crianças param de crescer e ficam com uma altura bem inferior à sua idade. Isso é classificado como desnutrição crônica. Se eles apresentarem perda de peso ou 'desgaste' (peso baixo com relação à sua altura), então são descritos como vítimas de desnutrição aguda. Ambos os casos de desnutrição pode ser classificados mais tarde como moderados ou graves.

A desnutrição aguda severa tem duas principais formas clínicas – o desgaste severo (chamado marasmo) e o edema nutricional (chamado de kwashiorkor). É a análise clínica que determina se o tratamento será feito no hospital ou com alimentos prontos para uso (RUF, na sigla em inglês) em casa. A experiência de MSF no Níger mostra que a maioria das crianças não apresenta complicações e pode seguir o tratamento com RUF em casa. Desnutrição aguda severa apresenta um índice de fatalidade de até 21% sem uma intervenção eficaz. Mas qualquer criança desnutrida apresenta um maior risco de desenvolver complicações que podem levar a doenças graves ou à morte.


Quais são as conseqüências da desnutrição?

A desnutrição está associada à metade de todas as mortes de crianças com menos de cinco anos registradas a cada ano. O risco de morte é particularmente alto para crianças com desnutrição aguda severa, cerca de 20 vezes maior do que o de uma criança saudável.


Quais são os números globais da desnutrição?

Em países em desenvolvimento, 146 milhões de crianças com menos de cinco anos de idade estão abaixo do peso, de acordo com o peso definido por idade (uma em quatro crianças). Sessenta milhões de crianças com menos de cinco anos sofrem de desgaste (quase que uma em dez crianças).

O sul da Ásia, o Sahel e o Chifre da África são os principais focos de desnutrição e mortalidade infantil. Metade das mortes entre crianças com menos de cinco anos nos países em desenvolvimento ocorre nessas regiões.