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Ucrânia: pessoas co-infectadas com HIV receberão tratamento de hepatite C na região de Mykolaiv

04/12/2017
A possibilidade de distribuição de medicamentos genéricos para hepatite C no país aumenta o potencial de tratamento
Ucrânia: pessoas co-infectadas com HIV receberão tratamento de hepatite C na região de Mykolaiv

Foto: MSF

Médicos Sem Fronteiras (MSF) iniciou o tratamento para a hepatite C com pessoas co-infectadas com hepatite  C e HIV na região de Mykolaiv, no sul da Ucrânia, onde a prevalência de HIV é duas vezes maior do que a média do país.

As pessoas que vivem com o HIV são extremamente vulneráveis para contrair o vírus da hepatite C, que é a quinta principal causa de morte de pessoas vivendo com HIV na Europa.

Em um esforço conjunto com o Ministério da Saúde da Ucrânia e o Centro Regional de Cuidados Paliativos e Serviços Integrados de Mykolaiv, 750 pessoas vivendo com HIV e hepatite C, que recebem terapia antirretroviral, receberão tratamento efetivo e gratuito fornecido por MSF para hepatite C crônica, usando os medicamentos sofosbuvir e daclatasvir. Outras 250 pessoas, um grupo composto por pessoas que antes injetavam drogas e estão em terapia de substituição de opióides, ou são profissionais de saúde infectados com hepatite C, também receberão tratamento.

O gerente de atividades médicas de MSF em Mykolaiv, dr. Marcelo Naveira, disse: "Não haverá um verdadeiro progresso na resposta da saúde pública ao HIV/AIDS se as mortes relacionadas à hepatite C continuarem a afetar pessoas vivendo com HIV".

"O estigma e a discriminação dirigidos a pessoas co-infectadas também devem ser abordados. Este projeto destina-se não só a fornecer tratamento de hepatite C para as pessoas que vivem com HIV, mas também a melhorar o acesso aos medicamentos e a educação e apoio para ambas as doenças na Ucrânia ".

Uma fase do tratamento que MSF está fornecendo pode ser completada com medicação oral em cerca de três meses, enquanto que por mais de uma década as opções de tratamento para a hepatite C foram restritas a alternativas de 48 semanas ou mais. Esses regimes mais antigos eram conhecidos por suas injeções com alta toxicidade, efeitos adversos graves e taxas de sucesso precárias, impedindo que as pessoas que vivem com HIV recebessem esse tratamento devido a complicações com a terapia antirretroviral. O novo tratamento de HCV oral com sofosbuvir e daclatasvir tem poucos efeitos colaterais e uma taxa de cura de mais de 95% após 12 semanas de tratamento.

À medida que as pessoas que vivem com o HIV em todo o mundo enfrentam uma batalha para obter versões genéricas acessíveis de antirretrovirais, aqueles que vivem com hepatite C na Ucrânia são prejudicadas pela falta de versões genéricas dos medicamentos mais eficazes. Atualmente, a corporação farmacêutica norte-americana Gilead Sciences mantém o monopólio de patentes do sofosbuvir na Ucrânia e até chegou a processar o governo, forçando-o a cancelar o registro de uma versão genérica de sofosbuvir que poderia ser usada.

A Gilead anunciou recentemente a inclusão da Ucrânia no acordo de licença voluntária que permitiria que até 11 empresas farmacêuticas indianas registrem o medicamento. No entanto, ainda não há acesso a versões genéricas acessíveis. O daclatasvir permanece não registrado no país.

"Por muitos anos, a Gilead viu a Ucrânia e muitos outros países de renda média com grande carga de hepatite C como mercados potenciais e os manteve fora de qualquer iniciativa de acesso com licenças voluntárias que permitiriam a disponibilidade de versões genéricas acessíveis no país", disse Jessica Burry, farmacêutica da Campanha de Acesso a Medicamentos de MSF. "Finalmente, após uma pressão considerável, a Gilead acabou cedendo à pressão e incluiu a Ucrânia no território de sua licença com empresas genéricas. Nós realmente esperamos que as empresas genéricas comecem a solicitar o registro em breve na Ucrânia, resultando em concorrência, o que permitiria ao governo ucraniano negociar e reduzir os preços até 100 dólares".

Os pacientes no programa de MSF também serão apoiados com aconselhamento e educação em saúde, a fim de melhorar a adesão ao tratamento e ajudá-los a gerenciar questões sociais que surgem com o seu diagnóstico. Ao fornecer informações sobre a hepatite C e fortalecer as habilidades dos pacientes na busca de serviços de saúde, MSF espera que seja possível superar o estigma e atender adequadamente às necessidades dos pacientes.

Quando não tratada, a hepatite C pode levar à insuficiência hepática e câncer de fígado - complicações que matam mais de 700 mil pessoas por ano em todo o mundo. Os sintomas do vírus podem não aparecer até que ele tenha atingido um estágio crônico. Para as pessoas que vivem com o HIV, a progressão da doença é mais rápida e o tempo é vital no diagnóstico da hepatite C.

MSF também forneceu equipamentos de diagnóstico altamente avançados para o centro em Mykolaiv, onde os testes começaram em novembro.

No Centro Regional de Cuidados Paliativos e Serviços Integrados de Mykolaiv, de 1.940 pessoas apresentando co-infecção de HIV e HCV, apenas 52 casos foram confirmados. Um total de 8.819 pessoas vivendo com HIV estão cadastradas no centro.

Foram 18 anos desde que MSF começou a prestar assistência médica na Ucrânia, começando em 1999, quando a organização trabalhou em Mykolaiv, Odessa e Simferopol, fornecendo tratamento para HIV/AIDS, bem como a prevenção da transmissão materno-infantil da doença. Agora MSF está enfrentando uma das maiores causas de morte para essa população - a co-infecção do vírus da hepatite C.

Em abril de 2017, MSF assinou um Memorando de Cooperação com o Ministério da Saúde na Ucrânia para melhorar o tratamento de hepatite C e reduzir a morbidade e mortalidade do vírus num grupo de 1.000 pacientes, incluindo pessoas vivendo com HIV e hepatite C, pessoas que injetavam drogas e têm hepatite C e cerca de 100 profissionais de saúde infectados com o vírus. Em maio de 2017, MSF assinou um Memorando de Cooperação com a Administração Estatal Regional de Mykolaiv.
 

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