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Ucrânia: “Estamos perdidos e com muito medo”

05/07/2016
Dois anos após o início do conflito, população que vive nas regiões próximas à linha divisória entre os dois lados sofre com falta de acesso a tratamento médico
Ucrânia: “Estamos perdidos e com muito medo”

Foto: Sarah Pierre/MSF

Já faz mais de dois anos da eclosão do conflito no leste da Ucrânia, mas, ainda assim, milhares de vítimas continuam esquecidas em regiões próximas à chamada linha de contato – que separa as forças do governo dos grupos de oposição. Mais de 9.300 pessoas foram mortas e cerca de 21.500 feridas desde meados de abril de 2014*. Apesar de a atenção internacional não estar mais voltada para o conflito ucraniano, ainda há violações frequentes do cessar-fogo acordado no ano passado, e elas continuam provocando mortes.

O conflito tem tido um custo muito para a população, especialmente as pessoas que não conseguiram fugir no auge dos confrontos e foram deixadas para trás nas áreas próximas à linha de contato, onde voltaram a ocorrer bombardeios diários. Muitos idosos continuam encurralados, recebendo pouca ou nenhuma assistência, enfrentando necessidades agudas de saúde mental e com acesso mínimo a cuidados médicos essenciais para doenças crônicas.

Médicos Sem Fronteiras (MSF) é atualmente uma das poucas organizações internacionais que oferece assistência médica e psicológica direta em áreas próximas ao conflito. Equipes de MSF baseadas em Bakhmut e Mariupol estão operando clínicas móveis e apoiando instalações de saúde por meio do fornecimento de remédios e equipamentos. Os profissionais viajam a cerca de 40 localidades para chegar aos mais necessitados. Eles realizam o atendimento médico dentro de escolas vazias, prédios públicos ou em centros de saúde abandonados. Muitas pessoas ofereceram o espaço de suas casas para que médicos de MSF trabalhassem.   

Embora algumas instalações de saúde estejam sendo reabertas em várias localidades ao longo da linha de contato, muitos profissionais de saúde ainda não retornaram aos seus vilarejos por temer a proximidade do conflito ativo. Em algumas áreas, clínicas ou hospitais permanecem sem estoques de medicamentos. Em outras, instalações de saúde foram parcial ou completamente destruídas.

Tratamento para doenças crônicas

A falta de tratamentos para doenças crônicas, como diabetes e problemas cardiovasculares, é uma das maiores necessidades médicas entre os idosos. Nas regiões ao longo da linha de contato, MSF está trabalhando para responder às falhas causadas por uma grave escassez na oferta de cuidados de saúde. Em cidades para onde algumas pessoas fugiram, como Mariupol, as altas taxas de desemprego e a inflação galopante fazem com que pessoas que vivem com essas doenças simplesmente não possam arcar com os custos de tratamentos essenciais. Sem receber cuidados, elas ficam expostas a complicações de saúde.

Equipe de MSF presta assistência médica a idosos em clínica móvel de Mariupol, na Ucrânia (Foto: Misha Friedman)Devido ao alto número de pacientes idosos, mais da metade dos pacientes de MSF apresenta doenças cardiovasculares. O diabetes também é comum, com aproximadamente um em cada dez pacientes realizando ou precisando de tratamento. 

Oferecer cuidados para doenças crônicas é um desafio, particularmente nas áreas mais inacessíveis em razão da falta de segurança. “É essencial que os pacientes com doenças crônicas tenham acesso contínuo ao tratamento”, diz a Dra. Gabriela Das, coordenadora médica de MSF. “Para evitar complicações médicas, em caso de não conseguirmos chegar regularmente a pacientes em risco, nos asseguramos que eles tenham uma reserva de medicamentos, pelo menos até a próxima consulta.” 

Estima-se que, do 1,75 milhão de pessoas que ainda estão deslocadas por causa do conflito, mais de um milhão seja de aposentados. A média da aposentadoria recebida é o equivalente a somente 42 euros por mês. Como o preço mensal dos medicamentos para doenças crônicas é de 14 euros, cerca de um terço do valor da aposentadoria, o tratamento continua fora do alcance de muitos pacientes.

Raisa, de 80 anos, é aposentada e está vivendo em Taramchuk, um pequeno vilarejo próximo à linha de contato. Em agosto de 2014, sua casa foi destruída por um bombardeio e agora ela vive com um vizinho que fugiu do vilarejo quando o conflito se intensificou. “Estamos perdidos e com muito medo”, diz Raisa. “A vida aqui é terrível; às vezes, eu tenho pensamentos suicidas. Sinto desespero por me ver nessa situação com a idade que tenho.”

Marcas psicológicas permanentes

Depois de dois anos de conflito, o trauma psicológico é disseminado, com famílias e comunidades totalmente despedaçadas. Os mais velhos são especialmente vulneráveis. Muitos tiveram que se despedir de seus filhos e netos, que foram procurar segurança em cidades maiores, e frequentemente ficaram sozinhos e sem apoio emocional. Quando se vive diretamente exposto ao conflito, ansiedade e depressão são problemas comuns.   

MSF começou a prestar assistência à saúde mental como parte de suas atividades médicas na Ucrânia em julho de 2014. Desde então, a organização realizou cerca de 18 mil consultas individuais e em grupo. Um número significativo dessas consultas foi para idosos.

“Os pacientes idosos que atendemos às vezes estão assustados e sentem como se estivessem enlouquecendo”, diz Viktoria Brus, psicóloga de MSF em Kurakhove. “Eles começam a se esquecer das coisas, ficam em silêncio e não dizem mais nada. Nós lhes oferecemos mecanismos simples de lidar com a situação, reiteramos a importância de seu papel na família, e mostramos como eles podem fazer pequenas coisas, como conversar com outras pessoas do vilarejo, para se sentirem melhores.”

A ansiedade afeta mais da metade dos pacientes de saúde mental de MSF. “A exposição direta ao conflito é uma das razões principais pelas quais observamos níveis tão altos de ansiedade”, diz a Dra. Das. “A sensação de desânimo e incerteza em relação ao futuro contribui para isso. A carga de estresse também pode contribuir para agravar sintomas físicos de outras condições médicas. Vemos isso frequentemente em pacientes que têm hipertensão. Apesar de estarem sob tratamento, eles podem ter dificuldades para respirar, sofrer palpitações e problemas para dormir por conta do estresse emocional. Por esse motivo, é crucial que os serviços médicos sejam ofereceridos juntamente com assistência psicológica, a fim de reduzir riscos para a saúde física e mental do paciente.”

Falta de acesso a áreas não controladas pelo governo

Até outubro de 2015, MSF estava trabalhando nos dois lados da frente de batalha, prestando assistência em áreas controladas ou não pelo governo. Naquele mês, contudo, a autorização para que MSF trabalhasse nas autoproclamadas Repúblicas Populares de Luganks e Donetsk (RPL e RPD) foi revogada. Hoje, as equipes de MSF só podem trabalhar em áreas controladas pelo governo ucraniano. “Quando nossas equipes tiveram de sair da RPL e da RPD, deixamos para trás milhares de pacientes em necessidade”, diz Mark Walsh, coordenador-geral de MSF na Ucrânia. “Agora estamos especialmente preocupados com aqueles que enfrentam males como diabetes, problemas crônicos nos rins, doenças cardíacas e tuberculose. Para responder às necessidades presentes nos dois lados do conflito, continuamos comprometidos a retomar nossas atividades na RPL e na RPD assim que for possível.”

Em 2015, MSF doou medicamentos e equipamentos médicos a mais de 350 instalações de saúde em ambos os lados da frente de conflito na Ucrânia, atendendo mais de 9.900 pacientes com ferimentos causadas pelo conflito, mais de 61 mil pacientes com doenças crônicas e assistindo o parto de 5.100 mulheres. Equipes de MSF também conduziram 159.900 consultas de cuidados básicos de saúde e 12 mil consultas de saúde mental em cooperação com o Ministério da Saúde. MSF também manteve pontos de primeiros socorros e de água para atender às pessoas que esperam em longas filas, sob o calor do verão, para atravessarem a frente de batalha nos pontos de controle de Novotroitske, Zaitseve e Mayorsk.

Conclusão de atividades na área de Bakhmut (regiões de Lugask e norte de Donetsk) no fim de julho de 2016

Depois de dois anos oferecendo cuidados médicos e assistência humanitária à população afetada pelo conflito em Bakhmut e em seu entorno, MSF encerrará suas atividades no fim de julho de 2016. Muitas das atividades realizadas por MSF no local serão repassadas para outras ONGs, junto com equipamentos e suprimentos, para que continuem prestando assistência pelos próximos meses.   

*Fonte: Missão de Monitoramento na Ucrânia do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, 14º relatório, página 6 - http://www.ohchr.org/Documents/Countries/UA/Ukraine_14th_HRMMU_Report.pdf

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