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Tuberculose: um infeliz ressurgimento

24/03/2010
Da Suazilândia ao Quirguistão, equipes de MSF lutam contra o ressurgimento da doença

No final do século XX, o otimismo prevaleceu. As pessoas diziam que a tuberculose estava para desaparecer do mundo. Entretanto, a doença, que no passado afligiu centenas de milhares de “tuberculosos” na Europa, que contavam com o mais privilegiado tratamento em sanatórios nos Alpes, está voltando com uma vingança. Da Suazilândia ao Quirguistão, equipes de MSF estão lutando contra seu ressurgimento.

Céu na terra. Essa é a primeira impressão de um visitante que chega à clínica de Novo Paraíso, um dos 17 centros de saúde supervisionados por MSF na região de Shiselweni, na Suazilândia. Localizada no topo de uma colina verdejante, a clínica não é longe da aldeia, que é composta por algumas dúzias de casas, uma igreja, e uma escola cercadas por campos e pradarias. Na sombra de uma grande árvore, três mulheres vendem frutas e vegetais coloridos.

A cena paradisíaca é, no entanto, enganosa. Atrás da clínica, 30 pacientes esperam em fila. Homens, mulheres e crianças, todos vindos para renovar suas prescrições de medicamentos antirretrovirais ou para serem testados para tuberculose (TB). Como a maioria das cidades na Suazilândia, Novo Céu está sendo devastada pela combinação duplamente fatal de HIV/Aids com tuberculose. Um adulto em cada quatro é soropositivo e, mais importante, 80% das pessoas infectadas com TB a cada ano também têm HIV/Aids.

“A Aids e a tuberculose já causaram muita tristeza na comunidade”, disse Sam Simelane, 62 anos, um dos poucos idosos da cidade. “Muitas pessoas morreram e muitas perderam a família inteira”.

Na Suazilândia, assim como em muitos países da parte sul da África, a tuberculose se tornou uma das principais causas de morte para pessoas com HIV/Aids, que têm defesas imunológicas enfraquecidas. MSF atua na província de Shiselweni desde novembro de 2007, ajudando a tratar alguns milhares de pacientes afetados por tuberculose e Aids. No final de 2009, mais de 2,7 mil pacientes de TB estavam recebendo tratamento em centros supervisionados por MSF na Suazilândia, incluindo 105 pacientes com uma forma da doença resistente a medicamentos (MDR-TB).

Tuberculose retorna

Em um momento, pensamos que a tuberculose estava prestes a ser erradicada. No entanto, a doença que no passado afligiu centenas de milhares de “tuberculosos” com o mais privilegiado tratamento em sanatórios nos Alpes, está voltando com uma vingança. Hoje, os principais focos de seu ressurgimento estão no sul da África, sudeste asiático e na Ásia central, três regiões onde as equipes de MSF estão operando e tratando pacientes com tuberculose.

MSF Suíça é mais ativo na Suazilândia e no Quirguistão, onde trata os pacientes com a doença, mas seus voluntários também cuidam de pacientes com TB em muitos outros países, como Mianmar, Djibuti e Moçambique. Enquanto na Suazilândia a combinação do HIV com a tuberculose está cobrando um preço terrível dos pacientes, no Quirguistão centenas de pacientes com TB estão concentrados nas prisões: a prevalência da doença entre os presos é de 20 a 30 vezes maior que no resto da população. MSF intervém desde 2006 em duas penitenciárias do Quirguistão, onde mais de 1,7 mil prisioneiros foram, desde então, diagnosticados e tratados.

Seguir um tratamento  contra a tuberculose é algo muito restritivo, ainda mais quando se trata de uma forma da doença que é resistente aos medicamentos, algo cada vez mais frequente. Em adição ao acompanhamento médico, MSF garante que seus pacientes possam receber tratamento nas melhores condições. Na Suazilândia, como em Moçambique, MSF tem treinado pacientes "experts", que ajudam os outros pacientes a seguir corretamente o tratamento até o fim. No Quirguistão, uma equipe de trabalhadores sociais de MSF e uma rede de voluntários ajudam a trazer cerca de 70 ex-pacientes que são ex-detentos, para que eles possam concluir o tratamento contra a doença. A assistência inclui consultoria, informação e formação, bem como alimentos e dinheiro para o transporte.

Umutai Dauletova, um coordenador social de MSF no Quirguizistão, explica que a internação em hospitais públicos pode ser difícil para os ex-presos com tuberculose. "Nossos pacientes são estigmatizados na sua comunidade, não só porque têm tuberculose, mas também porque eles estavam na prisão. Alguns deles são sem-teto, desempregados, alcoólatras, viciados em drogas, e até mesmo em situação irregular. Estamos agora tentando implementar um sistema de gestão de casos, uma abordagem comum que os profissionais possam utilizar ajudando os pacientes a aderir ao tratamento."

Resistência

O retorno da tuberculose para o trsite hall das epidemias globais é acompanhado por um fenômeno ainda mais preocupante: a emergência de formas da doença que são resistentes ao tratamento padrão (MDR-TB). Este tratamento, com antibióticos descobertos durante meados do século XX, já não são eficazes e, quando confrontados com as resistências desenvolvidas por alguns pacientes, originam um tratamento muito mais longo e difícil. Além disso, a recuperação não é sempre garantida. "Estes pacientes recebem injeções diárias por uma média de seis meses, e seu tratamento, que é baseado em vários comprimidos, pode durar até três anos, com inúmeros efeitos colaterais", explica o Dr. Hermann Reuter, um profissional de MSF na Suazilândia. Estes efeitos secundários variam de desagradáveis a insuportáveis, ou até mesmo perigosos. Alguns medicamentos de TB têm horríveis efeitos gástricos, causando náusea súbita e podendo levar a disfunções nos rins e no fígado. A única maneira de combater estes efeitos colaterais é tomar ainda mais medicamentos além da já elevada quantidade diária.

"Foi um pesadelo. Você não pode imaginar como era difícil tomar os medicamentos", diz Ruslan, um ex-prisioneiro do Quirguistão, que foi curado de sua MDR-TB por MSF. "Você quer dormir, mas não pode. Você está cansado, mas tem azia.... Você vomita, mas não se sente melhor. Tomei os medicamentos mesmo quando eu estava no meu pior estado, mas o meu ex-companheiro de cela não conseguiu continuar. Os efeitos colaterais foram insuportáveis para ele.”

A cada ano 120 mil pessoas em todo o mundo morrem de MDR-TB, ao mesmo tempo em que cerca de meio milhão de novos casos são identificados. Entre estes, 97,5% não têm acesso a um diagnóstico ou tratamento apropriado e devem conviver todo dia com este doença infecciosa e potencialmente mortal. O número de pacientes com formas de tuberculose resistentes aos medicamentos está subindo. A maioria dos pacientes contraem MDR-TB porque não são devidamente tratados. No entanto, mais e mais pessoas estão contraindo na primeira infecção a forma resistente da doença.

Confrontada com a ameaça do ressurgimento mundial da epidemia e sua aliança perigosa com HIV /Aids em certas regiões, MSF não pode apenas tratar os pacientes. A organização também atua para que a doença possa ser tratada com mais facilidade e rapidez. "Nós estamos lutando em várias frentes nas nossas discussões com os governos, a OMS, e laboratórios farmacêuticos", afirma Dr. Frauke Jochims, médico de referência para TB na sede de MSF em Genebra. "Por um lado, as melhores ferramentas para detectar e diagnosticar a tuberculose precisam ser desenvolvidas, especialmente para formas resistentes da doença. Por outro lado, é evidente que os antibióticos atuais são ao mesmo tempo ineficazes e a causa de efeitos colaterais intoleráveis para os pacientes. Precisamos rapidamente de novos tratamentos e medicamentos que sejam eficazes e acessíveis para os países em desenvolvimento. "

Em Djibuti, por exemplo, muitas das crianças desnutridas sendo tratadas com nutrição terapêutica no centro de MSF  também sofrem de tuberculose. As crianças são as mais negligenciadas entre as vítimas de tuberculose, pois, no momento, não temos as ferramentas de diagnóstico que se adequem às suas necessidades. MSF tem insistindo para que laboratórios desenvolvam fórmulas adequadas para as crianças.

Infelizmente, a luta contra a tuberculose deve continuar a ser uma prioridade para profissionais de MSF nos próximos anos.