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Três meses de trabalho na República Centro-Africana

09/05/2014
Médica inglesa fala sobre as consequências da violência na saúde das pessoas e compartilha o que viu durante os três meses que trabalhou no noroeste do país

“Logo que desci do avião em Bozoum, me foi dito que havia ocorrido um incidente com um grande número de vítimas e meus serviços eram necessários no hospital. O aeroporto fica a cerca de 5 km da cidade e todas as casas haviam sido incendiadas quando uma onda de violência atingiu o noroeste da República Centro-Africana (RCA) nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro. Houve tantos rumores e tanto medo que as pessoas simplesmente fugiram.

Fomos de carro rapidamente para a cidade, sem ter certeza do que iríamos encontrar. Quando cheguei ao hospital, fui levada ao paciente em estado mais grave, um homem que havia sido baleado. Eu o tratei enquanto o restante da equipe lidava com os ferimentos mais leves.

Naquele momento, havia apenas cinco ou seis pacientes. A equipe me disse que os muçulmanos ainda não tinham procurado o hospital porque estavam com muito medo de serem atacados. Cerca de uma hora depois, 18 chegaram de uma só vez.

As pessoas feridas apresentavam diversos ferimentos relacionados a estilhaços de granadas que haviam sido lançadas no bairro ocupado por muçulmanos; outros tinham ferimentos à bala decorrentes do tiroteio que seguiu a explosão. Um homem tinha um ferimento em seu olho e vimos alguns casos de ferimentos na cabeça também.
 
Tivemos de tomar uma difícil decisão relacionada a um paciente em particular. Ele tinha um ferimento à bala na virilha que havia atingido sua artéria femoral. A ferida não parecia tão grave de início. O orifício de entrada da bala era pequeno, mas, ao virar o paciente, era possível observar que a ferida de saída era maior, e sangrava profusamente – havia uma grande poça de sangue no chão.
 
Ele não teria sobrevivido a uma cirurgia ou transferência. Torcíamos para que seu sangue coagulasse e, por isso, demos a ele seis unidades de sangue, o que foi difícil sem um banco de sangue, mas ele continuou sangrando e morreu durante a noite no hospital.
 
Foi muito frustrante. Era apenas um pequeno ferimento, já naquele estágio que poderia causar um dano enorme, que não poderia ser reparado. Se a ferida tivesse apenas alguns centímetros a menos em cada lado, ele poderia ter sobrevivido.

Na República Centro-Africana, os mortos são comemorados durante a noite com o rufar de tambores. O local dos funerais é bastante próximo do hospital em Bozoum, e do local onde estávamos dormindo, então, quando havia uma morte no hospital, escutávamos tambores a noite toda. É algo que não deixa esquecer que uma pessoa morreu.
 
Naquela noite, a maioria dos pacientes não quis dormir no hospital. Eles achavam que não estariam seguros. Por isso, no dia seguinte, fomos ao bairro muçulmano tratar os feridos. Estava claro que as pessoas estavam se preparando para sair dali – estavam esvaziando suas casas, empilhando colchões e estrados de madeira nas ruas. O ataque ao bairro muçulmano foi a gota d’água e havia rumores de que um comboio pegaria as pessoas para levá-las com escolta ao Chade. A maioria dessas pessoas eram da RCA e haviam vivido por toda a vida em Bozoum. Elas tinham negócios, imóveis, famílias e uma comunidade ali. Não falavam sobre o que havia acontecido. Estavam apenas resignados a sair dali.
 
O comboio de caminhões chegou dois ou três dias depois. Nós contamos o número de caminhões chegando e saindo. Nós sabíamos que poderia ser um momento de grande tensão, na medida em que comboios já haviam sido atacados no passado. Também não estava claro se haveria espaço suficiente para toda a comunidade e estávamos preocupados que uma população ainda mais marginalizada seria deixada para trás.
 
No final das contas, toda a população, de dois ou três mil pessoas, conseguiu embarcar nos 14 caminhões. Estava quente e a viagem seria de sete horas até a fronteira. Os caminhões estavam lotados de pessoas e seus pertences. Não estava claro onde as pessoas iriam dormir e, ainda que houvesse uma escolta armada, não significava que eles não seriam atacados.
 
Nossa equipe apenas ficou ali observando, porque não havia nada que pudéssemos fazer. Uma comunidade inteira havia sido destruída. Sabíamos que a mesma coisa estava acontecendo na maioria das cidades do noroeste, que as pessoas estavam tomando a mesma decisão desesperada de deixar suas casas para viver em um campo de refugiados.
 
Logo depois disso, o coordenador do projeto e eu fomos para Bozoum explorar o restante do noroeste a partir de uma cidade chamada Bosemptele, ao sul de Bozoum, próximo da fronteira com o Chade e com Camarões.
 
Quando cheguei ao primeiro vilarejo, o coordenador do posto de saúde disse que queria me mostrar algo. Ele pediu a todos no vilarejo que levassem suas crianças doentes para mim. A primeira criança que atendi era muito pequena, estava nitidamente com malária e parecia muito mal. Sugeri que levássemos a criança para o hospital em Bozoum, mas a mãe disse que era muito longe e que não se sentiria segura se tivesse de deixar seu vilarejo. Me senti completamente impotente. A criança realmente precisava de tratamento hospitalar, mas tudo o que pude fazer foi deixar alguns medicamentos que eu carregava no kit de emergência com eles.
 
Naquele momento, me dei conta de que precisávamos ir mais até os vilarejos. Não podíamos ficar baseados em apenas uma cidade, porque as pessoas estavam com muito medo de deixar seus vilarejos, e não havia estradas ou transporte suficientes. Cheguei ali achando que trabalharia com traumas relacionados à guerra, mas ficou claro que, para além de Bangui, muitas mais pessoas estavam morrendo devido a doenças comuns na África, como a malária.
 
As pessoas fugiram de seus lares e muitas das suas casas foram incendiadas e, por isso, elas estavam vivendo nos campos ou na mata, dormindo no chão ou embaixo de árvores. Nos vilarejos, as pessoas têm poços, mas na mata, bebem aquilo que conseguem encontrar, como água de poças ou rios.

Todos os postos de saúde que visitamos estavam em péssimo estado; os medicamentos haviam sido queimados, roubados ou saqueados e as pessoas não tinham acesso a cuidados de saúde. Ouvimos histórias de pessoas que estavam morrendo na mata, mas é muito difícil quantificar essas mortes. Você houve milhares de histórias diferentes, mas não tem como confirmá-las.
 
Então, começamos a administrar clínicas nos vilarejos – estávamos atendendo entre 600 e 700 crianças em apenas uma manhã – e, eventualmente, estruturamos um hospital pediátrico para o tratamento da malária em Bocaranga.
 
Nas primeiras semanas, por vezes, sentíamos medo. Em fevereiro, ainda havia muita violência acontecendo e grupos armados por perto. Era ouvir rumores e, no dia seguinte, ir a um vilarejo e testemunhar as casas ainda em chamas.
 
Nos vilarejos, o que acontece é que os agressores vão de porta em porta. As pessoas não têm armas sofisticadas. É violência pessoal, cara a cara. Em um determinado momento, todas as pessoas nas ruas carregavam algum tipo de arma. Até crianças pequenas, de seis ou sete anos, andavam com seus machetes. As pessoas têm armas e machetes porque vivem na mata e, mesmo nas cidades, trabalham no campo. Não há um estilo de vida industrializado. E não exige muito esforço adaptar armas e machetes ao ambiente de guerra. As tensões aumentam, todos têm medo, e, se você tem uma arma, está mais propenso a matar alguém.

Após um incidente violento, tratávamos ferimentos causados por tiros ou machetes, que podem ficar sujos e infeccionar. Muitos pacientes haviam sido espancados – você pode matar alguém com uma vara. Geralmente, as pessoas não contam o que aconteceu, mas você pode imaginar o nível de brutalidade. Já vi bombas e outros tipos de violência, mas a violência pessoal é difícil de lidar e compreender.

Todos falam sobre as pessoas que perderam, e pensar em como se deram essas perdas é triste. Fui a um vilarejo onde 23 pessoas haviam morrido depois de ataques e, passado um mês, eles ainda estavam revivendo o episódio. Eles não estavam conseguindo lidar com a situação.
 
A maior dificuldade é que é praticamente impossível vislumbrar um fim para isso tudo. O país inteiro foi afetado. Mas quando você volta para visitar um posto de saúde ao qual está prestando suporte e vê as coisas funcionando, é maravilhoso. São apenas pequenas clínicas, que fariam pouca diferença. Mas, juntas, significam muita coisa.”

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