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Trabalhando em meio a cobras todos os dias

15/02/2019
Mais de 20 tipo de cobras venenosas ameaçam a segurança e a vida de trabalhadores rurais em Amhara, na Etiópia
Trabalhando em meio a cobras todos os dias

Foto: Susanne Doettling/MSF

É início da manhã no fim de novembro e ainda está quase escuro nos campos de sorgo, a 30 minutos de carro da cidade de Abdurafi. As temperaturas diurnas podem chegar a 40 graus, então a colheita ocorre antes do amanhecer. Quatro trabalhadores migrantes começaram a cortar as plantações. Dois deles têm sapatos abertos, e todos os quatro trabalham, cozinham, comem e dormem nos campos, seja debaixo de árvores ou ao ar livre.

A região remota de Amhara, no norte da Etiópia, é conhecida por suas terras férteis e suas vastas fazendas comerciais que cultivam gergelim, sorgo, algodão e outras culturas. É também uma região habitada por cerca de 20 diferentes tipo de cobras venenosas, endêmicas nesta parte da África. Durante o pico da estação de colheita, os trabalhadores agrícolas se deparam com cobras quase todos os dias.

Não andar com sapatos abertos pode parecer uma decisão banal, mas é fundamental para os trabalhadores que fazem a colheita em Amhara, na Etiópia. Eles correm todos os dias o risco de serem picados por um dos 20 tipos de cobras venenosas da região.Em busca de trabalho, quase meio milhão de trabalhadores diários migram todos os anos das terras altas da Etiópia para as fazendas das terras baixas que cercam a cidade de Abdurafi. Eles geralmente chegam em agosto para o início da safra. A maioria sai em outubro, mas outros permanecem até o início de janeiro para a colheita do sorgo.

O quinto trabalhador no campo do sorgo, Afework Meseret, de 35 anos, prepara um café da manhã simples para seus colegas de trabalho sob uma árvore na beira do campo. Eles irão comer injera, um pão escuro seco fermentado, e shiro, um ensopado feito de favas em pó e cebolas picadas.

Enquanto prepara a refeição, Afework descreve sua vida como trabalhador migrante. "Muitos de nós vêm pela primeira vez aos 19 ou 20 anos; e então voltamos todos os anos", diz ele. “Vivemos nos campos por muitos meses. De onde viemos, não há empregos. A temporada de sorgo termina em janeiro, então ainda temos algumas semanas de trabalho e renda. Antes da colheita do sorgo, trabalhei nas fazendas de gergelim. Eu prefiro trabalhar nos campos de sorgo – são mais fáceis de colher. Podemos fazer isso de pé e andando – assim, estamos menos expostos a cobras. Sabemos que as cobras se escondem nos campos de gergelim. É mais quente durante a colheita de gergelim e trabalhamos à noite. Nós geralmente passamos de colheita a colheita. Nós trabalhamos duro para ganhar dinheiro suficiente para levar para casa. É por isso que estamos aqui".

Em torno da cidade de Abdurafi, cada vez mais trabalhadores migrantes participam de sessões de educação em saúde oferecidas por MSF. Eles estão cientes dos riscos de picada de cobra e de calazar, uma doença comum, mas negligenciada, transmitida pelo mosquito-palha que se reproduz sob as árvores que margeiam esses campos. O calazar é endêmico no norte da Etiópia e fatal se não for tratado. Afework e seus quatro colegas de trabalho no campo de sorgo sabem que enfrentam uma escolha impossível: ou podem dormir debaixo de uma árvore e correm o risco de serem picados por mosquitos-palha ou podem dormir nos campos abertos e arriscar serem picados por cobras.

Mandefro Mehirt, de 30 anos, desconfia das cobras e se esforça para se proteger. "Eu tenho medo de cobras", diz ele, cortando sorgo. “É por isso que uso sapatos fechados – para proteger meus pés. Um amigo e colega meu foi mordido este ano. Ele foi a uma clínica para tratamento e voltou ao trabalho depois de cinco dias. Ele teve muita sorte porque foi logo buscar ajuda”.

Sua colega, Tetina Dagu, de 28 anos, também fala: “Eu não fui mordida por uma cobra, mas as vejo nos campos. Eu até matei uma com um pau. É por isso que tenho o pau. É minha única proteção.”

O envenenamento por picada de cobra é uma grande preocupação nas áreas rurais pobres em comunidades agrícolas e de pastoreio. Mata mais pessoas do que qualquer outra doença na lista de doenças tropicais negligenciadas (DTNs) da Organização Mundial da Saúde (OMS). Estima-se que 2,7 milhões de pessoas são picadas por cobras venenosas em todo o mundo a cada ano, resultando em morte para mais de 100 mil pessoas e desfiguração e debilidade durante a vida inteira para mais de 400 mil pessoas.

As picadas de cobra atingem os mais pobres, que muitas vezes recorrem a curandeiros tradicionais para tratamento. Uma das várias razões para isso é que eles não conseguem ter acesso – e  muito menos pagar – o tratamento médico convencional.

Em 2017, MSF tratou 609 pacientes em diferentes projetos na Etiópia, 322 deles em Abdurafi. Em 2018, o número aumentou e, até o final do ano, MSF tratou 647 pacientes apenas em Abdurafi. Estes incluem as chamadas mordidas secas (mordidas de aviso, em que o veneno não é injetado) e mordidas com envenenamento leve, moderado e grave.

Com quase nenhum financiamento atualmente vindo de doadores para prevenção e tratamento de picadas de cobra, o obstáculo continua sendo a disponibilidade de antiofídicos eficazes e de baixo custo.

A OMS começou a ajudar os países a selecionar antiofídicos seguros, que são eficazes contra as espécies de cobras locais, mas vários fabricantes deixaram de produzir alguns produtos antiofídicos, limitando ainda mais o acesso para as vítimas de picada de cobra.  

Enquanto MSF oferece tratamento gratuito em suas instalações, o tratamento em outros locais pode custar mais de 100 dólares (cerca de 375 reais), tornando-o inacessível em áreas rurais, como o norte da Etiópia, onde vive a maioria das pessoas em risco.

Antiofídicos de qualidade que são eficazes contra espécies de cobras locais e seguros quando administrados precisam ser disponibilizados, gratuitamente ou a um preço que todos possam pagar. Ao mesmo tempo, mais profissionais de saúde em áreas agrícolas remotas precisam ser treinados em como tratar picadas de cobra.

MSF espera que doadores e governos apoiem a implementação do roteiro de execução de picada de cobra da OMS, um plano ambicioso que inclui uma série de atividades para ajudar a superar as barreiras que as pessoas enfrentam no acesso ao tratamento.

MSF está cautelosamente otimista de que o roteiro da OMS poderia ser um ponto de virada no combate à picada de cobra. Nos próximos meses, trabalharemos com governos, provedores de tratamento, doadores e comunidades afetadas por picadas de cobra para fazer com que os líderes mundiais se responsabilizem para que o roteiro seja implementado e leve a uma mudança real na vida de vítimas de picada de cobra em todos os lugares.
 

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