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Top Ten: Ajuda bloqueada e doenças negligenciadas

20/12/2009
Médicos Sem Fronteiras lança 12º lista das crises humanitárias mais negligenciadas pela mídia

Civis atacados, bombardeados e impedidos de receber ajuda no Paquistão, Somália, Iêmen, Sri Lanka, Afeganistão e República Democrática do Congo (RDC), junto com a estagnação do financiamento para o tratamento de HIV/Aids e a contínua negligência de outras doenças estão entre as piores emergências registradas em 2009. Os dados fazem parte do 12º relatório “Top Ten” das Crises Humanitárias, divulgado nesta segunda-feira pela organização médica humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF).

As crises contínuas no Norte e Sul do Sudão, além da falência da comunidade internacional em combater a desnutrição infantil também foram incluídas na lista desse ano. A listagem é resultado das operações de MSF em quase 70 países, nos quais suas equipes médicas têm testemunhado algumas das piores condições humanitárias.

Três padrões distintos predominaram em 2009:

1)  Governos bloquearam assistência capaz de salvar vidas de populações encurraladas em países como Sri Lanka, Paquistão e Sudão. Neste último inclusive, grupos de ajuda humanitária – incluindo algumas equipes de MSF – foram expulsas de Darfur.

2) O respeito pela segurança de civis e de equipes de ação humanitária neutra diminuiu ainda mais em países como Iêmen, Afeganistão, Paquistão, RDC e Somália, onde as pessoas – e em alguns casos trabalhadores humanitários – foram atacados indiscriminadamente ou até mesmo diretamente.

3) Pessoas sofrendo de uma gama de doenças ignoradas foram novamente negligenciadas pela comunidade internacional e todos os que vivem com HIV/Aids viram suas chances de receber uma terapia capaz de aumentar a sobrevida significantemente reduzidas.

“Não há dúvidas de que os civis estão sendo cada vez mais vitimizados e impedidos de ter acesso à assistência capaz de salvar suas vidas, e isso tem sido feito deliberadamente e com frequencia”, afirma o presidente Internacional de MSF, Christophe Fournier.  “Em locais como o Sri Lanka e Iêmen, onde conflitos armados foram registrados em 2009, os grupos de ajuda foram impedidos de acessar os que precisam ou forçados a sair porque também foram atacados. Essa dinâmica inaceitável está se tornando a regra. Nossas equipes no terreno estão testemunhando conseqüências humanas diretas muito tangíveis dessas crises, seja em zonas de guerra ou nas clínicas de nutrição e de atendimento HIV/Aids nas quais trabalham. Nós nos sentimos compelidos e obrigados a vir a público”, explica Fournier.

No Sri Lanka, dezenas de milhares de civis ficaram presos sem nenhuma ajuda e com atendimento médico limitado enquanto o governo lutava contra os rebeldes dos Tigres Tâmil. Grupos de ajuda, incluindo MSF, foram impedidos de entrar na zona de conflito. Na Somália, os civis continuaram a agüentar o fardo de uma guerra civil brutal. Mais de 200 mil pessoas deixaram a capital Mogadíscio nos primeiros meses de 2009 e trabalhadores humanitários foram cada vez mais alvos – pelo menos 42 trabalhadores foram mortos desde 2008, incluindo três funcionários de MSF.

No Iêmen, os civis e os hospitais foram indiscriminadamente bombardeados na região do Saada no norte do país, enquanto as forças do governo lutavam contra os rebeldes. Os conflitos fizeram com que dezenas de milhares de pessoas tivessem de deixar suas casas e obrigou MSF a fechar o único hospital que atendia um distrito inteiro, depois que ele foi alvo de ataques. E em um evidente caso de abuso da ação humanitária para propósitos militares, civis que levaram seus filhos para pontos de vacinação montados por MSF em Kivu Norte, na RDC em Outubro, foram atacados pelas forças de governo. O ataque abalou seriamente a confiança necessária para realizar um tratamento médico humanitário independente em áreas de conflito.

No Paquistão, onde dezenas de milhares de pessoas fugiram dos conflitos, os hospitais foram atingidos por ataques de foguetes e dois trabalhadores de MSF foram mortos no Vale do Swat, onde a organização teve de suspender as operações devido à violência.

No front médico, anos de sucesso no aumento de tratamento para várias pessoas que vivem com HIV/Aids foram ameaçados com punição em 2009. O Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária e o Plano Emergencial para Ajuda contra a Aids da Presidência dos Estados Unidos (Pepfar, na sigla em inglês) anunciaram a decisão de reduzir ou limitar o financiamento.

“Justamente quando cada vez mais pessoas estão tendo acesso a medicamentos essenciais e especialistas médicos estão reconhecendo a necessidade de por mais pessoas em tratamento cedo, os pacientes vão ser recusados pelas clínicas porque o financiamento simplesmente não existirá”, diz Fournier. “Não poderia haver pior timing”.

A negligência também se estende à desnutrição infantil, uma doença tratável que é a principal causa de metade das dez milhões de mortes anuais preveníveis de crianças com menos de cinco anos de idade. Líderes globais reuniram-se no Encontro Mundial de Alimentação, em Roma, e não conseguiram estabelecer um compromisso para combater a doença, que grupos como MSF mostraram que pode ser prevenível e tratada através do oferecimento de alimentos apropriados que atendam a suas necessidades nutricionais.

No momento, a assistência internacional para combater a desnutrição chega a US$ 350 milhões, enquanto o Banco Mundial estima que US$ 11, 2 bilhões são necessários para combater a doença adequadamente em 36 países considerados focos de desnutrição. Além disso, a maior parte da assistência alimentar é composta por doações caras e ineficientes, pois contêm produtos de valor nutricional fraco que deve ser enviado por navio. Os recursos poderiam ser melhor gastos na obtenção de alimentos nutricionalmente apropriados em países mais próximos de sua fonte.

Outras doenças, como Chagas, kalazar, doença do sono e úlcera Buruli continuam a ser negligenciadas, com muito poucos novos compromissos em expandir o acesso ao tratamento disponível ou para a realização de pesquisa para desenvolver medicamentos novos e mais eficazes.

“Os enormes esforços devotados à pandemia H1N1 em países em desenvolvimento ilustram a capacidade de resposta para ameaças de saúde global quando existe vontade política”, diz Fournier. “Infelizmente, não conseguimos obter o mesmo compromisso para combater doenças que matam milhares de pessoas a cada ano”.

MSF começou a produzir o “Top Ten” em 1998, quando uma crise alimentar devastou o sul do Sudão e foi imensamente ignorada pela mídia americana. Realizada com base no trabalho médico de MSF, a lista busca aumentar a conscientização com relação à gravidade dessas crises que podem ou não ser refletidas na imprensa.

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