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"Tivemos que aprender em 24 horas como tratar pacientes com difteria"

23/02/2018
A líder da equipe médica de MSF, Carla Pla, descreve os desafios do tratamento da doença nos acampamentos de refugiados no sudeste de Bangladesh.
"Tivemos que aprender em 24 horas como tratar pacientes com difteria"

Foto: Anna Surinyach

"Em dezembro, quando a difteria começou no bairro de Cox's Bazar em Bangladesh, a equipe de Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Balukhali ficou completamente sobrecarregada. O distrito abriga quase 700 mil refugiados rohingyas que chegaram ao longo dos últimos seis meses, fugindo da violência em Mianmar e outros milhares que estavam lá desde crises anteriores e que vivem em barracas nos enormes assentamentos improvisados que apresentam as condições ideais para a propagação da doença.

A alguns quilômetros de distância da clínica de MSF em Balukhali, as equipes da organização começaram a construir um novo hospital em Moynarghona. Dada a urgência da situação, decidimos colocar a construção em espera e nos concentrar na criação de um centro de tratamento contra a difteria na área do hospital. Inicialmente alojado em uma série de tendas, ele foi mais tarde transferido para várias das salas concluídas.

Os pacientes com suspeita de difteria das outras unidades de saúde logo foram encaminhados para nossas equipes. Imagine a escala do problema: dezenas de milhares de refugiados que vivem nos assentamentos improvisados, com muitos dos casos suspeitos sendo encaminhados para nós.

As primeiras semanas foram difíceis. Os pacientes estavam chegando de uma vez, às vezes em mini ônibus, e nossa equipe não tinha muita experiência. Nunca tínhamos visto nada assim antes - ou apenas nos livros - já que o último surto de difteria aconteceu há décadas (recentemente houve também um surto no Iêmen). Tivemos que aprender em 24 horas como tratar pacientes com difteria.

A primeira coisa – e eu acredito que a mais desafiadora – é assegurar que os pacientes sejam isolados para evitar que a doença se espalhe. As regras se aplicam a todos, inclusive à equipe, o que significa que eles precisam passar longos períodos usando máscaras e equipamentos de proteção.

Quando as pessoas com suspeita de difteria são trazidas, a maioria tem tosse, febre e dor de garganta. Nossa equipe realiza um exame clínico. Normalmente, você vê uma membrana grossa cobrindo a garganta, com manchas brancas nas amídalas e o pescoço muito inchado. Alguns pacientes têm espasmos brônquicos. A membrana pode bloquear a garganta e dificultar a respiração. A difteria também pode aumentar os batimentos cardíacos e causar distúrbios neurológicos que podem levar a paralisia.  

Uma vez confirmado o diagnóstico, a parte mais delicada do tratamento é a dosagem da antitoxina da difteria. A medicação é aplicada por via intravenosa e pode produzir reações adversas que levam a complicações e até à morte, se não for bem administrada. O cuidado individualizado com o paciente-clínico é necessário, particularmente no início, porque você precisa detectar os efeitos colaterais rapidamente para poder detê-los.

Normalmente, o paciente é liberado dentro de 48 horas após ter dado entrada. Mas não para por aí. Outro componente importante é a vacinação e a profilaxia de todas as pessoas com as quais o paciente esteve em contato para protegê-las contra a difteria e interromper a propagação da doença.

No centro de tratamento, a equipe de MSF identifica todos os contatos que o paciente teve – parentes ou vizinhos que estiveram em contato próximo nos últimos sete dias. Pode ser muito desafiador identificar todos. No dia seguinte, uma equipe de rastreamento de contato realiza visitas e fornece vacinas. Enquanto isso, a equipe precisa verificar regularmente o paciente liberado para garantir que ele está tomando a medicação e não está sofrendo efeitos colaterais. Após um mês, o paciente volta ao centro para uma visita final quando a equipe médica confirma que não há complicações.

A difteria é uma doença evitável e a vacina faz parte do pacote básico de vacinação infantil. No entanto, vimos muitas crianças afetadas devido ao status de imunização aparentemente muito baixo dos refugiados.

Alguns pacientes morreram de difteria, o que é muito doloroso para todos os envolvidos. Tivemos um caso de uma criança que chegou até nós tarde demais. A equipe trabalhou muito e esperava que ela melhorasse. Mas ela acabou morrendo. Pensei: “por que ela veio tão tarde? Por que ela não foi vacinada?”. Você percebe que é assim que a vida é e o que precisamos é fazer as coisas mudarem.

Num outro dia, outra criança pequena foi trazida. Ela estava cansada, não tinha apetite devido à dor na garganta e estava muito assustada. Ela veio de um dos assentamentos improvisados para um lugar onde todos estavam usando máscaras e falando um idioma que ela não entendia. Nós passamos um filme, começamos o tratamento e pouco a pouco ela começou a rir. No dia seguinte, eu a vi enquanto ela recebia alta. Lembro-me de pensar: “parabéns a todos os envolvidos!”. Esta é a melhor parte do nosso trabalho.

MSF tratou mais de 4.280 pessoas com difteria no distrito de Cox's Bazar desde 31 de janeiro, a maioria delas entre 5 e 14 anos de idade. MSF manteve três instalações de saúde dedicadas à doença durante o auge do surto. Com os casos diminuindo nas últimas semanas, duas das instalações voltaram para pediatria, serviços de emergência e cuidados de saúde materno-infantil, enquanto outra permanece aberta.
 

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