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“Tivemos duas semanas para vacinar 100 mil crianças”

03/07/2013
A enfermeira Flora Escourrou retornou recentemente do leste do Chade, onde participou de uma campanha de vacinação contra o sarampo

“Foi minha primeira participação em projetos de Médicos Sem Fronteiras (MSF). Cheguei na capital, N’Djamena, em meados de abril. Juntamente com outros quatros membros da equipe enviados ao Chade, pegamos a estrada rumo a Abéché. Foram dois dias para cruzar o país de leste a oeste.

Em Abéché, há meses havia reportes de casos de sarampo e, em abril, a epidemia tinha adquirido uma escala alarmante. O sarampo é uma doença sob controle na Europa, mas que pode causar sérias complicações. No pior cenário, quando o acesso a cuidados é insuficiente, a mortalidade pode chegar a 20%. Mas a epidemia pode ser evitada por meio da vacina, que é efetiva e não é cara. A última campanha de vacinação na região de Abéché foi realizada em 2009. Com os nascimentos dos últimos anos, o número de crianças desprotegidas apresentou um aumento constante e gradativo.

Duas semanas para vacinar
Quando chegamos em Abéché, as preparações estavam bastante adiantadas, já que MSF mantém presença nas redondezas há diversos anos. As autoridades locais deram permissão para a ação e confirmaram a participação de 26 centros de saúde distritais na campanha. Tivemos duas semanas para vacinar cerca de 100 mil crianças.
A primeira tarefa foi avaliar as centenas de currículos recebidos por MSF. Selecionamos, também, uma quantidade de estudantes de enfermagem, em acordo feito com suas universidades. No final de abril, tínhamos formado e treinado 14 equipes de seis pessoas cada, às quais foram integradas membros das comunidades locais. Cada equipe teve de vacinar uma média de 500 crianças por dia.

O início da ação estava marcado para 29 de abril. Todas as manhãs, era o mesmo ritual: nos encontrávamos às 5 da manhã para finalizar as roteiros; depois, chegavam os 14 supervisores das equipes e checávamos se os equipamentos, a começar pelas vacinas propriamente refrigeradas, haviam sido colocados nos jeeps; e, finalmente, por volta das 6 da manhã, as equipes saíam.

Horas na estrada
Na primeira semana, minha principal atividade era supervisionar as operações. A viagem até os mais distantes postos de vacinação podia levar até três horas. Por vezes, as coisas tinham de ser reorganizadas, tais como pedir ao líder do vilarejo segurança extra, para evitar tumultos.

Somente crianças com idades entre seis meses e cinco anos recebem a vacina, mas as mães nem sempre sabem a idade exata de seus filhos. Como regra, se as crianças têm dentes, são vacinadas. Como exceção, as crianças de comunidades nômades são vacinadas até os 15 anos, já que é comum que não tenham tido acesso aos programas de vacinação de rotina.

É preciso persuasão para levar uma criança ao hospital
Na segunda semana, estive mais envolvida no tratamento de casos de sarampo identificados por nossas equipes. Nem sempre as mães levam seus filhos até o posto de vacinação por medo de que sejam contaminados pelo sarampo. Não há tratamento específico contra o vírus; nós combatemos os sintomas da doença com antibióticos, a febre com paracetamol e usamos pomada para os olhos. O suporte nutricional é frequentemente necessário também, já que o sarampo oferece risco de desnutrição. Todos esses tratamentos podem ser oferecidos imediatamente no local.

No entanto, crianças que apresentaram complicações foram levadas ao hospital de Abéché, onde MSF garante o tratamento gratuito. Os sintomas mais preocupantes são os desconfortos respiratórios e as convulsões. Quando as crianças têm esses sintomas, é mais fácil convencer os pais a levarem-nas ao hospital. Para pessoas pobres como as que trabalhamos, pode ser necessária alguma persuasão para que elas se encaminhem a Abéché e fiquem longe por alguns dias. Então, mesmo quando nos oferecemos para levar e trazer de volta a criança em nossa ambulância, cada negociação bem-sucedida é considerada uma vitória.

Esse primeiro projeto foi uma experiência muito enriquecedora para mim. Fiquei impressionada com a capacidade de MSF de estruturar uma operação dessa proporção. Conseguir vacinar tantas crianças em um período tão curto de tempo gera uma tremenda sensação de tarefa cumprida e me deixa com vontade de atuar novamente com a organização, em outro projeto em campo.”
 
Assim que a campanha em Abéché foi concluída, as equipes de MSF foram vacinar as crianças do distrito viziho, Abdi; depois, até o final de junho, a campanha foi levada para o norte, até Biltine, na região de Wadi Fira. Um total de 257 mil crianças foram imunizadas contra o sarampo nesses três lugares e cerca de 800 crianças doentes receberam tratamento.