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Terremoto no Chile: superando o medo

16/03/2010
MSF providencia apoio psicológico, oficinas, treinamentos e distribuição de kits de auxílio para ajudar na recuperação

Os numerosos tremores que se seguiram ao do dia 27 no Chile adicionaram novos níveis de estresse para uma população já abalada. Médicos Sem Fronteiras (MSF) fez dos cuidados de saúde mental uma prioridade em sua resposta ao desastre.

Simultaneamente, conforme as noites ficam mais frias e aumentam as chances de tempestades, MSF está acelerando a distribuição de lonas plásticas e cobertores para pessoas que tiveram suas casas danificadas e que têm acampado na rua.

A equipe psicológica de MSF está providenciando aconselhamento direto e oficinas psicossociais para vários grupos, além de transmitir conhecimentos para profissionais médicos. A organização também tem oferecido apoio às autoridades locais através do treinamento de voluntários que serão designados para levar cuidados de saúde mental até as áreas afetadas.

Já se passaram quinze dias desde o terremoto, mas os tremores continuam. Alguns foram poderosos e impactaram profundamente a população, que parece reviver o primeiro tremor toda vez que a terra treme. Maria Eugenia Mesa trabalha no Hospital Hualañé, que foi seriamente danificado e agora só possui uma ala em funcionamento. Isto significa que muitos pacientes que precisam de hospitalização têm de ser referenciados para centros de saúde em vizinhanças próximas. Ela diz que mais pessoas estão chegando ao Hospital Halañé sofrendo de ataques de pânico do que de feridas físicas. "Eu também estou em estado de pânico devido ao terremoto", acrescenta ela. "De noite, se há um tremor um pouco mais forte que o normal, eu corro imediatamente para fora de casa e continuo a dormir a céu aberto." O impacto emocional dessa situação em Maria Eugenia e em suas colegas é claramente visível, e é também o motivo pelo qual ela participou de uma oficina promovida por MSF para a equipe do Hospital Hualañé, voltada para ajudá-los a expressar suas angústias.

"O pessoal médico está particularmente afetado pela catástrofe, pois eles tiveram que lidar ao mesmo tempo com seus próprios estresses emocionais e com o dos pacientes", explica Lina Maria Peñaranda, uma psicóloga de MSF. "No grupo de atividades que organizamos, os participantes foram capazes de perceber que eles não eram os únicos nutrindo esses sentimentos, nesse sentido eles poderiam validar suas emoções. Eles podem aprender a olhar aquilo que eles viveram como uma oportunidade e parar de se enxergar como vítimas."

Uma dinâmica similar existe em muitos setores da população. MSF conduziu atividades psicossociais em um lar de idosos, onde um prédio desabou e um residente morreu. Intervenções psicológicas também foram realizadas nos campos ao longo da costa com crianças, mulheres e pescadores, que relataram estar tendo problemas para comer e dormir e ficaram com medo de voltar para suas casas.

Outra preocupação, especialmente para professores, é de como lidar com o impacto psicológico do terremoto nas crianças, uma vez que o ano escolar está para começar nas próximas semanas. Alejandro Cabello, um professor de religião que visitou a cidade costeira de Lloca, disse que "as crianças estão muito tristes. Muitas estão vivendo em tendas nas colinas porque suas casas foram devastadas. Nós professores, nos perguntamos como vamos lidar com os alunos na sala de aula. Por outro lado, nós temos um forte desejo de começar as aulas o mais cedo possível." Em uma situação como essa, diz Peñaranda, psicóloga de MSF, os professores devem deixar as crianças expressarem seus medos. MSF vai ministrar uma oficina para professores em Licatén, que vai oferecer ferramentas para que eles possam reconhecer e direcionar vários tipos de comportamentos que podem ser esperados nas crianças.

Estresse psicológico prolongado pode ter sérias implicações físicas também. "O esforço que os tremores têm gerado na população também tem afetado a saúde física dos pacientes, especialmente em pessoas que sofrem de doenças como epilepsia, diabetes ou hipertensão", explica o Dr. Franking Frías, membro da equipe médica de MSF no Chile. "Nesses eventos, este tipo de paciente tende a se descompensar. Um problema adicional é que muitos deles também perderam os seus medicamentos." Da mesma forma, uma equipe de MSF que fornece consultas médicas em acampamentos na região litorânea de Concepción encontrou muitas pessoas apresentando sintomas que são comumente ligados à ansiedade.

Distribuição de kits de higiene e Suprimentos Médicos

Embora muitos hospitais nas áreas afetadas tenham sido danificados, a maioria tem boa capacidade de resposta e pessoal qualificado. Nesses locais, os profissionais médicos de MSF estão atendendo a algumas necessidades específicas de assistência médica, realizando consultas em casa com os pacientes que não querem deixar suas residências para ir até os centros de saúde e doando alguns suprimentos médicos para evitar uma potencial escassez no sistema de saúde.

Além disso, depois de falar com as autoridades locais e trabalhar com as populações locais para identificar as necessidades, MSF está realizando distribuição orientada de kits de higiene, sacos plásticos e cobertores em áreas previamente avaliadas por seus funcionários. Um homem chamado Eugênio, que recebeu um kit de MSF, vive com sua esposa, seu pai e três filhos pequenos –  um de nove anos de idade, um de três e um de um ano – em uma casa ao lado da estrada nos arredores de Licantén. Mesmo que sua casa ainda esteja de pé, muitos quartos apresentam rachaduras. A estabilidade da estrutura ainda não foi verificada por especialistas em engenharia, então, Eugênio e sua família dormem em uma barraca pequena fora de sua casa. "Ficamos muito nervosos com cada novo tremor. As crianças não param de chorar", diz ele.

Voluntários das mesmas cidades devastadas estão ajudando a distribuir suprimentos doados para pessoas que tenham sido afetadas. A maioria destes voluntários também foram materialmente ou psicologicamente afetados, entretanto, permanecer em atividade pode ajudá-los no caminho da recuperação. "É sempre recomendado a pessoas nestes contextos que se ocupem com uma atividade ou ajudem aos outros, de modo que eles não tenham tanto tempo livre nas mãos para se entristecerem ou pensar que um tremor de terra pode acontecer novamente", explica Peñaranda.

Pode-se ver a solidariedade e o espírito de colaboração da população chilena em todas as áreas afetadas. Ao longo do caminho de Santiago de Talca, muitos caminhões e carros particulares cobertos com bandeiras viajam para o sul levando suprimentos e produtos recolhidos. Aos voluntários médicos, enfermeiros e psicólogos se unem estudantes universitários e habitantes dos municípios afetados. "Todo o país está comprometido com a reconstrução", diz Carlos Haro, o coordenador geral de intervenção de MSF no Chile. "A população vai seguir em frente e avançar."