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Tempestade Amanda atinge El Salvador, já abalado pela COVID-19

19/06/2020
MSF iniciou atividades de emergência no país
Tempestade Amanda atinge El Salvador, já abalado pela COVID-19

Foto: Alejandra Sandoval/MSF

O desastre ocorrido em consequência da passagem da tempestade tropical Amanda por El Salvador ocorreu em meio à pandemia de COVID-19. Cerca de 30 mil famílias foram fortemente afetadas. Foram registradas 27 mortes e 10 desaparecimentos. A organização internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), que presenciou a devastação e a angústia dos habitantes, iniciou uma atuação de emergência com brigada médica, assistência psicológica e entrega de kits de higiene para 200 famílias em algumas comunidades de San Salvador e 25 abrigos, em San Salvador e Soyapango.

"Ao amanhecer, a água chegava até os joelhos. Pegamos o que conseguimos, mas, mesmo assim, perdemos quase tudo”, diz um morador da comunidade de El Granjero 2 à equipe de MSF que visitou o local. Outro vizinho fica na ponta dos pés e estica a mão enquanto aponta para uma mancha escura na parede com cerca de dois metros de altura. “Até aqui, acima do batente da porta, o rio chegou ontem à noite”, conta ele a MSF.

A data de 31 de maio, o dia da tempestade Amanda, foi de desolação para muitas famílias que vivem em comunidades mais vulneráveis de El Salvador. Nas comunidades de Granjero 2, Nueva Esperanza, Flórida e Arca de Noé, em questão de minutos, a força do transbordamento do rio devastou a propriedade de muitas pessoas e levou consigo o fôlego para sobreviver à pandemia de COVID-19.

Logo na sequência da passagem da tempestade Amanada, o país foi atingido pela tempestade Cristóbal. Nas ruas e vielas das comunidades Granjero 2 e Nueva Esperanza, o desastre era evidente: camas, eletrodomésticos, itens pessoais e veículos cheios de lama, mais o lixo que veio na inundação do rio contaminado por esgoto e resíduos industriais. Em outras comunidades suburbanas de San Salvador Soyapango, deslizamentos de terra causaram a perda de casas.

"Essas populações já foram atingidas pela incerteza e falta de acesso à saúde por causa da COVID-19 e isso complica ainda mais a situação", diz Luis Romero Pineda, coordenador de MSF em El Salvador. "As pessoas estão expostas a uma série de efeitos sobre a saúde mental e física após a destruição de propriedades e perda de entes queridos. Essa situação também agrava o contágio por COVID-19, pois não há garantias de saúde e higiene”, acrescenta. Para Romero Pineda, “se a violência em El Salvador já enfraquece a prestação de serviços de saúde e fortalece o estigma, tempestades em meio à pandemia de COVID-19 são um triste balde de água fria para a população e para as autoridades.”

Em Granjero 2, pessoas de todas as idades ajudam, ao longo do dia, a resgatar o que resta de seus pertences. À noite, alguns vão para abrigos. Outros dormem no chão molhado de suas casas vazias por medo de roubo ou contágio de COVID-19 em abrigos, que não têm garantia de proteção individual contra o vírus.

Na maioria dos abrigos espontâneos e autorizados pelo governo, é impossível o distanciamento físico e o cumprimento de medidas preventivas para evitar infecções. Existem poucas ou um número insuficiente de janelas, deixando os locais sem ventilação. O abastecimento de água é precário, porque os canos foram danificados e não há banheiros limpos suficientes. Sob essas condições, a propagação da COVID-19 e de outras doenças é fácil.

"Diante do desastre, visitamos algumas dessas comunidades e abrigos e iniciamos uma atuação de emergência com a oferta de cuidados de saúde primária e psicológicos na clínica móvel de atendimento psicossocial em abrigos e por meio da doação de kits de higiene”, acrescenta Romero Pineda.

Condições de saúde física e mental

Inquietação e tristeza são estados recorrentes nos habitantes de El Granjero 2, Nueva Esperanza, Arca de Noé e Flórida, além de muitos outros que tiveram que fugir para abrigos. Antes de perderem quase tudo durante a tempestade, já enfrentavam as consequências econômicas e sociais do cumprimento da quarentena doméstica obrigatória imposta pelo governo salvadorenho para a prevenção da COVID-19. A falta de renda fixa e de comida e abrigo preocupam cada vez mais os afetados.

A gestora de atividades de saúde mental de MSF Ana Paula Abreu explica que "desastres naturais podem gerar traumas graves nas pessoas que os enfrentam. De um momento para o outro, você vê todo o seu espaço pessoal, que faz parte da identidade do sujeito, destruído. Buscar apoio psicossocial nesse momento é essencial, pois tem efeito de prevenir problemas de saúde mental.”

O medo do contágio de doenças se soma às preocupações das pessoas que hoje precisam enfrentar aglomerações para receber alimentos e para dormir e se abrigar das chuvas, deslizamentos de terra e inundações. "Quando a água do riacho chegou, ficamos cheios de lixo, água suja e lama", dizem dois vizinhos. "Tiramos os sapatos e ficamos na lama para procurar nossos pertences. Em alguns dias, se não adoecermos da COVID-19, ficaremos doentes de infecção na pele, gripe ou diarreia ”.

“Existem vários riscos em uma situação como esta. Devido à exposição à água contaminada e à falta de água, existe o risco de surto de diarreia, infecções bacterianas, infecções respiratórias, doenças da pele e risco de transmissão acelerada da COVID-19 devido à superlotação e aglomeração. A interrupção de tratamentos e perda registros médicos pode gerar complicações em pacientes crônicos ”, alerta Serge Jory, gerente de brigadas médicas.

Alguns dos habitantes afetados são pacientes que precisam de tratamento médico constante e que perderam suas consultas devido à interrupção de serviços médicos não relacionados à COVID-19 nas unidades de saúde. Alguns sofrem de diabetes, hipertensão ou outras condições. Eles não têm medicamentos ou outros suprimentos para prevenir infecções e piora em seu estado de saúde.

A falta de água os impede de se lavar, lavar as mãos ou recuperar itens pessoais.

Atividades de emergência de MSF após a tempestade Amanda

Após uma breve análise prévia, as equipes de MSF detectaram necessidades de saúde física e mental dos habitantes da comunidade El Granjero 2. MSF iniciou sua assistência médica e de enfermagem para as pessoas mais afetadas, bem como de saúde mental. Além disso, a equipe de promoção de saúde abordará questões relacionadas à educação em saúde e prevenção de doenças, incluindo a COVID-19. Também doará kits de higiene e abrigo para as famílias. MSF usa equipamentos de proteção individual em todas as atividades médicas para fornecer cuidados seguros para a equipe e seus pacientes.

Infelizmente, a devastação das chuvas em El Salvador e o contágio da COVID-19 não terminarão em breve.

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