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Taxas de desnutrição infantil disparam no Sudão do Sul

14/07/2014
Na cidade de Leer, só nos últimos dois meses as equipes de MSF atenderam mais pessoas desnutridas do que em todo o ano de 2013

No Sudão do Sul, crianças estão sofrendo com altos índices de desnutrição, afirma a organização medico-humanitária Médicos Sem fronteiras (MSF). Mais de 13.270 crianças, a maioria abaixo dos cinco anos, foi admitida nos programas de alimentação de MSF no Sudão do Sul até o momento. Esse número corresponde a 73% das 18.125 admissões feitas ao longo de todo o ano de 2013.

A violência, deslocamento e escassez de alimento são as principais causas do aumento das taxas de desnutrição e do crescimento do número de crianças que precisam de cuidados médicos urgentes em algumas localidades onde MSF trabalha.

“Estamos testemunhando algo impressionante: as consequências cumulativas de um milhão de pessoas sendo deslocadas, saindo de suas casas.”, diz Rapahael Gorgeu, coordenador de MSF no Sudão do Sul. “Isso é uma catástrofe anunciada. Algumas pessoas estão morando na mata por seis meses, ingerindo água suja do pântano e comendo raízes para sobreviver.”

As taxas de desnutrição têm disparado em partes dos estados do Alto Nilo, Unity e Jonglei desde a eclosão dos conflitos no Sudão do Sul em dezembro. Na cidade de Leer, no estado de Unity, equipes de MSF tratavam 40 casos de desnutrição antes do início dos conflitos. Agora, são mais de mil novos casos por mês estão sendo tratados.

No estado de Unity, o aumento da desnutrição ficou claro quando as pessoas que haviam sido deslocadas por conta dos conflitos retornaram à Leer em maio, após meses vivendo na mata.  “Eles começaram a chegar em fluxo contínuo no hospital”, diz Sarah Maynard, coordenadora de MSF em Leer. “Foi impressionante. Os níveis de desnutrição eram avassaladores.”

MSF admitiu mais pessoas por desnutrição em Leer durante os dois últimos meses (2.810 casos em maio e junho de 2014) do que em todo o ano de 2013 (2.142 casos de desnutrição).

Em Bentiu, a unidade especializada para tratamento de pessoas severamente subnutridas com complicações médicas, incluindo diarreia, infecções pulmonares e desidratação, inaugurada em maio de 2014 , já admitiu 239 crianças, das quais 42 morreram.   

No estado de Jonglei, as instalações de MSF em Lankien e Yuai registraram aumento de 60% no número admissões nos primeiros seis meses do ano, se comparado ao mesmo período do ano passado. O número de casos saltou de 175 por mês em 2014 para 290 neste ano.  

No estado do Alto Nilo, na região norte de Malakal, equipes de MSF admitiram 2.064 pessoas, a maioria crianças. Pesquisa recente sobre mortalidade realizada na região revelou um alto índice de mortes.

 “Pessoas deslocadas são forçadas a suportar condições de vida terríveis. Elas estão morrendo de doenças passiveis de prevenção.”, diz Patricia Trigales, coordenadora médica de emergência de MSF.

Em Nasir, os conflitos de maio forçaram equipes de MSF a evacuar seus projetos. Muitas pessoas deixaram a cidade e foram para o país vizinho, a Etiópia. Equipes de MSF estão provendo cuidados de saúde primária para centenas de refugiados que cruzam as fronteiras todos os dias em direção à Gambella. A região registra a presença de refugiados recém-chegados com desnutrição e altas taxas de desnutrição: 20% de desnutrição global e 6% de desnutrição severa, índices bem acima dos níveis de emergência.

Depoimentos de refugiados demonstram que comida e abrigo seguro são motivações para que eles se desloquem até Gambella.

 “Em maio, sul-sudaneses fugiram por causa do conflito,” afirma a médica Natalie Roberts, coordenadora médica de MSF em Gambella. “Agora eles dizem que deixaram seu país por causa da escassez de alimentos.”  

É grande o número de pessoas deslocadas vivendo na mata que perderam seu gado, plantação, sementes e implementos agrícolas. Elas estão tentando sobreviver com uma dieta de raízes e folhas e vivem no meio da lama do pântano.

A violência interrompeu a plantação e impediu a colheita. Os estoques de comida existentes foram destruídos ou saqueados. Mercados foram invadidos e as estradas estão interditadas por conta do conflito. A estação das chuvas contínua e anual “estação de armazenamento” (normalmente de junho a agosto, quando a comida é escassa) está intensificando a crise de alimentos.   

 “Muitas pessoas estão completamente dependentes da assistência humanitária para sobreviver e permanecerão assim até um futuro próximo”, diz Gorgeu. “Assistência humanitária contínua no Sudão do Sul é absolutamente crucial para aliviar parte do sofrimento que esse conflito causou.”  

Organizações humanitárias devem expandir a assistência, garantir a distribuição de comida, levantar financiamento para possibilitar que as pessoas recebam a assistência que merecem.

Partes envolvidas no conflito devem assegurar que tudo seja feito para facilitar a assistência humanitária para populações que necessitam. Isso inclui garantir acesso seguro pelas estradas e rios dentro do Sudão do Sul, assim como nos corredores transfronteiriços para a chegada de ajuda. 

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