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TAIZ, IÊMEN: “Em um dia normal, ouvimos cerca de 5 explosões por minuto - Taiz está em guerra."

02/02/2018
Arunn Jegan é australiano e coordenador de projetos que trabalha com Médicos Sem Fronteiras (MSF) desde 2016. Arunn trabalhou para MSF em Bangladesh, durante a emergência em Cox's Bazaar, e recentemente iniciou sua missão em Taiz, no Iêmen
TAIZ, IÊMEN: “Em um dia normal, ouvimos cerca de 5 explosões por minuto - Taiz está em guerra."

Mapa: MSF

Acabei de chegar a Taiz, no Iêmen, onde apoiamos vários hospitais em ambos os lados da frente de batalha. Embora antes de chegar aqui eu tenha lido sobre como a situação humanitária é grave, durante minha primeira semana eu realmente percebi o quão desesperadora é a situação e os desafios que a população enfrenta diariamente.

No dia de minha chegada, em 24 de janeiro de 2018, a violência aumentou em torno da cidade de Taiz em todas as frentes de batalha e os últimos dias foram extremamente pesados. Infelizmente, esta é a vida diária para as pessoas aqui.

Nos últimos três dias, tratamos mais de 117 feridos de guerra e o número continua a crescer neste exato momento. Na medida em que o conflito se intensifica, as salas de emergência e os teatros operacionais se sobrecarregam com os feridos, chegando a receber cerca de 70 pacientes em um dia. Nós tratamos pessoas com feridas de tiros, estilhaços e minas terrestres. Foi uma cena extremamente chocante. O pessoal do hospital vem trabalhando continuamente nos últimos dias, dormindo muito pouco, enquanto tentam estabilizar os feridos. Alguns sobreviveram e outros não. As cenas de desespero eram difíceis de assistir. Os pedidos provenientes do hospital para doações de sangue e sacos funerários me deixam ciente da dura realidade em que os habitantes de Taiz vivem há anos.

Uma mãe de cinco filhos nos disse que seu filho mais novo, de 16 anos, foi ferido por estilhaços enquanto jogava futebol. Ela teve que vender suas jóias para pagar o transporte - jóias que ela guardava para o futuro de seus filhos, e não para salvar a vida deles. O jovem conseguiu chegar às nossas instalações e está em uma condição estável.

No Iêmen, a luta é constante desde a escalada do conflito em 2015. Infelizmente, a situação não melhorou muito desde que as primeiras balas foram disparadas há 3 anos. As pessoas da cidade são cautelosas quanto a sair de suas casas, mas nossa equipe está empenhada em tratar os feridos e vem ao escritório cheia de garra. Tenho orgulho de estar trabalhando com eles.

Eu ouço os sons contínuos de tiros e bombardeios das frentes de batalha que estão muito perto de nossas instalações médicas, o que coloca pressão extra na equipe, tanto mental como fisicamente. Em um dia normal desta semana, ouvimos cerca de cinco explosões por minuto.

Hakim, um dos membros de nossa equipe disse aos seus filhos para ficarem dentro de casa e não saírem. No entanto, sua filha perguntou "então, onde você vai todos os dias?". São histórias como essa que lhe dão um exemplo dos desafios diários e da urgência da situação.

Estou preocupado com o aumento das necessidades médicas e com a segurança de toda a equipe e das instalações médicas. MSF pede a todas as partes que respeitem o trabalho que realizamos e mostra que, mantendo as instalações médicas seguras, concedemos acesso a cuidados médicos para todos que precisam. Além disso, ressaltamos o mandato imparcial e neutro de MSF e que nossos serviços médicos estão abertos a todos os feridos, não importando de que lado eles estão. Ao mesmo tempo, espero que outros atores humanitários reconheçam as necessidades em Taiz em particular, e no Iêmen em geral, para intensificarem a ajuda humanitária nessas áreas. Atualmente, Taiz é uma das zonas de conflito mais intensas do país e as necessidades humanitárias são extremamente altas.

MSF continua sendo uma das poucas organizações médicas em Taiz. Para MSF, o conflito e as altas necessidades médico-humanitárias são os principais motivos da presença no país. Continuamos empenhados em trabalhar no Iêmen e a apoiar a população em necessidade.

MSF trabalha em Taiz há dois anos em ambos os lados da frente de batalha. A luta atual nos fez perceber, mais uma vez, o quão importante é estar presente neste local específico.  
 

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