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Surto de sarampo atinge o Níger, na África

22/05/2021
No país, a cobertura vacinal contra a doença está abaixo das recomendações internacionais
Surto de sarampo atinge o Níger, na África

Foto: Lamine Keita/MSF

“O Níger, na África, sofre com epidemias de sarampo anualmente, mas, este ano, ela está descontrolada como consequência da insegurança causada por conflitos e dos efeitos indiretos da COVID-19,” diz o coordenador médico de MSF, François Rubona, cujas equipes estão há três meses realizando campanhas de vacinação em massa. O objetivo é proteger mais de 700 mil crianças contra a doença viral mais contagiosa do mundo.

Qual é a situação atual da epidemia de sarampo no Níger?

Este ano, vimos o número de pessoas afetadas pelo sarampo aumentar exponencialmente em comparação com o ano passado. No primeiro trimestre de 2021, o país registrou 3.213 casos da doença, enquanto, no mesmo período do ano passado, tivemos 1.081, de acordo com os dados do Ministério de Saúde Pública. Isso significa que os casos quase triplicaram. Até abril, havia mais de seis mil casos suspeitos, incluindo 15 mortes, e a epidemia foi declarada em 27 dos 73 distritos de saúde. As regiões mais afetadas são Agadez, Dosso e Tahoua.

O sarampo é a doença viral mais contagiosa do mundo e uma das principais causas de mortalidade em crianças. A forma mais eficaz de combater a doença é garantir uma cobertura vacinal de 95%, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS). No entanto, os dados dos centros de saúde de alguns dos distritos sugerem que a cobertura vacinal é de 50%, no máximo. Em áreas como Diffa, Tillabéry e Tahoua, a baixa cobertura pode ser explicada pelo agravamento do contexto de insegurança, que desloca as pessoas e dificulta o acesso aos cuidados básicos de saúde. Este ano, a epidemia de sarampo também foi impactada pela pandemia causa pela COVID-19, que gerou novas restrições para as campanhas de vacinação.

Quais desafios a pandemia provocada pela COVID-19 impôs ao seu trabalho?

Quando os primeiros casos de COVID-19 foram declarados no Níger, em março de 2020, os temores em relação a essa doença desconhecida, provavelmente, levaram à diminuição nas visitas aos centros de saúde. Como resultado, menos mães trouxeram seus filhos para as vacinações de rotina. A pandemia também afetou profissionais de saúde, já que alguns funcionários testaram positivos ou tiveram contato com pessoas infectadas, como consequência, muitas pessoas precisaram se isolar ou ficar de quarentena. Isso fez com que as clínicas não funcionassem com a sua capacidade total, reduzindo algumas atividades, especialmente, os cuidados preventivos. Ao mesmo tempo, no ano passado, o governo e seus parceiros, incluindo MSF, tiveram que se concentrar no combate à pandemia, impactando ainda mais os atendimentos.

Por vezes, o fechamento das fronteiras e as restrições dificultaram a importação de suprimentos médicos. No entanto, este ano conseguimos solicitar e enviar 700 mil doses de vacina contra o sarampo para o país, que serão utilizadas na resposta à epidemia e na criação de estoques de emergências. Nas últimas semanas, observamos uma baixa taxa de participação da população onde realizamos campanhas de vacinação, devido à confusão entre as vacinas de sarampo e da COVID-19. Em Tillabéry, por exemplo, algumas comunidades se recusaram a ser vacinadas. Em Niamey, nossas equipes também se depararam com uma certa hesitação em relação à vacina, pois havia rumores de que os imunizantes do sarampo e da COVID-19 estavam sendo administrados simultaneamente. Nos primeiros dias de vacinação em Tillabéry, em abril, nossas equipes registraram uma taxa de cobertura de apenas 4% a 5% da meta diária. Como resultado, reforçamos nosso engajamento comunitário e as atividades de sensibilização para lembrar às famílias como o sarampo pode afetar a saúde das crianças, e como a vacinação pode ajudar a protegê-las e a impedir a propagação da doença.

Quais são as perspectivas para os próximos meses?

A situação atual do sarampo no Níger é preocupante, especialmente quando pensamos nas consequências da diminuição da cobertura vacinal e da baixa adesão às atividades de imunização de rotina. Agora tememos um aumento na ocorrência de epidemias de todas as doenças que, geralmente, podem ser evitadas por meio da vacinação. Por exemplo, temos visto, em Niamey, pacientes com sintomas de meningite e mais de 1.100 casos da doença já foram notificados em todo o país. Se as vacinações de rotina não ocorrerem regularmente, os efeitos dessa redução na cobertura vacinal, provavelmente, serão sentidos nos próximos anos.

Ao mesmo tempo, estamos monitorando de perto outras doenças sazonais que atingem a população, como a malária e a desnutrição. No ano passado, o pico do surto de malária foi extremamente grave, pois foi mais alto, com maior número de casos, e durou por mais tempo do que o normal, terminando apenas em 2021.

Em paralelo, há previsões altamente preocupantes em relação à insegurança alimentar e à desnutrição. Temos que estar extremamente vigilantes, inclusive em regiões como Maradi e Zinder, que costumam ser negligenciadas pelos doadores, pois estão mais longe do epicentro do conflito armado e de suas consequências.

MSF trabalha com o Ministério da Saúde há 36 anos para apoiar a resposta às epidemias no Níger. Desde o início de 2021, as equipes de MSF oferecem apoio às autoridades de saúde no combate ao sarampo nas regiões de Dosso, Tahaou, Agadez, Tillabéry, Diffa e Niamey. Isso inclui o fortalecimento do sistema de vigilância de epidemias, transporte de amostras para o Laboratório Médico Nacional, doação de suprimentos médicos e treinamento de profissionais de saúde para cuidar de pessoas com a doença. Na região de Zinder, as equipes de MSF também vacinaram mais de 222 mil crianças contra a meningite.

 

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