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Suplemento alimentar reduz em 50 porcento a mortalidade infantil

24/05/2011
Estudos de MSF reforçam que alimentos de alto teor nutricional devem ser o pilar da luta global contra a mortalidade infantil; países do G8 precisam garantir que alimentos nutritivos cheguem a crianças vulneráveis

A taxa de mortalidade em um grupo de crianças no Níger, país localizado no oeste da África, foi 50% menor após a oferta de um suplemento alimentar de alto valor nutritivo, de acordo com as conclusões preliminares de um estudo da organização médico-humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF).

A descoberta reforça a necessidade de financiadores internacionais e governos de fazerem da alimentação de qualidade, a base de programas de saúde infantis, especialmente em áreas onde a desnutrição é frequente.

A desnutrição enfraquece o sistema imunológico, expondo mais a criança a riscos de morte por outras doenças, como malária, infecções respiratórias e diarreia. Aliando um suplemento alimentar de qualidade a um pacote essencial de cuidados, que inclui vacinas e tratamentos efetivos e preventivos contra doenças comuns entre jovens e crianças, pode-se impulsionar a luta contra a mortalidade infantil.

No ano passado, em Muskoka, no Canadá, Estados Membros do G8 se comprometeram a aumentar seus esforços para reduzir em dois terços a taxa de mortalidade de crianças com menos de cinco anos de idade, num período de cinco anos, levando em consideração os níveis de desnutrição de 1990. No encontro do G8, dias 26 e 27 de maio, na cidade de Deauville, França, os países devem se comprometer com a garantia de acesso a alimentos adequados para crianças mais vulneráveis, diz MSF.

"Nossas estratégias preventivas são baseadas no fornecimento de comidas nutritivas adequadas para crianças na faixa etária mais crucial para o seu desenvolvimento – de seis meses a dois anos de idade –, ao invés de esperar que elas comecem a perder peso. Nós observamos que, assim, a taxa de mortalidade é reduzida pela metade", disse a Dra. Isabelle Defourny, coordenadora de projeto de MSF no Níger. "Se financiadores e governantes quiserem mesmo reduzir a mortalidade infantil, é preciso garantir alimentação adequada para crianças, como parte dos programas pediátricos de desnutrição."

Nesse exato momento, aproximadamente 195 milhões de crianças pelo mundo estão sendo afetadas pela desnutrição. A falta de alimentos é responsável por, pelo menos, um terço de todas as mortes, por ano, de crianças com menos de cinco anos de idade.

Há muitos anos, MSF desenvolve abordagens preventivas para a desnutrição, baseadas em suplementos alimentares de qualidade, para diminuir o número de mortes em focos de desnutrição, como a região de Sahel, na África, que apresenta alguns dos índices de mortalidade mais elevados do mundo. Durante uma grave crise de alimentos e nutrição, em 2010, no Níger, autoridades locais, junto com MSF e com a organização Fórum de Saúde do Níger (Forsani), realizaram uma grande distribuição de alimentos suplementares para prevenção da desnutrição em crianças.

Entre julho e dezembro de 2010, suprimentos para três ou seis meses de uma pasta pronta, rica em leite, minerais e vitaminas, foi distribuída para aproximadamente 150 mil crianças – a maioria com idade entre seis meses e dois anos – em cinco distritos das regiões de Tahoua, Maradi e Zinder. Algumas crianças também se beneficiaram de alimentos nutritivos especiais (principalmente cereais e farinhas) fornecidos pelo Programa Mundial de Alimentos da ONU (WFP, na sigla em inglês). Cuidados pediátricos para doenças infantis comuns também foram levados às áreas de distribuição, inclusive para crianças que não receberam o suplemento alimentar. Avaliações mensais para casos de desnutrição severa e qualquer acompanhamento médico necessário também eram oferecidos.

O Epicentre, grupo de profissionais de MSF especializados em saúde pública e epidemeologia, conduziu pesquisas avaliações com milhares de crianças que viviam nas zonas de distribuição de alimentos. Todos se beneficiaram com o monitoramento de sinais de desnutrição e doenças. As crianças que necessitavam de cuidados médicos eram encaminhadas a MSF e seus parceiros que trabalhavam com os centros de saúde do Níger.

O resultado desse esforço foi que entre as crianças em fase de desenvolvimento, a taxa de mortalidade das que recebiam alimentos adaptados especificamente para suas necessidades foi 50% menor.

No distrito de Madarounfa, na região de Maradi, por exemplo, a taxa de mortalidade entre crianças que receberam os alimentos enriquecidos foi de 2,2 mortes cada 100 mil crianças, enquanto a média entre aquelas que não receberam os suplementos alimentares foi de 5,3 para 100 mil crianças.

"Oferecer alimentos de alto teor nutritivo para crianças e jovens é um dos princípios fundamentais de programas de redução da desnutrição e da mortalidade infantil na Europa, América Latina e Estados Unidos, junto com a imunização", disse a Dr. Susan Shepherd, especialista em desnutrição infantil de MSF. "É preciso parar de aplicar outros protocolos para crianças que vivem em focos de desnutrição. Nós podemos salvar a vida de crianças, se os recursos adequados forem investidos em intervenções similares a que realizamos no Níger, no ano passado".

Países como México, Tailândia, Estados Unidos e várias nações europeias reduziram com sucesso a desnutrição e a mortalidade infantil por meio de programas que garantem o acesso de jovens e crianças de famílias pobres a alimentos nutritivos, como leite e ovos. No entanto, muitas famílias de poucos recursos não podem arcar com os custos de produtos derivados de animais, que contêm grandes quantidades de proteínas, gorduras e outros nutrientes essenciais necessários para o desenvolvimento das crianças. Programas nacionais que preencham essas lacunas são essenciais para as crianças.

O desenvolvimento, nos últimos anos, de uma nova variação de alimentos nutritivos, adaptados especialmente para as necessidades de crianças mais vulneráveis, e de fácil preparo, tornam possível o estabelecimento de um novo padrão na prevenção da mortalidade infantil.

Em 2010, além de atividades de prevenção da desnutrição, MSF e seus parceiros, FORSANI e BEFEN/ALIMA, realizaram atividades nutricionais e pediátricas em 64 centros de saúde e 9 hospitais do Níger, nas regiões de Tahoua, Maradi e Zinder. Aproximadamente 150 mil crianças vítimas de desnutrição foram tratadas – quase metade de todos os casos de desnutrição infantil do país em 2010 – dentre as quais, 24 mil foram hospitalizadas. Em média, 89% dessas crianças já receberam alta. MSF e seus parceiros também trataram 216.330 casos de malária em crianças com menos de cinco anos, realizaram mais de 370 mil consultas pediátricas e admitiram mais de 13 mil crianças em hospitais.