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Sul da África: MSF adapta resposta médica às necessidades das pessoas deslocadas pela xenofobia

26/05/2015
Organização está oferecendo cuidados psicológicos para as vítimas traumatizadas pelos ataques

Foto: Greg Lomas

Um mês após o início da sua atuação médico-humanitária em resposta a uma série de ataques xenofóbicos violentos na província de KwaZulu Natal (KZN), na África do Sul, uma equipe da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) está reorientando seu trabalho para atender às necessidades psicológicas de cidadãos estrangeiros traumatizados que estão abrigados no único acampamento restante para deslocados internos. MSF também está oferecendo apoio médico no Malauí e Zimbábue.

O campo de Chatsworth, no sul da cidade costeira de Durban, é, atualmente, o lar de 520 cidadãos estrangeiros – a maioria deles são refugiados e requerentes de asilo provenientes do Burundi e da República Democrática do Congo (RDC). Eles foram deixados para trás depois que mais de 3 mil malauianos, além de centenas de moçambicanos e zimbabuanos, foram repatriados a seus países de origem.

Inicialmente, cerca de 7 mil pessoas buscaram refúgio em três diferentes acampamentos para deslocados internos em Durban. Agora, os burundineses e congoleses estão presos no limbo: eles não podem ser repatriados para as zonas de conflito das quais fugiram, mas não se sentem seguros para voltar a integrar comunidades das quais também fugiram há apenas algumas semanas.

Aqui, os psicólogos de MSF encontraram níveis significativos de estresse pós-traumático entre a maioria dos moradores do acampamento. Eles foram avaliados por meio de uma ferramenta de triagem reconhecida internacionalmente, o questionário de trauma de Harvard, que avalia a frequência com que essas pessoas têm pesadelos, flashbacks e sensação de desesperança e impotência.

“O tipo de trauma que eu vi no campo de Chatsworth é semelhante ao que eu já vi em acampamentos para deslocados na República Centro-Africana e no Sudão do Sul, onde as pessoas têm sido expostas a conflitos ativos. A partir de nossas entrevistas com esses moradores, está claro que alguns deles sofreram uma série de traumas que se acumularam. Eles foram vítimas da violência em seus países de origem; e depois, de novo, em 2008, da violência xenofóbica, e, mais uma vez, em 2015. No entanto, eles também nos contam sobre o nível diário de discriminação e alienação que sofrem – em hospitais, táxis, micro-ônibus e de policiais em todos os lugares”, diz Gail Womersley, psicóloga de MSF.

Desde o começo de maio, a equipe de MSF ofereceu sessões de aconselhamento psicológico em grupo e individuais, incluindo para crianças. A equipe de 11 pessoas, que inclui médicos e enfermeiros, reorientou seu trabalho voltado a essa necessidade ainda não respondida entre as pessoas no acampamento. Antes disso, o objetivo da equipe era oferecer serviços de apoio onde havia falhas na resposta a cuidados médicos diários, serviços de água e saneamento, ajuda para sobreviventes de violência sexual e de gênero, e melhoria na gestão do acampamento.

Atuando em estreita colaboração com o departamento de saúde de KZN, MSF realizou mais de 1.400 consultas para deslocados desde 14 de abril por meio de uma clínica móvel regular no campo. Agora, a equipe está repassando a responsabilidade da prestação de cuidados de saúde ao departamento de saúde para poder concentrar esforços nas necessidades psicológicas das pessoas.

“Os esforços de integração à comunidade por parte do governo já começaram, com apoio do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). No entanto, as pessoas deslocadas estão nos dizendo que eles não sentem que estão seguros o suficiente para se reintegrarem. Notícias de estrangeiros sendo presos em operações policiais e relatos de violência aumentam sua insegurança”, explica Ainslie McClarty, enfermeira de MSF e coordenadora adjunta do projeto. “As pessoas continuam com medo e não tiveram tempo de se adaptar a um processo que vai determinar seu futuro. Elas precisam construir uma confiança nas autoridades e os progressos são lentos. Isso é facilmente prejudicado quando as pessoas não estão diretamente envolvidas nas consultas e decisões que afetam seu futuro.”

MSF tem manifestado preocupação com a clara contradição entre a abordagem conciliatória das autoridades locais adotadas a favor dos esforços de reintegração comunitária e as operações agressivas de combate à criminalidade nacional por parte da polícia e do departamento militar e de assuntos internos. Esses ataques deixaram mais de 700 cidadãos estrangeiros presos e detidos porque estavam sem documentos e, agora, eles estão sujeitos à deportação.

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