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Sudão do Sul: um ano após assassinatos em massa em Bentiu, violência e deslocamentos continuam

15/04/2015
MSF oferece cuidados de saúde e trabalha para garantir que as dezenas de milhares de pessoas em acampamento tenham acesso a água limpa

Foto: Hosanna Fox/MSF

Um ano após o assassinato em massa de civis na cidade petrolífera de Bentiu, no Sudão do Sul, que envolveu o abrigo de pessoas no hospital onde a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) administrava um projeto de HIV e tuberculose (TB), a violência e o deslocamento continuam e o acesso a cuidados de saúde básicos e alimentos permanece sendo um problema para as pessoas vivendo em áreas rurais.

Após os confrontos, MSF tratou mais de 230 pessoas com ferimentos à bala e milhares dos habitantes da cidade fugiram para a base das forças de paz da Organização das Nações Unidas (ONU), cuja população aumentou de 6 para 22 mil pessoas em questão de dias. Passado um ano, o número de pessoas buscando proteção aumentou significativamente, e já são mais de 53 mil pessoas vivendo em um terreno de 1 km2 cercado por arame farpado e vigiado pelas tropas da ONU.

Inicialmente, as condições de vida no local eram ameaçadoras devido à superlotação e à falta de água e saneamento. A situação piorou durante a estação chuvosa do último ano quando o acampamento ficou completamente alagado. Com o nível da água acima do joelho, muitas pessoas se viram obrigadas a dormir em pé com seus filhos em seus braços. Muitos se afogaram. Desde que a estação da seca se estabeleceu, as condições no local melhoraram e diversas organizações de ajuda estão oferecendo serviços básicos para as dezenas de milhares de pessoas ali. MSF estruturou um hospital em tendas para oferecer cuidados de saúde secundária de qualidade e trabalhar para garantir que as pessoas tenham acesso a uma quantidade suficiente de água limpa e instalações sanitárias.

Oferecer assistência humanitária em uma base da ONU é algo feito por MSF em último caso. Como organização médica independente, imparcial e neutra, precisamos permanecer dissociados de atores políticos e militares. Mas diante de circunstâncias extraordinárias como essa, com alto nível de tensão e medo, é importante que as pessoas possam ter acesso a serviços médicos onde se sintam seguras.

MSF também está trabalhando do lado de fora do acampamento de “Proteção de Civis” da ONU, na medida em que a maioria das pessoas afetadas pelo conflito em andamento permanecem dispersas por regiões rurais de difícil acesso, sendo que muitas delas já se deslocaram múltiplas vezes por conta dos confrontos. MSF está operando clínicas móveis em Ding Ding, Nhialdiu e na própria cidade de Bentiu, concentrando esforços em atendimento ambulatorial básico e cuidados de saúde maternos. Avaliações das regiões do entorno continuam. As últimas a serem analisadas foram Nimni, na província de Guit, e Ngop, em Rubkona. Uma mulher de 28 anos de Ngop, cujo filho gravemente desnutrido foi hospitalizado por MSF em fevereiro, disse: “As pessoas sofreram muito com as enchentes, que destruíram toda a nossa plantação. Por isso, não há o que comer. Se você fica doente, não há lugar para onde possa ir. A instalação de saúde mais próxima que costumávamos frequentar antes da crise já não tem mais medicamentos”.

Nessas regiões rurais, particularmente, o conflito em andamento reduziu o acesso das pessoas a cuidados de saúde. É comum a falta de suporte e suprimentos médicos adequados em instalações locais. Frentes de batalha, movimentações militares, bombardeios e tiroteios causam medo às pessoas, que, assustadas, não se dispõem a caminhar longas distâncias até as poucas instalações de saúde ainda funcionais.

Bentiu, a antes vibrante capital do estado, tornou-se uma cidade das tropas, com a maioria dos comércios administrados por soldados do governo. Embora os corpos dos civis que tomavam as ruas tenham sido removidos, as carcaças dos veículos abandonados permanecem nas laterais da estrada. A maioria das casas da cidade foram incendiadas e não foram reconstruídas. Um controle remoto de TV derretido ou o estrado de uma cama de solteiro queimados são as únicas pistas do que antes havia ali. O moderno hospital da cidade, onde MSF oferecia cuidados para TB e HIV, foi saqueado, suas janelas e portas foram arrombadas, o equipamento médico e os medicamentos espalhados pelo chão. Infestado com morcegos e vermes, a instalação não está mais em uso, embora MSF conduza atividades da clínica móvel com foco em cuidados de pré-natal em um anexo, que foi limpo.

Na medida em que o conflito no Sudão do Sul continua, não há previsão de fim para a situação humanitária em Bentiu. A insegurança contínua, os confrontos e bombardeios ativos e a violência contra civis na vizinhança não deixam alternativa para as muitas pessoas deslocadas que hoje vivem no acampamento “Proteção aos Civis” que não seja permanecer ali, observando seu futuro previsível. A necessidade de assistência dessa população, em um local onde se sintam seguros, vai continuar.

Enquanto isso, MSF continua oferecendo cuidados médicos a mais de 100 mil pessoas na região do entorno de Bentiu. Mas garantir o respeito às instalações médicas e humanitárias, ao pessoal e aos pacientes, permanece sendo um desafio.

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