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Sudão do Sul: encurralados pela violência no estado de Unity

30/10/2015
Escassez de assistência, incapacidade de proteção aos civis e vulnerabilidade da população também estão agravando crise humanitária na região

Foto: Foto: Brendan Bannon

A escalada da violência no estado de Unity, no Sudão do Sul, está tendo um efeito devastador sobre a população civil e resultando em uma crise humanitária sem precedentes, de acordo com a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF).

Kume Saadi Kuony, de 14 anos, se recupera no hospital de MSF em Leer (Foto: Petterik Wiggers)Equipes de MSF no estado de Unity ouvem relatos diários de extorsões, sequestros, estupros e assassinatos em massa, e testemunharam vilarejos inteiros queimados, assim como plantações saqueadas e destruídas. “Na medida em que o conflito se intensifica, a violência contra os civis está aumentando”, diz Tara Newell, gestora de emergências de MSF. “A população civil está sendo submetida à violência recorrente e direta. MSF não havia testemunhado tal nível de violência e brutalidade antes.”

 

O complexo de MSF em Leer, no sul de Unity, foi saqueado no dia 3 de outubro, forçando a equipe a evacuar e o hospital a fechar pela segunda vez desde maio. Desde então, a população vulnerável em partes do sul de Unity foi deixada sem cuidados de saúde, apoio alimentar, ou qualquer outro tipo de assistência humanitária.

A violência forçou a população a fugir de suas casas repetidamente e a se esconder por longos períodos em matas e pântanos no entorno. Incapazes de colher suas safras desde as ofensivas de maio, e enfrentando desesperadamente a falta de comida, as pessoas estão sobrevivendo com o que está ao alcance. Desgastadas pelos episódios repetidos de deslocamento, muitas pessoas estão no limite de sua resistência. Civis se dirigindo ao complexo da ONU onde MSF mantém hospital. Eles se abrigaram ali para fugir da violência (Foto: Beatrice Debut/MSF)

“Os pacientes atendidos em nossas clínicas móveis em Leer e em vilarejos nos arredores descreveram muitos meses de insegurança”, diz Tara Newell. “Em fuga constante, as pessoas não têm chance de colher suas safras. Escondendo-se em constante medo, elas têm comido raízes de lírio ou folhas para sobreviver.”

Equipes de MSF começaram a observar uma situação de desnutrição preocupante em Leer e em vilarejos próximos durante os meses de agosto e setembro, quando as taxas de desnutrição aguda global foram estimadas entre 28% e 34%. Apesar da extrema dificuldade em chegar à população, nos últimos dias, equipes de MSF conseguiram avaliar a saúde de algumas crianças; rapidamente, elas identificaram 78 crianças com desnutrição aguda grave.

No mês passado, na medida em que o conflito se intensificou e a violência aumentou no sul de Unity, é provável que a situação humanitária e nutricional tenha se agravado. “Sem acesso regular e confiável à assistência alimentar e apoio nutricional, há grandes riscos de as crianças se tornarem agudamente desnutridas”, diz Newell. “As crianças já identificadas com desnutrição severa têm grandes chances de já terem morrido.”

Com a violência em andamento, a escassez de qualquer tipo de assistência humanitária, a incapacidade de proteção eficiente para a população civil, e o nível de resiliência das pessoas cada vez mais baixo, MSF acredita que a crise humanitária no estado de Unity está em uma escala sem precedentes. MSF pede urgentemente mais proteção à população civil e a ampliação do acesso seguro de organizações humanitárias ao sul de Unity.

MSF atua no estado de Unity, no atual Sudão do Sul, desde 1988, oferecendo assistência médico-humanitária independente, neutra e imparcial. Ao longo dos últimos três meses, quatro profissionais de MSF foram mortos e muitos outros estão desaparecidos devido à violência na região.