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Sudão do Sul: “É gratificante ver ex-crianças-soldado sendo integradas às suas comunidades”

25/02/2019
Em projeto inédito, MSF oferece cuidados médicos e de saúde mental para crianças que atuaram em conflitos no país

Foto: Alex McBride/MSF

Ex-crianças-soldado do conflito armado no Sudão do Sul estão sendo ajudadas a se reintegrarem à sociedade por uma equipe da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF). A gerente de atividades de saúde mental, Silvia Márquez, descreve o projeto, que é inédito em MSF.

“Por todo o Sudão do Sul, as crianças foram usadas como soldados. MSF trabalha desde fevereiro de 2018, juntamente com outras organizações, para apoiar a reintegração dessas crianças em suas comunidades na cidade de Yambio, no sul do país, em Equatória Ocidental.

 

Sequestrados a caminho da escola

Todos os nossos pacientes vêm da área de Yambio. O mais novo tem 10 anos de idade e o mais velho tem agora 19 anos, mas a maioria tem entre 15 e 17 anos. Um terço deles são meninas.

Uma minoria conta que eles se juntaram aos grupos armados de forma voluntária – embora fossem menores de idade quando tomaram a decisão e por isso talvez não fossem capazes de entender completamente as consequências. Outros dizem que as más condições em casa os levaram a isso. Mas a maioria afirma ter sido sequestrada a caminho da escola ou do trabalho no campo. Alguns relatam ter portado armas e testemunhado violência.

 

Cuidados médicos e mentais

Até agora, 983 crianças foram desmobilizadas em Yambio e um total de 3.100 foram desmobilizadas em todo o país*.

Nossa equipe faz exames médicos para ajudar em qualquer condição médica relacionada ao conflito armado, incluindo casos de violência sexual, e fornece cuidados de saúde mental para ajudá-los a superar suas experiências durante o período em que foram soldados.

No ano passado, MSF realizou mais de 1.430 consultas médicas e 911 sessões de saúde mental para crianças desmobilizadas.

 

Boas-vindas confusas

Embora a maioria das ex-crianças-soldado tenha sido recebida de volta por suas famílias, para outras tem sido um desafio encontrar seus parentes, que podem ter sido deslocados pelo conflito ou morrido. Outros são vistos como um fardo. Nas comunidades onde o conflito teve um grande impacto, algumas crianças vivenciaram rejeição e temem nunca ser aceitas.

A maioria está de volta à escola enquanto trabalha, seja na agricultura ou ajudando seus irmãos mais novos no jardim de sua família. Alguns até se casaram.

 

Flashbacks dos conflitos

Cerca de 35% dos nossos pacientes têm transtorno de estresse pós-traumático; a depressão também é comum. Também vemos muitos pacientes com uma variedade de sintomas, incluindo flashbacks recorrentes e pensamentos intrusivos. Alguns acham que estão de volta no meio da luta; outros tiveram pensamentos ou viram imagens repentinas e inesperadas enquanto vivem suas vidas no dia a dia, o que gera desconforto. Outros têm pensamentos suicidas e consideram machucar a si mesmos.

 

O apoio que oferecemos

Nossa equipe é composta por cerca de 100 pessoas. Para apoiar nossos pacientes, usamos técnicas de relaxamento para tratar sintomas como ansiedade e medo. Tentamos fortalecer seus mecanismos de enfrentamento e resiliência. Fazemos atividades de grupo e psicoeducação; discutimos tópicos específicos e organizamos atividades recreativas como jogos de futebol e pintura.

 

Considerando voltar ao grupo armado

Mas não é fácil para eles. Quando a vida cotidiana se complica, algumas crianças pensam em se juntar a um grupo armado – não pelo fato de pertencer a ele, mas pensando que a luta lhes dará acesso a melhores recursos e serviços. Nessas ocasiões, é muito gratificante vinculá-los aos serviços prestados por outras organizações, como garantir que eles possam se matricular na escola, o que os ajuda a se sentirem parte ativa da comunidade.

 

Recuperação possível

As pessoas perguntam se a recuperação é possível. Sim, de fato é. Você vê crianças e adolescentes que passaram por enormes dificuldades e trauma, mas que estão ansiosos para se tornar membros produtivos de suas comunidades. Eu fiquei muito comovida com isso.

A maioria dessas crianças quer se casar, ter um emprego, voltar para suas famílias. O processo terapêutico permite que elas atinjam esses objetivos. Seus pais e parentes também reconhecem os benefícios. Um sinal disso é o alto número de sessões de acompanhamento e o fato de que dois terços dos pacientes que receberam alta completaram com sucesso o tratamento.

Os seres humanos são muito resilientes e têm a capacidade de se concentrar não nos momentos difíceis do passado, mas em seus objetivos futuros e encontrar a felicidade novamente”.

 

* De acordo com o Unicef.

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