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Subsídio da Gavi não deve ser concedido aos gigantes farmacêuticos

06/12/2019
MSF pede que a vacina contra a pneumonia seja mais barata e acessível
Subsídio da Gavi não deve ser concedido aos gigantes farmacêuticos

Foto: MSF/Sophia Apostolia

Antes da reunião desta semana da Gavi (Vaccine Alliance ou a Aliança das Vacinas, em português) em Nova Déli, Médicos Sem Fronteiras (MSF) pediu aos membros do conselho que parassem imediatamente de pagar fundos de um subsídio restante de 262 milhões (cerca de 1,1 bilhão de reais) para as empresas farmacêuticas Pfizer e GlaxoSmithKline (GSK) para a vacina pneumocócica. MSF pediu que os fundos restantes fossem usados para apoiar a adoção de uma vacina pneumocócica mais acessível que deve chegar ao mercado em breve.

“A Pfizer e a GSK colheram mais do que seu quinhão de doadores para a vacina pneumocócica, além dos quase 50 bilhões de dólares (aproximadamente 210 milhões de reais) em vendas que fizeram nos últimos 10 anos com a vacina. Chegou a hora da Gavi parar com esse preço abusivo da indústria farmacêutica", disse Kate Elder, consultora sênior de políticas de vacinas da Campanha de Acesso de MSF. "Em vez de colocar mais dinheiro na Pfizer e na GSK, a Gavi deve começar a apoiar os países na preparação para um fornecedor alternativo, que promete preços mais baixos de vacinas pneumocócicas para todos os países".

A Gavi usa fundos de doadores para pagar vacinas nos países mais pobres. Reconhecendo que as vacinas mais recentes geralmente levam mais de uma década para chegar aos países em desenvolvimento após sua introdução em países de alta renda, em 2007, Gavi e seis doadores* criaram um fundo especial chamado Advance Market Commitment (AMC) para acelerar o lançamento global da vacina pneumocócica que salva vidas nos países mais pobres. Esse fundo especial, o AMC, também teve como objetivo incentivar os fabricantes de vacinas a produzir versões adequadas e acessíveis da vacina pneumocócica. Os doadores da AMC prometeram 1,5 bilhão de dólares (cerca de 6,3 bilhões de reais) em um fundo de subsídio especial que é usado para aumentar o preço base da vacina contra pneumonia cobrada por cada empresa.

A Pfizer e a GSK cobram à Gavi cerca de 9 dólares (cerca de 38 reais por cada criança a ser vacinada nos países mais pobres e, em seguida, recebem um complemento do subsídio que equivale a cada empresa sendo pagos 21 dólares (cerca de 89 reais) por criança no total. Nos países de renda média que não se qualificam ao apoio da Gavi, a Pfizer e a GSK cobraram até 80 dólares (cerca de 337 reais) por criança (através da Divisão de Suprimentos do Unicef) para que elas fossem vacinadas, com o resultado de que muitos desses países ainda não começaram a usar a vacina.

Até agora, 1,2 bilhão de dólares (aproximadamente 5 bilhões de reais) já foram ganhos pelas empresas farmacêuticas Pfizer e GSK através da AMC, com 262 milhões (cerca de 1,1 bilhão de reais) restantes no fundo especial. Como o fundo da AMC deveria incentivar novos produtores a entrar no mercado e ajudar a reduzir os preços, MSF está pedindo à Gavi que reserve seus fundos remanescentes da AMC para um novo fabricante de vacinas pneumocócicas que ofereça uma versão mais acessível em um futuro próximo.

Espera-se que a primeira vacina pneumocócica alternativa de um fabricante indiano esteja disponível nos próximos meses e ela promete ser significativamente mais barata que os produtos da Pfizer e da GSK. A empresa afirmou anteriormente que planeja vender a vacina por cerca de 6 dólares (aproximadamente 25 reais) por criança para a Gavi e os países mais pobres e por não mais do que 11 (cerca de 46 reais) em países de renda média.

Ter uma versão acessível do novo fabricante oferecerá uma melhor chance de financiar a vacina pneumocócica para países que ainda não a introduziram em seus programas e para aqueles que perderão o apoio da Gavi no futuro. Mudar para uma versão mais acessível também pode resultar em economia de até 1 bilhão de dólares (cerca de 4,2 bilhões de reais) para a Gavi no próximo período financeiro.

"Esperamos que, com o final do duopólio da Pfizer/GSK se aproximando, muitos outros países que não foram capazes de proteger seus filhos contra pneumonia por causa da vacina de alto preço possam agora fazê-lo", disse Miriam Alia, referente de vacinação e resposta a surtos de MSF. "É inaceitável que, quase 20 anos após a primeira vacina pneumocócica estar disponível, mais de 55 milhões de crianças no mundo ainda não a estejam recebendo".

Cerca de 25% dos países do mundo não conseguiram introduzir a vacina para proteger seus filhos contra pneumonia, em grande parte por causa do alto preço cobrado pela Pfizer e GSK. Globalmente, a pneumonia causa mais de 25% de todas as mortes em crianças com menos de 5 anos de idade – quase 1 milhão de jovens vidas perdidas a cada ano. Com a entrada de um produto mais acessível, esses países devem poder começar a usar a vacina rotineiramente em seus programas de vacinação.

“Os doadores que apoiam o fundo da AMC devem tomar medidas urgentes para interromper mais subsídios à Pfizer e à GSK para uma vacina pela qual eles já foram generosamente recompensados.  Agora é hora de quebrar o duopólio existente da Pfizer / GSK e reter mais dinheiro público para uma vacina verdadeiramente nova e mais acessível ”, disse Elder.
 

*(Itália, Reino Unido, Canadá, Federação Russa, Noruega e Fundação Bill & Melinda Gates)

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