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Sri Lanka: Presos pela guerra e sem assistência

04/10/2006
Desde agosto, um grande conflito no nordeste de Sri Lanka obrigou mais de 200 mil pessoas a deixar suas casas. Judith Soussan, responsável pela missão de Médicos Sem Fronteiras no país, fala sobre a situação

Qual é a situação atual para as pessoas que vivem em áreas afetadas pela guerra?

Dezenas de milhares de pessoas estão totalmente isoladas nas áreas de combate, onde bombardeios são freqüentemente muito intensos. Como resultado da insegurança e do bloqueio à ajuda humanitária, pouquíssima assistência está chegando a essas pessoas. A situação é particularmente séria para as pessoas que vivem em áreas controladas pelos Tigres do Tamil (grupo rebelde), uma vez que o governo do Sri Lanka não vai autorizar que as organizações humanitárias vão até lá e impôs sérias restrições às organizações que já atuavam na área antes dos conflitos terem iniciado. Essa falta de autorização nos impediu de fornecer ajuda à parte leste do país, onde pelo menos 40 mil pessoas foram deslocadas na área de controle dos Tigres do Tamil. Essas pessoas continuam presas, sem nenhum tipo de assistência.

A situação também teve uma grave piora na Península de Jaffna, que está sob controle do governo e é a única região afetada pela guerra onde conseguimos abrir um projeto. Desde dezembro, a situação ficou incrivelmente violenta com assassinatos selecionados todos os dias, fazendo com que muitas pessoas deixassem suas casas. Desde agosto, isso somou-se a violentos confrontos e fortes bombardeios, fazendo com que 50 mil pessoas que vivem na Península, onde ao todo moram 500 mil, deixassem suas casas. Após o início dos conflitos, a entrada e a saída na Península foi bloqueada: as estradas estão fechadas e o tráfego aéreo e fluvial está extremamente limitado, como resultado das restrições impostas pelos Tigres do Tamil e pelas autoridades do Sri Lanka. O preço da comida quadruplicou e as prateleiras têm apenas itens básicos, uma vez que a população tenta estocar alimentos. O acesso ao hospital é limitado ao horário do toque de recolher, que é suspenso apenas algumas horas por dia. Se esse bloqueio continuar por muito tempo, haverá uma crise séria, com especialmente escassez de comida e combustível.

O que MSF está fazendo na Península de Jaffina?

Uma equipe composta por três pessoas está trabalhando no Hospital Point Pedro, primeiramente na sala de emergência e dando apoio a outros serviços do hospital quando necessário. Apesar de MSF ter conseguido manter-se presente no hospital, nossas atividades são muito limitadas, uma vez que o hospital não tem cirurgião e não temos como enviar um de MSF devido às restrições de viagens e à falta de autorização. Nós temos um cirurgião e um anestesiologista que querem ir para Point Pedro, que estão presos em Columbo por mais de três semanas. Até agora, não conseguimos operar em Point Pedro, então temos que enviar nossos pacientes para outro hospital em Jaffna para fazer cirurgias. No entanto, a transferência de pacientes de Point Pedro para Jaffna é complicada, porque o médico de MSF não tem permissão para acompanhar nossos pacientes na ambulância. Até mesmo nossas ações dentro da Península estão limitadas.

Como você interpreta as restrições nas operações de saúde?

O país está ficando incrivelmente violento e radical, deixando pouco espaço para a negociação de ajuda humanitária. Organizações estrangeiras são acusadas por políticos e pela mídia de apoiar a rebelião dos tigres do Tamil.. Organizações humanitárias internacionais não são poupadas dessas acusações. Como resultado, alguns órgãos do governo querem retirar os grupos humanitários das áreas de conflito, apesar de muitos hospitais público terem pedido nossa ajuda. As restrições que vemos hoje no Sri Lanka estão impedindo que a ajuda humanitária chegue à população.

O que é extremamente preocupante no conflito atual é o assassinato de 17 integrantes do ACF (Ação contra a Fome) na parte leste do país. A pesar de não sabermos quem foi o responsável pelo crime, o caso claramente ilustra a falta de espaço humanitário, o quão longe alguns grupos no conflito estão dispostos a ir para expulsar as organizações humanitárias e o quanto o direito essencial à ajuda da população foi prejudicado. Esse foi um crime sem precedentes contra a comunidade humanitária no Sri Lanka.

MSF trabalhou no Sri Lanka durante 17 anos de guerra, na resposta ao tsunami e desde maio de 2006 em resposta ao conflito atual, mas nunca vimos uma situação como essa antes.

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