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Somália: atuações que salvam vidas

17/11/2009
Mostra que já foi vista por mais de 145 mil pessoas em sete capitais brasileiras chega à Central do Brasil

Rapidamente colocando seu uniforme verde, o Dr. Maslah corre para a sala de operações do hospital de Galcayo do sul para realizar uma operação de emergência num jovem que foi esfaqueado. “A ligação veio às 8h da manhã”, explica ele. “Por volta das 10h, estávamos na sala de operações e às 11h nós conseguimos estabilizar o paciente.”  

Na manhã seguinte, os parentes do paciente se reuniram no hospital conversando e até rindo alto enquanto recebiam a notícia de que o jovem ficaria bem. Eles tranquilizaram amigos e outros parentes que chegavam após terem corrido para o hospital temendo o pior.

Como um dos 144 membros da equipe Somali que trabalha para Médicos Sem Fronteiras (MSF) no hospital de Galcayo do Sul, o Dr. Maslah desempenhou um papel importante para manter as atividades de cirurgia funcionando. No início de 2008, num momento em que o conflito na Somália estava se intensificando e as necessidades médicas estavam crescendo, MSF foi forçada a retirar sua equipe internacional do país. Desde então, os projetos têm sido tocados por profissionais locais, apoiados e supervisionados por equipes de gerenciamento baseadas em Nairóbi, que os visitam quando as condições de segurança permitem. Sem o trabalho do Dr. Maslah e das centenas de outros profissionais somalis que trabalham para MSF ao redor do país, milhares de pessoas teriam ficado sem cuidados médicos gratuitos e capazes de salvar vidas.

Ligações noturnas para operações de urgência fazem parte da rotina de trabalho do Dr Maslah, visto que o hospital de Galcayo do Sul é o único a oferecer cirurgia emergencial gratuita na região.

“Todo mês eu realizo cerca de 40 operações em pessoas com lesões abdominais, vítimas de tiros, feridos por facadas, lesionados na coluna e pessoas que sofreram acidentes de carro”, diz o Dr. Maslah.

Cirurgia é apenas um dos serviços que MSF realiza no hospital de Galcayo do Sul, aonde alguns pacientes vêm de lugares distantes como a Etiópia para receber cuidados. A sala de espera do departamento de consultas, o departamento de internações, o espaço reservado para homens nas maternidades e a ala iluminada e ventilada do centro de tuberculose possuem uma coisa em comum: todas estão constantemente repletas de atividades. Todo mês, MSF oferece quase 4 mil consultas, admitindo cerca de 120 pessoas para internamento e realizando mais de cem partos.

A seca prolongada, juntamente com os conflitos e a alta dos preços de alimentos, gera lotação nos centros nutricionais. Apontando para uma fila de mulheres com ar deprimido e frustrado que, já sem forças, carregam bebês desidratados, aguardando para serem atendidas no centro terapêutico de alimentação de MSF, Jibril, o supervisor, explica: “Todo mês, atendemos casos de diarréia, sarampo, desidratação e algumas vezes meningite. Mas agora desnutrição severa tem se tornado o problema mais comum. Nós estamos atualmente tratando 90 pacientes em um espaço preparado para receber apenas 60.”

A exaustão expressa no rosto das mães revela a longa jornada que a maioria delas fez para chegar até o hospital. Devido à insegurança permanente, equipes de MSF não podem sair em carros para buscar pacientes. Como diz uma mãe “muitos na aldeia sabem que existe tratamento gratuito aqui, mas o maior problema é a jornada. Pode levar muitos dias, além de ser muito caro, custando cerca de 500 mil shilings somalis (o equivalente a 10 dólares). Muitas pessoas não podem arcar com isso, então eles ficam em casa e alguns morrem na aldeia.”

As marcas de queimaduras nos corpos de muitos bebês que vão aos centros de nutrição mostram que as mães primeiro procuram os curandeiros tradicionais para o tratamento e só vão para o hospital como último recurso.

Em contraste com esse grupo de mulheres, existem também as que podem ser vistas sorridentes na porta do centro de nutrição. Uma delas carrega um bebê saudável em um braço e no outro uma bolsa contendo ração alimentar para a família, que lhe foi dada por MSF para levar para casa. Ela eleva a voz acima do barulho de crianças chorando para agradecer um membro da equipe. “Ela esteve aqui por algum tempo e agora ela está retornando para casa com um bebê saudável”, diz Jibril.

Membros de MSF como Jibril e o Dr. Maslah trabalham contra o relógio no hospital de Galcayo do Sul com muitos outros agentes somalis comprometidos em fazer a diferença. “A equipe deste hospital salva muitas vidas”, diz o dr. Maslah.

Em um país onde violência, sofrimento e morte gerados por doenças passíveis de prevenção e tratamento são comuns, a realização de tratamento gratuito e independente é vital.