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Sobrevivendo à tragédia no Mar Mediterrâneo: “Eu tinha certeza que era o meu fim”

12/08/2015
Família síria foi resgatada de barco com 600 pessoas que afundou próximo da costa da Líbia

Foto: Marta Soszynska/MSF

Alea estava grávida de cinco meses quando o barco de madeira em que ela entrou com seu marido para escapar da guerra na Líbia afundou com 600 pessoas a bordo. Ela passou a última semana preocupada, porque seu bebê não estava se mexendo e ela não tinha meios de checar se ele estava vivo. Ela e seu marido estavam desesperados para sair da Líbia. Não havia como obter cuidados de saúde ali, porque eles não podiam pagar por um hospital privado e os hospitais públicos eram reservados para líbios.

Alea está tremendo. A impressão é a de que suas pernas são feitas de argila enquanto ela recebe cuidados a bordo do barco de resgate Dignity I, da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF). Ela mal pode conter suas emoções, de tão chocada e aterrorizada por conta da tragédia que acabou de presenciar.

“Eu estava dentro do barco quando ele começou a afundar”, ela revela minutos depois, após ter se acalmado um pouco. Seu marido Mohammed embarca no Dignity I apenas com suas roupas íntimas, ensopado. Foi ele que mergulhou e puxou sua esposa para a superfície, quando ela estava presa no barco afundando. “Eu tinha certeza que era o meu fim. Ele salvou a minha vida.” Mas o bebê de cinco meses do casal pode não ter sobrevivido ao choque e ao estresse da viagem.

Na clínica do barco Dignity I, a obstetriz de MSF Astrid coloca Alea cuidadosamente no leito para tentar achar o pulso de seu bebê. O momento é de tensão. No canto da sala está de pé Dana, de 17 anos, vinda de Damasco, que também estava no barco e se tornou amiga da família. Dana sorri e traduz as perguntas da obstetriz do inglês para o árabe: “Quando foi a última vez que você sentiu o bebê?” “Há uma semana.”

Dana conheceu Alea e Mohammed na Líbia, quando também estava fugindo da guerra em seu país de origem, a Síria. “Eu estava muito cansada de ver morte e sangue todos os dias”, diz ela. Era seu último ano no ensino médio. Ela e seu pai traçaram uma longa e perigosa rota para a Turquia, mas não prosseguiram para a Grécia porque a estrada demandava uma longa caminhada, e o pai de Dana já tem 65 anos. Eles viajaram de avião da Turquia até a Líbia e depois entraram no barco. Ela, então, fica quieta, como se tivesse sido silenciada pela memória do que aconteceu com eles depois.

O silêncio dramático na sala do hospital foi finalmente quebrado por um som, no começo bem baixinho, mas que depois se transformou nitidamente no som de uma batida de coração. Era o coração do bebê de cinco meses, que Alea temeu estar morto, e que seu marido salvou no momento em que a tirou do fundo do barco.

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