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Sistema de saúde no Líbano se desintegra à medida que vazio político persiste

03/09/2021
Hospitais passam por cortes de energia diários e escassez de medicamentos devido à crise econômica no país, que permanece sem governo há um ano
Sistema de saúde no Líbano se desintegra à medida que vazio político persiste

Foto: Karine Pierre/Hans Lucas/MSF

A redução no fornecimento de combustível e remédios está fazendo com que o sistema de saúde do Líbano se desintegre rapidamente enquanto o país, que está sem governo há um ano, passa por uma das piores crises econômicas do mundo. Equipes de Médicos Sem Fronteiras (MSF) estão enfrentando diretamente as consequências do colapso do sistema e permanecem seriamente preocupadas com a continuidade da prestação de serviços essenciais de saúde no país.

“Os hospitais já estão tendo que racionar seus serviços e priorizar pacientes”, diz João Martins, coordenador-geral de MSF no Líbano. “As pessoas agora podem morrer de causas totalmente evitáveis e facilmente tratáveis, só porque os hospitais não têm eletricidade, os suprimentos certos ou equipes".

“A crise no Líbano foi impulsionada por anos de corrupção e agora vemos que isso pode contribuir para a destruição de todo um sistema de saúde com a mesma eficácia que uma guerra ou um desastre natural”, diz Martins. “O vazio político no país não é apenas a causa dessa crise de saúde, mas também está bloqueando as soluções para ela. As autoridades precisam agir agora para evitar consequências ainda piores para as pessoas que vivem no Líbano”.

Escassez de combustível

A crise econômica não apenas acabou com o poder de compra das pessoas e levou a uma inflação sem precedentes, mas também bloqueou a importação de combustível para o país. Os hospitais têm experimentado quedas diárias de energia que duram horas devido aos cortes na rede elétrica nacional e à escassez de óleo diesel para seus geradores de reserva.

MSF não está imune a essas faltas de energia. Em nosso hospital em Bar Elias (Vale do Bekaa), nossas equipes enfrentaram recentemente um corte de energia que durou mais de 44 horas em um período de três dias, forçando nossa equipe médica a reduzir as operações cirúrgicas em 50% naqueles dias e a racionar o uso de combustível para garantir que pudessem responder a emergências.

Além disso, nossas equipes dependem regularmente de outros hospitais para encaminhamentos. No entanto, isso está se tornando cada vez mais difícil, pois essas instalações estão interrompendo o atendimento não emergencial para economizar combustível. Por exemplo, um dos hospitais públicos para os quais nossas equipes normalmente encaminham pacientes nos informou recentemente que as equipes não poderiam mais receber pacientes vindos de nossas instalações, pois haviam fechado sua enfermaria psiquiátrica para minimizar o uso de energia.

Falta de medicamentos

O Líbano também está enfrentando uma escassez de medicamentos e remédios básicos em distribuidoras e farmácias. A maioria desses medicamentos não pode ser produzida ou disponibilizada localmente.

Nos últimos meses, em diferentes projetos, nossas equipes receberam novos ou ex-pacientes relatando que os centros públicos de saúde primária não possuem mais os medicamentos necessários para seus tratamentos. Algumas dessas pessoas já haviam sido estabilizadas por MSF e encaminhadas ao sistema público para acompanhamento de longo prazo de suas condições crônicas.

“É extremamente preocupante ver pessoas cujas condições eram estáveis, mas agora estão piorando novamente porque não conseguiram ter acesso aos medicamentos que precisavam”, disse Joanna Dibiasi, coordenadora de atividades de obstetrícia do projeto de MSF no sul de Beirute.

Pela primeira vez, os hospitais públicos para os quais encaminhamos mulheres grávidas para partos também estão pedindo às nossas equipes que lhes forneçam oxitocina e magnésio, medicamentos essenciais para o tratamento de condições pós-parto que podem ser fatais.

“Infelizmente, nem sempre somos capazes de oferecer suporte. As quantidades nas nossas clínicas e os estoques são limitados, e mesmo que consigamos fazer um pedido extra, ele demora por conta dos atrasos nas importações. Devido ao complicado e, muitas vezes, caótico sistema público, as remessas de medicamentos costumam levar oito meses para chegar até nós, o que é muito tempo no contexto de uma emergência de saúde”, diz Martins.

Organizações humanitárias sobrecarregadas

A população também não consegue mais pagar por atendimento médico privado e há um aumento notável no número de pessoas que procuram assistência humanitária para ter acesso a serviços de saúde. Nossas equipes estão testemunhando isso em primeira mão em nossas clínicas à medida que cada vez mais pessoas procuram serviços médicos gratuitos e o nível geral de vulnerabilidade entre nossos pacientes só está aumentando. Há pessoas que nos pedem também outras formas de assistência, como alimentação, durante as consultas médicas.

Em nosso projeto no Vale do Bekaa, onde fornecemos serviços de saúde reprodutiva e mental, bem como atendimento médico para pacientes com doenças crônicas, estamos observando um aumento exponencial no número de pessoas que nos procuram para ter acesso aos nossos cuidados médicos. A taxa de pacientes com problemas de saúde crônicos atendidos por nossas equipes aumentou 60% desde o início do ano passado. O número de pacientes libaneses dobrou.

“Atualmente, estamos acompanhando e prestando atendimento médico a 3.500 pessoas com doenças crônicas no Vale do Bekaa, especificamente em Hermel e Arsal”, disse Céline Urbain, coordenadora do projeto de MSF em Bekaa. “Esse aumento é alarmante porque estamos atingindo nossos limites em termos de equipe médica por paciente, o que pode reduzir a qualidade do atendimento”.
 

Há alguns meses, também testemunhamos um grande aumento no número de mulheres que procuram nossa maternidade no sul de Beirute. As gestantes faziam fila do lado de fora da unidade, aguardando por horas para serem admitidas e receberem nossos serviços gratuitos de atendimento pré-natal e partos. A situação representava riscos para essas mulheres, então nossas equipes realizaram uma avaliação socioeconômica para que pudéssemos identificar as mulheres grávidas com necessidades mais críticas. “Embora tenha sido bom termos ajudado aquelas que tinham menos meios para buscar atendimento em outro lugar, temos a dolorosa consciência de que não pudemos ajudar a todas”, diz Dibiasi.
 
“Continuamos empenhados em fornecer assistência médica imparcial às pessoas mais vulneráveis com o melhor da nossa capacidade, mas as ações necessárias devem ser tomadas pelas autoridades libanesas para garantir que serviços médicos essenciais sejam fornecidos às pessoas”, disse Martins. “Elas precisam agir para que medicamentos, insumos e combustível sejam acessíveis no país. Os atores humanitários não podem substituir o sistema de saúde de um país inteiro”, conclui.
 

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