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Sistema de ajuda alimentar é incapaz de atender crianças com desnutrição

13/10/2011
Enquanto jovens vítimas da guerra e da fome têm acesso a alimentos nutritivos essenciais, milhões de crianças desnutridas ainda recebem ajuda alimentar de baixa qualidade

Apesar de algumas vitórias recentes na luta contra a desnutrição infantil, o sistema global de ajuda alimentar continua oferecendo alimentos de baixa qualidade para milhões de crianças desnutridas todos os anos. O anúncio foi feito pela organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) às vésperas do Dia Mundial da Alimentação, 16 de outubro.

A desnutrição – uma condição que pode ser prevenida e tratada – afeta cerca de 195 milhões de crianças em todo o mundo, e é a causa de pelo menos um terço das oito milhões de mortes anuais de crianças com menos de cinco anos de idade; mortes que ocorrem, em sua grande maioria, em países em desenvolvimento. Crianças com menos de dois anos de idade são as mais vulneráveis: sem acesso a alimentos ricos em nutrientes, necessários para o crescimento e o desenvolvimento saudável, como os eficientes alimentos suplementares prontos para o uso, que estão disponíveis agora, elas sofrerão conseqüências debilitantes pelo resto de suas vidas.

“Já foi provado que oferecer alimentos nutritivos adequados para crianças pequenas vulneráveis pode salvar suas vidas. Mas, ainda assim, o sistema global de ajuda alimentar ainda não está se valendo das conquistas revolucionárias na área da nutrição”, disse o Dr. Unni Karunakara, presidente internacional de Médicos Sem Fronteiras.

A maior parte dos carregamentos de alimentos enviados para países como os da África Subsaariana é composto de uma mistura de milho e soja (corn-soy blend, ou CSB, no original em inglês) e farinhas fortificadas, que não têm os nutrientes e as proteínas essenciais para crianças em fase de crescimento. Os Estados Unidos, por exemplo, enviam anualmente mais de 143 mil toneladas de CSB – produzido e processado em fazendas americanas – para países em desenvolvimento.

“A variedade de produtos disponível para ajuda alimentar ainda está negligenciando as necessidades das pessoas mais vulneráveis”, disse Dr. Karunakara. “Não há desculpas para esperar: os principais países que oferecem ajuda alimentar precisam se adaptar”.

Esta semana, em nome de mais de 125 mil pessoas, de mais de 180 países, que assinaram uma petição, MSF enviou cartas aos representantes dos maiores países doadores de auxílio alimentar, incluindo Estados Unidos, Estados Membros da União Européia, Canadá e Brasil, pedindo que “parassem de oferecer alimentos de baixa qualidade para crianças desnutridas – ou em risco de desnutrição – em países em desenvolvimento”.

“Diversos países, inclusive o Brasil, tiveram sucesso no combate à desnutrição dentro de suas fronteiras confiando em estratégias que permitiam que as pessoas mais vulneráveis tivessem acesso a alimentos de alto valor nutricional”, disse o Dr. Karunakara. “Mas nós ainda estamos esperando que eles apliquem a mesma estratégia e o mesmo foco aos alimentos que enviam a outros países, como ajuda alimentar”.

Alguns atores-chave na oferta de ajuda alimentar começaram a mudar. O Programa Mundial de Alimentação (PMA), por exemplo, passou a adotar alimentos suplementares que vão ao encontro de necessidades nutricionais de crianças com menos de dois anos de idade como base de suas intervenções em emergências de saúde. Esses produtos tiveram um papel fundamental em 2010, na resposta às crises nutricionais que atingiram o Níger, o Paquistão (após as enchentes) e o Haiti, após o terremoto. E alguns países doadores e agências de auxílio melhoraram a qualidade dos alimentos enviados para a Somália e o Quênia em resposta à crise nutricional atual.

Mas, ainda assim, crianças que vivem em contextos que não se enquadram na categoria de emergências de grande porte continuam recebendo produtos que não atendem suas necessidades nutricionais específicas, enviados por grandes doadores de ajuda alimentar.

“Emergências de grande porte, como a atual crise na Somália e no Quênia, representam apenas a ponta do iceberg da desnutrição”, disse o Dr. Karunakara. “A maioria das crianças desnutridas é invisível, e não é certo que elas tenham que sofrer com guerras ou desastres naturais para ter acesso aos alimentos nutritivos que precisam”.

No final de 2008, um encontro de especialistas organizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) levou em consideração a grande quantidade de evidencias cientificas disponíveis e concluiu que os padrões nutricionais de auxílio alimentar precisavam ser melhorados. No entanto, três anos depois, a OMS, órgão de cujas orientações depende a maioria dos Ministérios da Saúde de países em desenvolvimento, ainda não estabeleceu diretrizes formais para garantir a melhora nos alimentos para crianças pequenas ou desnutridas.
 
 “Orientações da OMS são fundamentais para encorajar países doadores a adotar melhores padrões para o auxílio alimentar oferecido e países que recebem a ajuda a adotar medidas melhores para garantir que as crianças tenham acesso a alimentos nutritivos de qualidade”, disse o Dr. Kurunakara. “As crianças não podem esperar que a segurança e a eficácia destes novos alimentos especializados sejam comprovadas por cada governo, em cada situação de crise: isto serve apenas para atrasar o começo de programas essenciais”, completou.

Em junho de 2010, MSF e a agência VII Photo lançaram “Com fome de Atenção” (Starved for Attention), uma campanha multimídia que apresenta uma série de crises de desnutrição infantil negligenciadas e invisíveis. Fotojornalistas da VII viajaram a locais com altos níveis de desnutrição pelo mundo – de zonas de guerra a economias emergentes –, para expor as causas ocultas das crises de desnutrição, bem como maneiras inovadoras de combater essa condição. Foram produzidos oito documentários, que podem ser vistos na página http://www.starvedforattention.org/

Em 2010, MSF admitiu mais de 300 mil pacientes desnutridos em centros de nutrição em 139 projetos, espalhados por 28 países.

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