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Síria: chegar a hospitais do leste de Aleppo se tornou um perigo por si só

11/10/2016
Pelo menos cinco ambulâncias foram atingidas por bombas no último mês; o Diretório de Saúde relatou que há apenas 11 veículos trabalhando para atender cerca de 250 mil pessoas

Os poucos hospitais que restam na região leste de Aleppo, já sobrecarregados pelo grande número de feridos, enfrentam outro desafio: resgatar e transportar as pessoas feridas pelos ataques aéreos. Restam apenas 11 ambulâncias em funcionamento na cidade sitiada, já que oito estão quebradas, fora de operação e precisando de conserto, de acordo com a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF).

“Como se não bastasse o fato de que os hospitais foram atingidos pelo menos 23 vezes desde o início do cerco, em julho, as ambulâncias que transportam pacientes feridos estão sendo atacadas também. E, no dia de hoje, uma clínica apoiada por MSF no leste de Aleppo também foi danificada por um bombardeio”, diz Carlos Francisco, coordenador-geral de MSF para a Síria. “Isso é apenas uma lembrança de como as regras da guerra estão sendo continuamente violadas na Síria.”

Entre 23 de setembro e 8 de outubro, hospitais do leste de Aleppo receberam pelo menos 1.384 feridos, uma média de 86 por dia, de acordo com o Diretório de Saúde. Porém, chegar até os feridos está se tornando uma tarefa cada vez mais difícil, já que apenas 11 ambulâncias estão em funcionamento para atender a uma população de 250 mil pessoas. Cinco ambulâncias foram diretamente atingidas em ataques no último mês, e duas delas foram completamente destruídas. Motoristas e prestadores de primeiros socorros também ficaram feridos nos ataques, dois deles gravemente, de acordo com o sistema de ambulância de Aleppo, administrado pelo Diretório de Saúde.

Organizações médicas de Aleppo relatam que ataques de “duplo golpe” acontecem regularmente. “Quando equipes de resgate chegam, aviões de guerra atacam o mesmo lugar pela segunda vez, o que aumento o número de mortos e feridos, e atinge ambulâncias”, diz Ahmad Sweid, gerente do sistema de ambulâncias. “Estamos perdendo pessoas treinadas e veículos. Ao mesmo tempo, o cerco nos impede de trazer peças de reposição para consertar as ambulâncias.” Com os bombardeios contínuos, a condição das estradas também está se deteriorando rapidamente, forçando motoristas a fazer constantes desvios.

“Uma vez, estávamos tentando resgatar pessoas de um edifício quando fomos atingidos em um segundo ataque”, diz Hasan Al Humsi, motorista de ambulância que foi levemente ferido no episódio. “Por sorte, escapei. A determinação de levar o nosso trabalho adiante é o que nos permite socorrer mulheres e crianças.”

“O mundo todo está testemunhando o sofrimento do leste de Aleppo, uma população encurralada em uma batalha sangrenta sem nenhuma chance de fuga”, diz Pablo Marco, coordenador de operações de MSF no Oriente Médio. “A Rússia e a Síria devem parar de bombardear a cidade indiscriminadamente. Todas as partes do conflito devem facilitar e autorizar a evacuação médica de pessoas doentes e feridos em estado grave.”

O sistema de ambulância mantido pelo Diretório de Saúde do leste de Aleppo é composto por uma equipe de 35 motoristas e socorristas. Há também alguns serviços menores para o transporte de feridos, mantido por voluntários e ONGs.

MSF apoia oito hospitais no leste de Aleppo. A organização mantém seis instalações médicas no norte da Síria e apoia mais de 150 centros de saúde e hospitais pelo país; muitos deles estão localizados em áreas sitiadas.

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