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Síria: catálogo de horrores continua em áreas sitiadas

07/04/2016
Médicos Sem Fronteiras reitera seu apelo pelo fim da violência indiscriminada ou direcionada a civis ou áreas civis

Foto: MSF *legenda no final da matéria

Embora o cessar-fogo e os comboios humanitários tenham contribuído para uma redução nas consequências humanitárias do conflito na Síria, a situação continua crítica em muitas áreas sitiadas, de acordo com a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF).

 “O catálogo de horrores continua praticamente inalterado em muitas áreas sitiadas”, diz o Dr. Bart Janssens, diretor de operações de MSF. “Ao longo das últimas duas semanas, nas áreas sitiadas na região de Damasco, um médico foi morto por um franco-atirador, dois dos hospitais que apoiamos foram bombardeados, bairros sitiados continuam sendo alvejados, e a ajuda médica ainda está bloqueada ou restrita.”

“Nós reiteramos nosso pedido pelo fim da violência indiscriminada ou direcionada a civis ou áreas civis”, diz o Dr. Janssens. “E ressaltamos mais uma vez a necessidade urgente de evacuações por razões médicas e da provisão desimpedida e sustentável de suprimentos humanitários, que possam entrar livremente em todas as áreas onde há pessoas em necessidade, com prioridade para as áreas sitiadas.”

ÚLTIMO MÉDICO A PERMANECER EM ZABADANI MORTO A TIRO

Na semana passada, o único médico presente na cidade sitiada de Zabadani e um membro da equipe de resgate foram mortos a tiros por um atirador depois de prestarem socorro a um paciente.

Na maioria das áreas sitiadas restam poucos médicos; em alguns lugares não há nenhum. Alguns fugiram para salvar suas vidas e muitos foram mortos em bombardeios ou outros ataques. Em 2015, MSF registrou que 23 profissionais sírios apoiados pela organização foram mortos e 58 feridos.

Em algumas áreas sitiadas, é comum ver estudantes de medicina ou enfermagem com treinamento limitado que estão aprendendo com a prática. Eles se esforçam para fazer o melhor dentro de sua capacidade, e, embora MSF tente fornecer orientação técnica e apoio à distância, isso torna impossível o oferecimento de qualquer cuidado médico tecnicamente difícil. Fazer o diagnóstico correto também se torna extremamente desafiador.

DOIS HOSPITAIS BOMBARDEADOS

Na semana passada, dois hospitais apoiados por MSF, uma escola próxima e prédios desabitados nos subúrbios sitiados de Goutha Oriental foram bombardeados, deixando ao menos 38 mortos e 87 feridos; cinco deles eram profissionais médicos.

Os médicos presentes nessas áreas só receberam suprimentos extremamente limitados ao longo dos últimos meses, e dependem, principalmente, do apoio de MSF e de outras organizações humanitárias para lhes fornecerem suprimentos médicos por meios clandestinos.

Nas últimas semanas, diversas áreas sitiadas da região de Damasco, onde MSF presta suporte a instalações médicas sírias, foram atingidas por bombardeios, incluindo Al Marj, Deir Al Safir e Zebdine.

ITENS MÉDICOS REMOVIDOS DE COMBOIOS

Mesmo quando os raros comboios de ajuda internacional recebem permissão para entrar em áreas sitiadas, médicos apoiados por MSF relatam a falta de itens médicos vitais essenciais, como suprimentos cirúrgicos e anestésicos e bolsas de sangue; normalmente, as quantidades de fluidos intravenosos são significativamente insuficientes. São exatamente esses os itens vitais para tratar vítimas de bombardeios, assim como essenciais para tratar acidentes com trauma e realizar cesáreas ou alguns partos complicados. A Organização das Nações Unidas (ONU) informou que 80 mil tratamentos médicos foram excluídos ou removidos de seus comboios neste ano, até o momento.

EVACUAÇÕES MÉDICAS AINDA NEGADAS

Nas 40 instalações médicas regularmente apoiadas por MSF em áreas sitiadas da região de Damasco, pouquíssimos pacientes foram autorizados a serem transferidos por razões médicas, apesar da longa lista de pacientes em estado grave que precisam de tratamento vital, não disponível em sua região. Em Madaya, na semana passada, cinco pessoas morreram; três delas provavelmente poderiam ter sido estabilizadas e tratadas se o apelo urgente por evacuações por razões médicas tivesse sido atendido (uma criança que morreu poucas horas depois de um acidente enquanto brincava com um dispositivo explosivo, um idoso que, suspeita-se, faleceu de doença vascular cerebral e um jovem que morreu de desnutrição).

DESNUTRIÇÃO

Apesar dos comboios, mais de cem casos de desnutrição foram identificados pela equipe médica local de Madaya, e sete casos de desnutrição grave foram diagnosticados em Madamiyeh.

AINDA HÁ A IMPOSIÇÃO DE CERCOS TOTAIS

Algumas áreas, como Daraya e Duma, continuam completamente bloqueadas para o acesso de qualquer ajuda humanitária oficial, e o impedimento recorrente do acesso aos bairros sitiados de Barzeh, próximo a Damasco, e EI Waer, próximo a Homs, é alarmante.

Em áreas onde a segurança permite, MSF mantém seis instalações médicas no norte da Síria. Na maior parte do país, a intensidade do conflito e a falta de autorização oficial do governo impedem MSF de administrar diretamente instalações de saúde. A organização presta suporte regular a mais de 70 instalações médicas sírias e realiza doações ocasionais de suprimentos médicos para aproximadamente outras 80 estruturas de saúde sírias. Há um foco particular na provisão de apoio a médicos em áreas sitiadas. Essas instalações apoiadas são mantidas por médicos sírios, sem a presença de um profissional de MSF.

 

* Mohammed, de 17 anos, fotografado no dia 2 de abril de 2016 em sua casa em Madaya, na Síria. Ele morreu de desnutrição dois dias depois de a foto ser tirada. Por cinco meses, ele foi um paciente de trauma com dano neurológico. Devido ao cerco total da cidade de Madaya, o tratamento que os médicos tinham a lhe oferecer era insuficiente, e não havia quase nada para ele comer. Quando os comboios de ajuda internacional chegaram em janeiro deste ano, ele estava em um estado de fraqueza extrema, e os médicos, que não têm treinamento específico no tratamento de desnutrição, não puderam evitar que ele ficasse cada vez mais desnutrido e fraco. Apesar dos comboios, mais de cem casos de desnutrição foram identificados pela equipe médica local de Madaya.