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Ser rohingya em Bangladesh: "Eu chorei a noite toda"

30/05/2018
Antes de ser refugiado, Jasim trabalhava com MSF em seu país e nunca imaginou que estaria na outra ponta do atendimento
Ser rohingya em Bangladesh: "eu chorei a noite toda"

Natasha Lewer/MSF

Jasim*, que trabalhou com Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Mianmar, é agora refugiado em Bangladesh e conta como a violência em seu país afetou a vida de sua família.

“Você não pode imaginar como é difícil morar em Mianmar. Estamos sempre sendo discriminados.

Tudo é restrito para nós. A educação é fornecida às crianças budistas, mas não há professores para as muçulmanas, então, temos que contratar nossos próprios professores. E, mesmo assim, eles dizem que devemos aprender em bengali, já que vivemos lá. Desde 2012, mesmo os rohingyas que são aprovados nas provas não podem estudar em universidades.

Minha educação foi muito curta – fui expulso da escola. Por isso, quando cheguei a Bangladesh, estudei inglês antes de retornar a Mianmar. Eu queria ser tradutor em uma organização humanitária. Em 2012 soube que MSF precisava de um tradutor em seu projeto no norte do estado de Rakhine, em Maungdaw, então me candidatei.

Logo me tornei supervisor de saúde mental em MSF, depois agente comunitário no projeto de HIV e, após isso, ajudei no treinamento de agentes comunitários de saúde.

Mas, algo terrível aconteceu. Em 2014, o mais velho dos meus cinco filhos, à época com 14 anos, foi sequestrado por um intermediário e vendido a um traficante de pessoas. Meu filho ficou em um barco durante 34 dias, sem comida e sem água. Quando eles chegaram à Tailândia, ele me telefonou. Os traficantes queriam US$2 mil (cerca de 6.380 reais) por sua libertação. Se eu não pagasse, eles disseram que mandariam meu filho aos barcos de pesca e eu nunca mais o veria.

Meu filho ficou detido na Tailândia. Ele tinha meio litro de água para beber e tomar banho, uma pequena quantidade de arroz e um peixe pequeno por dia. Eles o mantiveram fraco para que ele não pudesse fugir. Os guardas estavam armados. Muitas pessoas morrem nessa situação de detenção – elas simplesmente vão para a floresta.

Consegui juntar dinheiro e finalmente meu filho foi libertado. Agora ele está seguro na Malásia.

Quanto a mim, não me sentia seguro permanecendo em Mianmar, já que havia problemas entre o governo e os muçulmanos. As autoridades me procuravam – três vezes elas foram à minha casa.

Em 2017, aconteceu novamente. Da minha casa, muito perto do rio, eu vi mais de 20 pessoas feridas pela violência. Quando vi isso, fiquei mais assustado. Em setembro, decidi que eu e minha família precisávamos sair do país.

Para chegar ao rio Naf [fronteira entre Mianmar e Bangladesh], tivemos que atravessar um pequeno riacho com um posto de controle e abrir caminho pelos arbustos espinhosos. Era meia-noite e havia muitas forças de segurança por perto.
Durante uma hora e meia andamos lentamente pelos espinhos para não fazer barulho. Se nos ouvissem, as pessoas atirariam.

Atravessamos o rio em um pequeno barco com capacidade para transportar 20 pessoas – éramos mais de 100. As laterais do barco estavam apenas meia polegada acima do nível da água.

Finalmente chegamos à ilha de Shah Porir Dwip. Bangladesh estava despreparado para receber meio milhão de pessoas que chegaram no período de um mês, mas ainda assim fomos muito bem recebidos pelo povo e pelas autoridades do país. Eles entraram na água para nos ajudar a carregar nossas coisas.

No dia seguinte, começamos nossa jornada em direção a Kutupalong. Foi difícil porque havia muitas pessoas na estrada. As pessoas carregavam suas coisas, as crianças choravam, não havia comida e todos estavam muito cansados. A estrada estava lotada e as pessoas estavam deitadas no meio delas.

Naquele dia, pela primeira e única vez em minha vida, senti emoções terríveis. Eu disse: 'vou morrer aqui'. Eu chorei a noite toda.

Felizmente, eu tinha alguns parentes que moravam em um campo de refugiados. Eles nos abrigaram. A casa era muito estreita, mas pelo menos estávamos dentro de uma casa e não precisaríamos dormir na estrada. Depois disso, aluguei um quarto por um mês e depois construí meu próprio abrigo.

A vida no campo não é fácil. As condições são de superlotação e há contaminação por toda parte. As pessoas não estão recebendo itens necessários e você não pode ficar ou sair quando quiser. A segurança também é um problema – há sequestros e assassinatos, embora não saibamos quem esteja realizando esses atos. Mas minha preocupação principal é a educação das crianças. Não há educação formal nos campos e isso está destruindo o futuro deles.

Minha esposa está sempre pensando em como era nossa vida anteriormente. Nós construímos uma casa há dois anos em Mianmar e todo o nosso dinheiro está investido nela. Nós adoraríamos voltar quando a situação estiver estável, mas ninguém está disposto a voltar agora. As pessoas ainda estão fugindo. Como podemos voltar?”

*O nome foi alterado a pedido do mesmo.

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