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“Ser parteira na Síria significa estar 24 horas na ativa”

22/04/2013
Cathy Janssens, parteira belga que estava na Síria, fala sobre a experiência de atender mulheres no país

“Fui à Síria estruturar um programa de saúde materna e infantil em um dos hospitais de MSF no país. Não havia outra profissional médica mulher e, por isso, deparei-me com uma enorme carga de trabalho e responsabilidades consideráveis.


Quando cheguei, as atividades de saúde materna para gestantes estavam no início e os suprimentos estavam ainda a caminho. No começo, tudo o que eu tinha à minha disposição era um quarto com uma cama de hospital. Nada mais. Rapidamente, solicitei uma mesa de parto, mas, durante as duas primeiras semanas, tive que me virar com o que tinha à mão.


Logicamente, as mulheres não puderam aguardar a chegada da mesa e não se pode dispensar uma gestante que chega ao hospital. Para partos normais, não faz tanta diferença não ter o equipamento adequado, mas, quando há complicações, você realmente precisa de alguns kits médicos especializados.
 
Improvisando bolsas de água quente
É surpreendente o quão adaptáveis podemos ser. Meu principal problema era a falta de equipamentos especializados para bebês prematuros. Estava muito frio no hospital. O contato pele com pele, no qual o bebê é aninhado no peito da mãe, é considerado um bom método para aquecer uma criança cuja temperatura tenha baixado muito. Mas essa técnica não é utilizada na Síria e as mães ficaram um tanto relutantes e, por isso, tive dificuldade para manter os recém-nascidos aquecidos. Então, tivemos uma ideia: aquecer as bolsas de soro no forno micro-ondas para improvisar pequenas bolsas de água quente.


Percebemos logo que teríamos que tratar muitas mulheres que não estavam grávidas. A notícia de que havia uma médica mulher no hospital espalhou-se rapidamente e não demorou para que mulheres surgissem aos montes.

Desde o início da guerra, as mulheres têm enfrentado cada vez mais dificuldades para ter acesso a cuidados médicos e, nesta região, nosso hospital é realmente a única alternativa. Para muitas dessas mulheres, eu era mais do que uma parteira; eu era alguém que as escutava. Quando as mulheres vinham para uma consulta e saíam sabendo que não tinham quaisquer problemas de saúde, acho que iam para casa com mais segurança, apesar do conflito.
 
Assegurando a privacidade
Quando o equipamento para os partos chegou, levamos a sala de consultas para a outra ponta do hospital. No início, ficávamos do lado oposto da ala de Acidentes e Emergência. Isso significa que não havia muita privacidade para as mulheres, ainda mais considerando que muitos homens eram atendidos naquela ala. Eu podia sentir que as mulheres sentiam-se desconfortáveis. Mas, logo que mudamos dali, a questão da privacidade desapareceu. O ambiente de consulta para as mulheres estava muito melhor e, com a iniciativa, contribuímos também para ampliar um pouco o espaço na área de Acidentes e Emergência.


Quando inauguramos a ala somente para mulheres, não havia mais timidez e, de repente, nosso contato com as pacientes melhorou consideravelmente. Nós atendíamos mulheres que chegavam ao hospital usando burcas compridas que, uma vez ambientadas na sala de consultas, se despiam, camada por camada, e começavam a se abrir. Essa é, inclusive, uma das razões pelas quais eu gostaria de voltar para a Síria: o contato com os pacientes é maravilhoso.
 
Plantão 24 horas, sete dias por semana
O trabalho é árduo. Geralmente, as mulheres dão à luz à noite e, depois de um turno de dia inteiro, era comum que um turno de noite inteira se desenrolasse. Durante o dia, eu fazia consultas e era chamada com frequência para assistir um parto. Dois assistentes sírios me ajudavam, mas eles não tinham treinamento médico, que dirá habilidades obstétricas específicas. Tive de ensiná-los muito a partir do zero, e não podia deixá-los conduzirem consultas ou partos sozinhos. Então, tive que estar presente em todas as consultas, correndo de um lado para o outro cada vez que uma mulher entrava em trabalho de parto.


Por isso, o trabalho era árduo e extremamente cansativo, mas você acaba encontrando energia em algum lugar. As mulheres ficaram extremamente gratas e me abraçaram e agradeceram inúmeras vezes.
 
Vítimas infantis
No entanto, eu sofria muito quando alguma criança era trazida para a ala de Acidentes e Emergência. Havia crianças, de apenas dois ou três anos, morrendo em terrível sofrimento, ou com ferimentos que irão prejudicá-las pelo resto de suas vidas. São crianças inocentes; aceitar isso é muito complicado. Principalmente, em meio a um conflito que só faz piorar.


Mas eu desfrutaria da oportunidade de retornar à Síria. O projeto é belíssimo e um ótimo trabalho está sendo conduzido por uma equipe fantástica. Estamos, inclusive, ampliando as atividades desenvolvidas neste hospital e os sírios que tratamos ficam imensamente gratos."

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