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Saúde mental: parte integral da ajuda humanitária

23/10/2006
Experiência de MSF em situações de conflito mostrou a importância do desenvolvimento de tratamento de estresses pós-traumáticos e outras desordens

Durante mais de 15 anos, Médicos Sem Fronteiras (MSF) desenvolveu programas de saúde mental em mais de 40 países em contextos de crises: conflitos, catástrofes naturais, períodos de fome, epidemias ou pandemias, uma experiência que fez com que aprendesse que o tratamento psicológico e psicossocial deve ser parte integral da ação humanitária.

Os projetos de ação médica de MSF sempre têm associados, por conta da própria natureza, um componente psicológico resultante da mera interação com o pacientes, sejam eles pessoas que vivem em contextos de violência, de desastre natural ou que estão sem assistência. É óbvio o impacto da vida do paciente em condições de extrema necessidade ou de ameaça física em sua saúde mental.

MSF ofereceu assistência psicológica pela primeira vez em 1988 às vítimas do terremoto de Spitak, na Armênia. O primeiro programa de saúde mental propriamente dito foi aberto em Gaza, em 1990, para atender às vítimas da Intifada e reconstruir seus mecanismo de defesa e auto-ajuda. Na época, já ficou claro que em conflitos crônicos como este não se pode falar de cura já que os traumas não desaparecem.

Ainda hoje, em Hebron (Cisjordânia), 60% dos casos atendidos por MSF estão relacionados a incidentes violentos.

Nesse projeto, que beneficia 400 pessoas, 25% dos pacientes registrados têm entre três e 14 anos de idade. Além disso, uma em cada cinco pessoas que recebem atenção psicológica são crianças com menos de cinco anos. Os sintomas mais comuns são alopécia, incontinência, medo, agressividade, depressão, ansiedade ou estresse. Tanto em Hebron quanto em Nablus (Gaza), MSF desenvolve projetos específicos de saúde mental através de visitas domiciliares e atendimento individual por parte de equipes formadas por psicólogos, trabalhadores sociais e médicos.

Em outros contextos, os programas têm um enfoque mais amplo, de tipo psicossocial, focado menos no apoio individual e priorizando uma combinação de atividades sociais, psicológicas, legais e médicas. De fato, as conseqüências da violência, do deslocamento, de um terremoto ou de uma doença associada à morte (Aids, febres hemorrágicas, etc) são sentidas não só individualmente, mas por toda a sociedade: atos de violência, violência doméstica, desestruturação dos núcleos familiares, das redes sociais, entre outros etc.

Na Colômbia, contexto no qual três milhões de pessoas se viram obrigadas a abandonar seus locais de origem, os testemunhos recolhidos refletem um ciclo de violência sem fim (assassinatos, seqüestros, desaparecimentos...), onde o deslocamento é perigoso e voltar para casa não é uma opção válida. Este país é, sem dúvidas, o exemplo mais claro de um contexto de emergência onde a saúde mental é bastante esquecida: em algumas províncias, há apenas um psiquiatra disponível para oferecer o atendimento necessário.

No âmbito dos programas psicossociais, uma das lições aprendidas se refere à integração dos mecanismos tradicionais de saúde, como os curandeiros e as parteiras. Quase sempre eles são a primeira opção a quem as vítimas recorrem, por exemplo, em casos de violência sexual ou em casos de problemas físicos creditados culturalmente a uma origem espiritual. Tudo isso está diretamente relacionado à estigmatização do doente.

Como foi constatado em um recente estudo realizado por MSF nos campos de deslocados de Shangil Tobaya (Darfur), uma doença muito freqüente é o chamado mashkul, definido no país como "a profunda preocupação de mentes e corações com o que passou e com o que acontecerá". Os sintomas são uma grave falta de energia e concentração, a diminuição da capacidade de tomar decisões, assim como problemas para dormir e de memória. O mashkul afeta os hábitos de higiene, alimentação e saúde necessários para a sobrevivência.

Devido a tudo isso, é evidente que os cuidados com a saúde mental devem ser incluídos nos programas nutricionais e, de forma mais ampla, na atenção médica humanitária em geral. Os dados recolhidos em Darfur comprovam: 70% dos entrevistados apresentavam graves somatizações de ansiedade e de estresse, que justificavam a enorme quantidade de casos de dores físicas sem explicação médica e a razão pela qual quase um terço das consultas médicas realizadas por MSF em 2005 se encaixavam na categoria diagnóstica "outros".

Além disso, é necessário reconhecer que as conseqüências dos acontecimentos traumáticos são sentidas a longo prazo porque, mesmo quando a urgência estritamente médica acaba, esses programas continuam a ser necessários. No território paquistanês da Cachemira, um ano depois do terremoto, MSF continua a oferecer atendimento psicológico a pacientes com estresse pós-traumático, fobias, depressão e outras desordens de conduta.

Por fim, a questão não é se a saúde mental deve ser levada em conta ou não, mas de que forma e em qual momento. Neste sentido, os desafios enfrentados pela comunidade humanitária são muitos: como ter acesso às vítimas de violência sexual quando isso é considerado um assunto 'privado'? Como criar um projeto médico para responder às necessidades de uma população traumatizada? Quais são as melhores ferramentas para sistematizar essa atenção? Em que situações saúde mental deve ser prioritária?