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Sarampo continua afetando a população da Rep. Dem. do Congo

27/02/2013
Desde 2010, a doença, para a qual existe vacina efetiva e barata, faz vítimas no país

Em dezembro de 2012, MSF divulgou um alerta sobre uma epidemia de sarampo nas províncias de Equateur e Orientale, no norte da República Democrática do Congo (RDC), na tentativa de chamar a atenção para a situação e para a falta de recursos disponíveis aos profissionais de saúde que respondem à emergência. Dois meses depois, no entanto, a epidemia de sarampo ainda afeta dezenas de milhares de crianças na região.

A doença é extremamente contagiosa e pode se espalhar rapidamente em países como a RDC, que tem diversas lacunas em seus sistemas de saúde. Os efeitos podem ser devastadores. O sarampo leva os pacientes a terem sérias complicações médicas e a mortalidade pode chegar a 25% dos casos.

Desde marco de 2012, MSF tratou mais de 18.500 pacientes e vacinou mais de 440 mil crianças, mas é evidente que muitas outras precisam de assistência. “Vemos muitas valas pequenas e recém-cavadas pela estrada”, conta Nathalie Gielen, coordenadora de uma equipe de MSF que esteve na zona de saúde de Djolu, em Equateur.

“Contamos 35 mortos em um vilarejo. Um pai nos contou que havia perdido sete filhos em três semanas. Viajando de vilarejo a vilarejo, ouvíamos apenas uma palavra: sarampo. As pessoas estão assustadas e sem esperança. Estão pedindo ajuda.”
 
Uma crise que segue em andamento desde que teve início em 2010
“Essa situação é apenas o reflexo recente de uma epidemia em andamento que afeta o país inteiro desde 2010 e é particularmente fatal entre crianças com menos de cinco anos”, conta Amaury Grégoire, chefe de projeto adjunto de MSF. “É inaceitável que o sarampo mate qualquer pessoa no século XXI. Uma vacina muito efetiva e barata está disponível e basta uma só dose para garantir a proteção. Ainda assim, em países como a RDC, centenas de milhares de crianças nunca foram vacinadas e continuam morrendo de uma doença que pode ser facilmente prevenida.”
 
A demanda sobrecarregou o sistema de saúde da RDC. Muitas instalações mal funcionam e as estão em funcionamento frequentemente ficam sem medicamentos e esforçam-se para encontrar mão de obra qualificada. A ausência de estradas transitáveis torna ainda mais difícil a tarefa de abastecê-las com suprimentos. A cadeia de frio, essencial para garantir a efetividade da vacina, é frequentemente interrompida nas áreas mais remotas, devido à falta de equipamentos ou eletricidade. Na zona de Yahuma, na província de Orientale, onde MSF vacinou 76 mil crianças, o centro de saúde tem apenas dois refrigeradores e uma motocicleta quebrada para atender uma área que equivale a duas vezes o tamanho da Suíça.

Essa situação torna particularmente difícil a tarefa de garantir acesso a cuidados médicos. A maioria da população vive em vilarejos distantes e no limiar da pobreza, o que significa que não podem viajar para ter acesso a tratamento. Além disso, embora uma epidemia tenha sido declarada, algumas pessoas ainda são cobradas pela atenção médica recebida.
 
Centros de saúde existentes estão vazios ou inacessíveis

Martine trouxe sua filha de dez meses, Asiata, ao hospital em Dingila. A criança tem sarampo e apresenta complicações respiratórias. Elas viajaram 20 quilômetros a pé para receberem cuidados médicos de MSF. Na unidade de cuidados intensivos, Félicien conta que caminhou por dois dias para trazer Israël, seu filho de três anos, que está em condição crítica por conta de complicações relacionadas ao sarampo. “Nosso posto de saúde não tem medicamentos”, ele conta. Segundo ele, duas crianças em seu vilarejo já morrerem a caminho do hospital.

Nesse região vasta e de densas florestas, é comum que as pessoas tenham de andar por diversos dias para ter acesso a cuidados médicos. Ir até um centro de saúde público é, frequentemente, a última alternativa – depois de ter sido tentada a medicina tradicional – e isso só é feito caso haja recursos para pagar pelos serviços.

“Os pais chegam quando a criança já apresenta complicações médicas, como infecções respiratórias agudas ou desnutrição”, conta o Dr. Jehu, líder da equipe de MSF no hospital de Buta. “Algumas também têm malária. Tratamos muitas crianças com complicações médicas múltiplas e simultâneas. Muitas morrem em seus vilarejos porque as instalações de saúde não oferecem cuidados adequados.”
 
Chegando às zonas de saúde mais distantes a qualquer custo

MSF continua alertando as autoridades de saúde, já que a epidemia está longe de seu fim. A organização está expandindo suas atividades e continua a vacinar crianças e tratar pacientes, incluindo os que precisam de cuidados hospitalares intensivos. MSF presta suporte às instalações médicas, oferece treinamento aos profissionais locais e alerta a população sobre a disponibilidade de cuidados gratuitos, além de encaminhar os pacientes mais gravemente doentes.

“O tratamento de crianças afetadas por complicações médicas relacionadas ao sarampo é muito difícil, mesmo em uma unidade de cuidados intensivos bem equipada. Mas nenhuma criança deveria ser hospitalizada por causa do sarampo, porque a doença deveria ser prevenida facilmente”, conclui o Dr. Mathieu Bichet, coordenador de programa adjunto de MSF.