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“Sabemos improvisar e temos formação técnica igual ou melhor que médicos estrangeiros”

26/07/2005
Antonio Venturieri, médico brasileiro que está em sua primeira missão com MSF, fala sobre o trabalho humanitário. Ele lembra que os médicos que já trabalharam no SUS têm mais facilidade de se adaptar às estruturas precárias de hospitais na África

Aos 53 anos de idade, o cirurgião paraense Antônio Venturieri Neto decidiu realizar um sonho que tinha desde os tempos de recém formado: trabalhar com Médicos Sem Fronteiras (MSF) em missões humanitárias no exterior. Formado em 1975, Venturieri trabalhou como médico da marinha, foi cirurgião geral em hospitais, na Bahia e no Pará, e já assumiu cargos de diretoria e supervisão em diversos hospitais do país. “Eu acho que posso fazer muito mais, e quero trabalhar num lugar onde a minha experiência possa ser mais útil”, conta Venturieri. Nessa entrevista, Antônio fala sobre o que o levou a trabalhar com MSF e sobre a sua primeira missão humanitária no exterior. Ele está há seis meses na Libéria, onde trabalha como cirurgião de MSF no hospital Rendemption, na capital Monróvia.

Porque você decidiu trabalhar com MSF?

Meu desejo de trabalhar com MSF é antigo, desde que conheci a organização há muitos anos. Mas eu precisava educar minhas filhas, hoje com 24, 26 e 28 anos de idade, e ter mais experiência e maturidade profissional. Além disso, acredito que no Brasil haja pessoal especializado suficiente e que o que precisamos é de mudanças políticas e sociais. Individualmente, não acho que possa contribuir muito nesse sentido. Eu acho que posso fazer muito mais e quero trabalhar num lugar onde a minha experiência possa ser mais útil. Aqui no Brasil, por exemplo, nos estado do sul e do sudeste, há mais médicos do que o número recomendado pela OMS.

Na sua opinião, qual seria a vantagem para uma organização como MSF contratar profissionais brasileiros, por exemplo?

Temos no país uma medicina de alta tecnologia coexistindo com uma medicina básica. Isso porque temos doenças típicas da pobreza e da fome, lado a lado de patologias típicas de países ricos. Isso nos possibilita ter uma experiência ampla em todo tipo de medicina. Além disso, como temos um sistema de saúde público deficiente, somos capazes de realizar um bom trabalho com recursos limitados.

Como você descreveria a sua missão?

É uma oportunidade de contribuir para aliviar o sofrimento de um povo, conhecer culturas diferentes por meio de pacientes e dos colegas de missão, aperfeiçoar o conhecimento de línguas estrangeiras, conhecer coisas novas e descobrir outras realidades, outras visões da medicina, enfim, oportunidade de crescer pessoal e profissionalmente.

Quais as dificuldades que você encontrou?

Não encontrei dificuldades no que se refere à parte técnica. Nós, médicos brasileiros, temos um pé no primeiro e outro no terceiro mundo da medicina, somos muito versáteis. Sabemos improvisar e temos grande capacidade de adaptação profissional, além de formação técnica não inferior a dos colegas estrangeiros. Em nossos hospitais se faz transplante cardíaco e amputações por piomiosite, videocirurgia e tratamento de desnutrição, hemodiálise e tratamento para malária, cineangiocoronariografia e tratamento de tuberculose, ressonância magnética e tratamento de malaria e doença de Chagas. Temos de tudo um pouco. Mas senti alguma dificuldade de adaptação à vida em comunidade, com pessoas que, apesar de unidas pelo mesmo ideal, possuem diferenças culturais, além de barreiras lingüísticas.


O que mais te agradou?

A oportunidade de conhecer melhor o povo africano, doce e alegre, e descobrir nele o nosso povo brasileiro.

O que você aprendeu durante seu trabalho com MSF na Libéria?

Esta foi uma missão de grande aprendizado cultural, não somente pelo contato permanente com uma equipe formada por profissionais de mais de 25 países, mas também pelo redescobrimento do Brasil por meio da África, a partir das características étnicas e culturais que são as mesmas do outro lado do Atlântico. Somos praticamente o mesmo povo e não percebemos isso.

Você recomendaria a um profissional seguir em missão com MSF?

Recomendaria sim, com entusiasmo. Pois além de possibilitar uma atividade profissional ética e independente, se constitui num poderoso instrumento de crescimento pessoal e profissional.

Sua primeira missão foi na Libéria, mas especificamente na capital, Monróvia. Como você encontrou o país?

Monróvia é uma cidade que recebeu este nome em homenagem ao ex-presidente norte-americano. Foi fundada pelos escravos libertados no século XIX, e tem três milhões de habitantes. Mais da metade da população da cidade teve que fugir de suas casas e vive nos campos de deslocados internos. É uma imensa favela, sem água corrente, sem energia, sem esgoto, e onde se ouve um ruído constante dos geradores elétricos instalados por ONGs, como Médicos Sem Fronteiras, por hotéis, prédios comerciais e pelo governo. Foi um choque chegar numa cidade onde até os postes estavam perfurados por projéteis, como testemunhas mudas da guerra. Mas o que mais fala aos olhos de quem chega à cidade são a miséria e a desesperança do povo.

E o hospital Rendemption onde você trabalha?

O hospital é pobre, sem recursos, caótico, sem estrutura administrativa ou técnica, e gracas ao apoio do MSF consegue se desenvolver um trabalho gratificante. É um dos únicos hospitais públicos do país que ainda funciona e para onde só vão os casos mais graves. A mortalidade é altíssima e há muitos casos de cólera, malária cerebral, mal de Pott, meningites, diarréia, pneumonia etc. Todos sofrem muito e muitos acabam morrendo. Não é difícil para quem veio do SUS, mas também não é nada fácil ver tanta gente morrer. Um monte de crianças doentes e suas mães resignadas. É como se elas pensassem que estão fadadas a morrer, a sofrer, apenas por serem africanas. E isso dói muito, ver as crianças sorridentes, alegres por não entenderem o que se passa, felizes por não saberem o destino que elas provavelmente terão.