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Ruanda: 20 anos depois do genocídio

04/05/2018
Ruandeses que receberam apoio de MSF agora trabalham com a organização
Ruanda: 20 anos depois do genocídio

Foto: Ulger

Claudia, Dominique e Innocent eram crianças quando um terrível genocídio acontecia em seu país. Eles nos contam sobre como conheceram MSF e quais foram suas motivações para trabalhar com a organização.

Há 24 anos, em 7 de abril de 1994, equipes de Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Kigali, capital de Ruanda, testemunharam a violência na cidade. Foram os primeiros dias do que viria a se tornar o genocídio de Ruanda, no qual mais de 1 milhão de pessoas perderam suas vidas, incluindo profissionais de MSF.

A crise que dizimou o país também se espalhou pela fronteira, forçando a fuga de refugiados para os países vizinhos República Democrática do Congo, Uganda e Burundi. Entre os sobreviventes da tragédia estavam jovens que, décadas depois, trabalhariam com MSF.

Claudia Kanyemera, Dominique Mukunzi e Innocent Maniraruta conheceram MSF quando a organização oferecia assistência médica a pessoas que fugiam da violência em Ruanda. Hoje, eles compartilham as experiências que os inspiraram e motivaram a se juntar a MSF.


"Como sobrevivente do genocídio, sei que as pessoas precisam de apoio"    
Claudia Kanyemera, gerente financeira de MSF


“Decidi me juntar a MSF há muito tempo porque admirava a missão e a neutralidade da organização e por ela ajudar pessoas que estão em uma situação crítica, que são vítimas de guerra. Como sobrevivente do genocídio e vítima de uma crise política, sei o quanto as pessoas precisam de apoio quando estão nessas condições.

Naquela época, em 1994, eu estava no ensino médio. Nós vivíamos em uma província no sul de Ruanda quando tudo começou e fui forçada a deixar minha casa com minha família. Nós nos deslocamos internamente para outra parte do país. Eu perdi alguns familiares durante esse tempo. Foi muito difícil. Nós fugimos e fomos para um lugar que pensávamos ser seguro, mas, como todos os lugares de Ruanda, não havia lugar que fosse realmente seguro.

Alguns meses após o início dos combates, encontrei um trabalho com uma organização sem fins lucrativos e ajudava na tradução do francês para o ruandês e vice-versa. Foi lá que encontrei MSF pela primeira vez – eles montaram um hospital no mesmo complexo dessa organização.

Alguns dias, eu ajudava com as traduções no hospital quando precisavam de mim. Foi quando vi como MSF tratava os pacientes: sem discriminação e sem preconceitos. A organização realmente se importava com as pessoas. Foi quando decidi que iria para a universidade e me juntaria a MSF.

Depois que a violência cessou e as coisas finalmente voltaram ao normal, me inscrevi para estudar em uma universidade.  
Eu sonhava em estudar medicina para poder me juntar a uma organização humanitária, trabalhando como médica. Mas depois do genocídio, não foi fácil conseguir uma bolsa de estudos e cursar medicina era muito caro.

A bolsa de estudos que consegui foi para estudar finanças, então mudei de ideia sobre cursar medicina. No final, não consegui realizar meu sonho de ser médica. Mas, construí minha carreira na área de finanças, trabalhando como auditora e depois como gerente financeira em um banco, coordenando departamentos, e fiz um mestrado em economia.

Mas eu ainda queria fazer mais pelas pessoas, então, decidi me juntar a MSF como gerente financeira no terreno. Hoje, apesar de não ser médica, ainda posso ajudar e trabalhar para realizar meu sonho de mudar a realidade das pessoas.”


"MSF chegou no meio do nada e abriu um hospital"
Dominique Mukunzi, farmacêutico de MSF


“Eu tinha 11 anos quando fugimos, em 1994. O genocídio aconteceu em meu país natal, Ruanda, e tivemos que fugir. Caminhamos por dias, atravessamos a fronteira com a República Democrática do Congo até chegarmos ao campo de refugiados em Bukavu. Foi lá que conheci MSF, nos campos de refugiados, ajudando as pessoas.

Ficamos lá por mais de um ano. Então, em 1996, a guerra começou em Bukavu e tivemos que sair novamente. Mais uma vez caminhamos durante dias, até Kisangani, a centenas de quilômetros de distância. Às vezes, não havia aldeias ao longo do caminho, então só dormíamos em lonas de plástico, na beira da estrada.

Continuo me lembrando de algo dessa jornada. Eu me lembro de estar na estrada para Kisangani e encontrar um campo ao longo do caminho. Um dia, um pequeno avião pousou perto de onde estávamos e era MSF. MSF chegou no meio do nada e abriu um hospital que ajudava refugiados que estavam na estrada.

Antes de fugir de Ruanda, meu pai trabalhava em um banco e minha mãe trabalhava no hospital de Kigali, como assistente social. Mas, com a violência, tivemos que fugir (incluindo minha irmã e dois irmãos). No geral, passamos três anos em estradas e acampamentos na RDC. Minha mãe conseguiu um emprego com MSF no campo de refugiados, trabalhando no centro de nutrição. Em 1997, finalmente era seguro voltar para casa. Nós tivemos que recomeçar nossa vida em Ruanda: casa, trabalho e escola.

Depois de terminar a escola, estudei na universidade para me tornar farmacêutico. A experiência da minha mãe me influenciou a querer trabalhar na mesma área. Embora haja outras organizações que realizam trabalho humanitário, MSF me inspira. Lembro-me da ajuda que MSF me ofereceu quando precisei. Eu sempre mantenho isso em mente, lembrar de ajudar quem uma vez me ajudou.”


"Nada poderia ser tão ruim quanto o que aconteceu em Ruanda"    
Innocent Maniraruta, gerente financeiro de MSF


“Há muitos anos quero trabalhar na área humanitária para poder ajudar pessoas que estão desesperadamente necessitadas.

De fato, no começo, eu queria trabalhar com crianças para que eu pudesse retribuir e compartilhar o que recebi. MSF faz um ótimo trabalho ajudando pessoas necessitadas. É algo que você não consegue imaginar até ir ao terreno e ver como as pessoas sofrem. Aí, sim, você verá como MSF ajuda essas pessoas a resolver seus problemas, especialmente oferecendo assistência médica.

Lembro-me do genocídio em Ruanda em 1994. Nós, ruandeses, vimos como MSF veio para ajudar as pessoas que necessitavam, enquanto, ao mesmo tempo, víamos como grande parte do resto do mundo não ajudava ou oferecia ajuda. Na maior parte, os próprios ruandeses tiveram que encontrar solução para a crise.

Eu me lembro de como eu realmente queria que pessoas de outros países viessem para nos ajuda. Mas, por um longo tempo, ninguém veio. As pessoas ignoraram o que estava acontecendo e que os ruandeses estavam sofrendo.

Mas, então, percebi que MSF veio para ajudar Ruanda. Na verdade, MSF fez um ótimo trabalho e salvaram vidas. Lembro-me de pensar que outras organizações e outros países deveriam seguir o exemplo de MSF e ajudar imediatamente, e não esperar que os problemas se tornassem um grande problema.

Foi também uma lição para mim. Isso me fez sentir que eu também deveria trabalhar para ajudar as pessoas que necessitam e oferecer minhas habilidades de alguma forma com o objetivo de ajudar e proteger as pessoas.

É por isso que estou comprometido a ajudar MSF. Estou pronto para contribuir, mesmo que seja difícil, porque sei que nada pode ser tão ruim quanto o que aconteceu durante o genocídio em Ruanda.”
 

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