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Retrospectiva COVID-19 | Atuação de MSF no Brasil

09/11/2021
Correndo atrás da pandemia: como MSF cuidou dos mais vulneráveis na sua maior operação em 30 anos de Brasil
Retrospectiva COVID-19| Atuação de MSF no Brasil

Foto: Mariana Abdalla/MSF

Nos dias 14 e 15 de janeiro de 2021, a cidade de Manaus viveu o que talvez tenham sido os momentos mais dramáticos de toda a pandemia de COVID-19 no Brasil. Uma forte alta no número de pacientes com quadro grave da doença fez com que o suprimento de oxigênio na capital do Amazonas fosse insuficiente para atender a demanda, e dezenas de pacientes morreram sufocados. A tragédia tornou-se um símbolo da falta de estratégia das autoridades brasileiras desde o início da pandemia, e nos dias seguintes a catástrofe ocupou o topo das manchetes em todo o mundo.

A escala e a velocidade com que a crise se desenvolveu pegou de surpresa até mesmo profissionais experientes de Médicos Sem Fronteiras (MSF). Uma equipe de emergência foi mobilizada em Manaus o mais rapidamente possível e, em pouco mais de uma semana, equipes médicas adicionais já estavam trabalhando junto a profissionais locais. Eles começaram a implementar protocolos médicos em unidades de saúde que viviam uma situação caótica. Com poucos funcionários e suprimentos, Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) tiveram de ser adaptadas às pressas para receber pacientes de COVID-19 em estado grave.

A crise em Manaus teria também sérias consequências para os que necessitavam de atendimento médico no resto do Amazonas. Manaus era naquele momento a única cidade do estado onde havia unidades de terapia intensiva. Pacientes em estado grave tinham de ser transferidos para lá de avião. Mas, com o colapso do sistema hospitalar em meio à escassez de oxigênio, não havia leitos disponíveis para as transferências.

Paralelamente, na cidade amazonense de Tefé, cerca de 12 horas de barco da capital, equipes locais e de MSF se esforçavam para lidar com um aumento no número de pacientes na ala destinada ao atendimento de COVID-19 no Hospital Regional, que estava lotado e desabastecido.

“Em meados de janeiro perdemos três pacientes em Tefé; pacientes que teriam tido chance de sobrevivência se tivéssemos conseguido transferi-los para Manaus”, lamentou Pierre Van Heddegem, coordenador de emergência do projeto de COVID-19 no Brasil.  
Poucas semanas depois, em fevereiro, o hospital de Tefé também sofreu impacto direto da escassez de oxigênio. “Só tínhamos poucas horas de suprimento de oxigênio e vários pacientes dependendo disso. Estávamos torcendo para que o melhor acontecesse, mas nos preparando para o pior”, afirmou Van Heddegem. Por sorte, uma carga de cilindros chegou de avião quando os estoques estavam quase zerados.
 
A crise no Amazonas foi provavelmente o momento mais difícil em um trabalho que começou em abril de 2020 nas ruas de São Paulo, a quase 3 mil km de distância. As primeiras atividades de MSF relacionadas à COVID-19 no Brasil tiveram o objetivo de assistir à população em situação de rua em São Paulo, aqueles que simplesmente não tinham para onde ir quando ouviam a recomendação de ficar em casa. No período de um ano e meio que se seguiu, a resposta de MSF se tornou o maior projeto da história de 30 anos da organização no Brasil. Em diferentes momentos, houve projetos em 12 estados, oferecendo atendimento médico e assistência a comunidades marginalizadas, incluindo migrantes, grupos indígenas e moradores de áreas pobres ou remotas. Durante essa jornada, a pandemia trouxe muitos desafios inesperados que exigiram que as equipes reagissem e aprendessem rápido enquanto trabalhavam.
 
O Brasil iniciou a crise equipado com algumas ferramentas valiosas. É um dos poucos países do mundo com um sistema público de saúde universal, o SUS, e tinha um histórico de sucesso ao lidar com crises sanitárias anteriores. Apesar disso, com dimensões continentais e disparidades regionais, enfrentou imensos desafios. Enquanto o número de casos e mortes continuava crescendo, foi ficando claro que o país não contava com uma resposta coerente e coordenada à pandemia.  

O modo como a emergência foi gerida produziu uma longa lista de oportunidades perdidas: a crise de oxigênio em Manaus foi o exemplo mais cruel, mas não o único, de falta de coordenação. Autoridades federais também minimizaram a doença, muitas vezes desprezando o uso de mascaras, o distanciamento físico e medidas de restrição de atividades.

Durante o primeiro trimestre de 2021, o Brasil tornou-se um epicentro regional da pandemia. Em abril, MSF não teve dúvida em classificar a situação como uma catástrofe humanitária, chamando a atenção para a necessidade urgente de correções em como o país lidava com a doença. “A resposta à COVID-19 no Brasil tem de começar na comunidade, não na UTI”, afirmou Meinie Nicolai, diretora geral de MSF.
 
Havia também uma batalha de informação a ser travada. Muitas lideranças políticas apoiaram a prescrição do chamado ‘kit-COVID’, uma combinação de remédios sem eficácia contra a doença. MSF viu em primeira mão o mal que este kit causou aos pacientes. “Algumas pessoas tomaram com a ilusão de que estariam protegidas, e muitas vezes em doses altas, acreditando que isso daria uma proteção extra para novas variantes”, relatou a enfermeira de MSF Jamila Costa, que trabalhou em Rondônia. Em consequência, muitos dos que usaram os medicamentos só buscaram cuidados adequados quando já estavam em estado grave e já não havia muito que pudesse ser feito.

Apesar de todos os desafios, MSF seguiu em frente, tentando fazer a diferença. Com recursos humanos e materiais limitados, era essencial que a organização conseguisse amplificar ao máximo o impacto de seu trabalho. Muitos projetos foram dedicados ao treinamento de profissionais de saúde, compartilhando a experiência adquirida pela organização em epidemias anteriores, especialmente na prevenção e controle de infecções. Deste modo, equipes locais estariam mais bem preparadas para continuar atendendo suas comunidades uma vez que MSF não estivesse mais presente.

MSF também cuidou e deu apoio a trabalhadores da saúde exaustos que tiveram de enfrentar a carga emocional de lidar cotidianamente com a morte, sabendo que também poderiam levar a doença para suas famílias.  Profissionais de saúde mental da organização ofereceram atendimentos psicológicos de emergência e consultas e posteriormente organizaram treinamentos para outros profissionais, que puderam então replicar este atendimento emergencial.

Junto com este trabalho, MSF deu prioridade ao engajamento com comunidades, contratando pessoal local como promotores de saúde para que disseminassem mensagens precisas de promoção de saúde. Em algumas localidades, as mensagens foram transmitidas em línguas indígenas.  

“A cada pessoa que alcançamos, esperamos que nossas mensagens possam ser multiplicadas e deixemos um legado positivo para as comunidades”, disse Catherine de Sousa Rocha, promotora de saúde que atuou em Portel, uma localidade remota na ilha do Marajó, norte do país.  

MSF conseguiu realizar muito em 18 meses de atividades, apesar de todas as limitações e desafios. Em São Paulo, cuidou em abrigos públicos de pacientes em situação de rua, e posteriormente organizou chamadas de vídeo para famílias impossibilitadas de visitar seus parentes na UTI em um hospital da periferia da cidade, e no mesmo local forneceu cuidados paliativos quando os tratamentos convencionais já não eram mais efetivos. No Amazonas e em Roraima, MSF percebeu que pacientes indígenas ficavam inquietos e não conseguiam dormir em camas, e então as substituiu por redes para que tivessem mais conforto.  
Acima de tudo, MSF procurou oferecer cuidados médicos humanizados e dignos.  

“Conversamos com enfermeiros, médicos, membros da comunidade e pacientes. E o que recebemos deles foi apreço e gratidão”, disse o presidente internacional de MSF, Dr. Christos Christou, durante uma visita à Rondônia. “Eles nos agradeceram por estarmos aqui e auxilia-los com orientações, protocolos e apoio psicológico. Mas, no final das contas, o que nós demos a eles foi esperança para poderem seguir em frente.”

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Durante um ano e meio, MSF respondeu à emergência da COVID-19 com uma abordagem flexível que permitiu a mobilização de equipes onde eram mais necessárias, otimizando o uso de recursos humanos e materiais escassos. Em distintos momentos, atividades foram realizadas em 12 estados: Amazonas, Bahia, Ceará, Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraíba, Rio de Janeiro, Rondônia, Roraima e São Paulo. A assistência médica aos pacientes de COVID-19 foi oferecida em todos os níveis, assim como foi fornecido apoio de saúde mental para pacientes e pessoal de saúde. Também foram ministrados treinamentos para aprimoramento de protocolos e fluxos de pacientes. Adicionalmente, foi dada ênfase especial ao engajamento comunitário, com atividades de promoção de saúde e diagnósticos, utilizando em grande medida testes rápidos de antígeno. MSF também tem dado assistência à população de migrantes e refugiados no estado de Roraima desde 2018.

 

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