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República Democrática do Congo: “Acontece uma emergência diferente a cada dia”

02/06/2017
A conselheira para assuntos médicos da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), Marit de Wit, acabou de retornar do Kivu do Norte, uma região assolada por três décadas de violência brutal
República Democrática do Congo: “Acontece uma emergência diferente a cada dia”

Foto: Gwenn Dubourthoumieu

Como você descreveria a situação no Kivu do Norte agora?

Mweso, no leste da República Democrática do Congo (RDC), está bem no coração do conflito. Cinco grupos ou mais lutam entre si na mata e a situação é completamente imprevisível. Alguns grupos podem estar lutando do mesmo lado hoje, mas lutar um contra o outro amanhã. 

MSF apoia o hospital com 250 leitos em Mweso, que é a única instalação médica desse tipo num raio de 100 km. O problema aqui é muito relacionado ao conflito. As pessoas nunca sabem se conseguirão chegar ao hospital no dia seguinte e o mesmo é verdade para os nossos profissionais congoleses.

Como as pessoas lidam com a violência?

Mweso fica nas montanhas, por isso faz muito frio à noite. Quando um grupo armado decide entrar num vilarejo, os moradores são obrigados a fugir. Existe uma escola na cidade de Mweso onde pessoas em fuga podem dormir. Do contrário, elas têm que dormir nos campos, no frio e sob a chuva. É terrível ver as circunstâncias precárias em que as pessoas têm que viver.

Como a equipe está lidando com essa situação de emergência?

A violência afeta o seu trabalho diretamente. Há um centro de saúde a apenas 10 km de Mweso; entretanto, leva uma hora para chegar até lá. Algumas noites as enfermeiras não podem voltar para casa porque há confronto lá fora e por isso têm que dormir na clínica.

Você sente que a situação na RDC é uma crise esquecida?

A mídia não fala sobre o que está acontecendo no leste da RDC, mesmo com uma emergência diferente acontecendo lá a cada dia. Pode não haver um confronto generalizado, como na Síria, mas tortura e estupros coletivos são uma realidade diária. Nossa equipe – especialmente os profissionais congoleses – são as pessoas que lidam com esse horror todos os dias.

Os profissionais congoleses são os verdadeiros heróis do projeto. Às vezes nos esquecemos que eles passam pelas mesmas coisas que nossos pacientes e ainda assim estão motivados para vir trabalhar todas as manhãs. Se um dia eles não aparecem, isso pode significar que suas casas foram roubadas ou que alguém das suas famílias está desparecido.

Quais outros projetos de MSF você visitou?

Eu também visitei Walikale, onde MSF apoia um hospital e alguns centros de saúde. Em janeiro passado, em Walikale, recebemos 122 mulheres de um mesmo vilarejo que haviam sido estupradas. Após duas semanas, elas se sentiram seguras para vir até nós em busca de tratamento. Construímos um espaço especial em Walikale, onde oferecemos serviços de planejamento familiar, tratamento para doenças sexualmente transmissíveis e cuidados para pessoas que foram vítimas de violência sexual.

Antes, podíamos dizer que o grande número de estupros na RDC se devia à violência, mas hoje essa realidade, infelizmente, é aceita como normal. Muitas vezes as vítimas não percebem os riscos médicos e as consequências psicológicas do que aconteceu com elas. Tentamos convencer homens e mulheres de que o estupro não é normal e distribuímos informações sobre as clínicas que oferecem os serviços de que essas pessoas precisam.

Quais as principais causas de mortalidade na RDC?

No leste da RDC, as pessoas ainda morrem das doenças mais simples e fáceis de tratar: malária, diarreia e pneumonia.

É raro ver pessoas vindo de longe, atravessando frentes de batalha para alcançar o hospital, porque todas as outras organizações internacionais foram embora. As pessoas devem escolher entre deixar um filho morrer em casa ou correr o risco de algo acontecer com elas no caminho até o hospital.

Por esse motivo, estamos ensinando agentes de saúde comunitária a tratar pessoas nos vilarejos contra essas três doenças, de modo que elas não precisem fazer longas viagens até os centros de saúde.

Quais outras atividades são realizadas nas regiões de Mweso e Walikale?

Realizamos campanhas de vacinação para prevenir o sarampo, a difteria e o tétano. Nos centros de saúde, vacinamos cerca de mil crianças por mês. Porém, devido ao grande tamanho da RDC, é impossível alcançar todo mundo. A cada três ou quatro anos, quando há um número suficiente de recém-nascidos, um novo surto de sarampo começa. Para impedir que isso aconteça, é necessário ter um sistema de saúde que funcione, mas infelizmente isso não existe na RDC.

O conflito de 30 anos não ajuda: há uma geração inteira de mães congolesas que nunca souberam o que é ter um sistema estável de saúde à disposição.

Qual a parte mais gratificante da sua experiência?

Eu vivi um momento muito comovente na unidade de neonatologia do hospital de Mweso, onde há muitos bebês recém-nascidos abaixo do peso ideal. É um lugar impecavelmente limpo, onde as mães criam uma atmosfera muito especial. Todas as tardes, as obstetrizes mostram vídeos de mulheres de todas as partes do mundo com seus bebês prematuros. As mães sempre pensavam que tinham esse problema por serem da RDC.  Ao verem mulheres de outras partes do mundo na mesma situação cuidando de seus bebês, elas se sentem encorajadas. O trabalho de equipe que elas realizaram foi impressionante; todas as mães celebravam quando um bebê engordava 100 gramas. Foi algo incrível e motivador de se ver.

MSF trabalha no Kivu do Norte desde 1981. Atualmente, apoia o Ministério da Saúde nos hospitais de Mweso, Walikale, Masisi, Rutshuru e Bambu, além de centros de saúde nos arredores dessas regiões. MSF oferece cuidados básicos e hospitalares a pessoas afetadas pela violência recorrente, que de outra forma teriam pouco acesso a serviços médicos. Em 2016, nossas equipes ofereceram mais de 270 mil consultas ambulatoriais somente na região de Mweso, sendo quase metade delas para casos de malária. MSF também apoia cinco instalações de saúde em Goma, oferecendo exames e tratamento para HIV/Aids.