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República Centro-Africana: curando almas e corações partidos

12/02/2015
Programa de MSF oferece suporte médico e psicológico para vítimas de violência sexual no país

A psicóloga clínica Hélène Thomas participou de dois projetos na República Centro-Africana (RCA) entre abril e dezembro de 2014: ela inaugurou o programa da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) de suporte médico e psicológico para vítimas de violência sexual (VVS) no hospital geral da capital Bangui. Abaixo, Hélène compartilha algumas das histórias de um povo prisioneiro da violência.   

“A história de Sophie* foi a que mais me afetou. Ela parecia estar literalmente caindo aos pedaços quando chegou ao hospital. Ela tinha apenas 37 anos, mas aparentava ter mais de 50. Ela tinha ferimentos no pé e malária, e estava subnutrida. Traumatizada, confusa e desorientada, ela também tinha sarcoma de Kaposi, uma doença que se manifesta como lesões cutâneas. O que ela tinha a dizer era verdadeiramente chocante: ’Eu não sei se estou viva ou morta. Minha vida não tem sentido. Ainda me resta alguma dignidade? Eu ainda sou um ser humano?’

Sophie estava em um ônibus indo ao mercado em Boguila, no noroeste da RCA, quando o veículo foi parado por um grupo de homens armados. Primeiro, eles separaram as mulheres dos homens e depois levaram as mulheres para dentro da mata. Por duas semanas, essas mulheres foram estupradas, drogadas, forçadas a andar descalças quase sem alimentos. Um dia, alguns dos homens deixaram o local para atacar um vilarejo e elas conseguiram escapar.

Shopia ficou totalmente destruída. Ela não tinha a noção da coragem que foi necessária para que ela e as outras mulheres sequestradas escapassem, que elas poderiam ter acabado sozinhas na mata ou serem sujeitas a represálias por grupos armados. Moradores de vilarejos próximo dali as acolheram, ofereceram primeiros socorros e proteção, e então elas foram para casa. Mas o sofrimento de Sophie estava longe de terminar.

‘Minha vida não tem mais sentido.’

Quando ela finalmente chegou em casa, seu marido a repudiou e sequer permitiu que ela visse seu filho de nove anos. Seu irmão havia ouvido no rádio que MSF estava inaugurando um programa para vítimas de violência sexual no hospital geral de Bangui e sugeriu que ela fosse até lá.

Nós começamos a tranquilizá-la e acalmá-la. Escutamos suas histórias em songo (uma das línguas faladas na RCA), já que ela não fala francês tão bem. Ainda que seja incomum, tivemos de interná-la porque ela realmente estava muito doente e fraca. Nós fizemos exames médico e clínico e, infelizmente, descobrimos que ela havia sido infectada com HIV. Foi muito difícil para ela. Ela disse que queria se matar. Mas, felizmente, graças ao tratamento médico, suporte psicológico e interação social com as pessoas acompanhando outros pacientes, ela se recuperou aos poucos. Nós a mantivemos conosco por cerca de um mês, até que se sentisse forte o suficiente para voltar ao seu vilarejo.

Em 2014, 485 vítimas de violência sexual foram tratadas na RCA
A RCA está em estado de caos absoluto e o que aconteceu com Sophie está longe de ser um caso isolado. Entre julho e novembro de 2014, nós tratamos 274 vítimas de violência sexual no hospital geral. Do total, 24 eram menores – quase a metade não tinha nem oito anos de idade – e sete eram homens.

Eu me lembro de uma senhora que tinha 90 anos. Nós tivemos que ir buscá-la em sua casa porque ela estava ferida. E uma menina de três anos que estava em estado de choque. É horrível ver tanto sofrimento.

As vítimas vêm até nós geralmente porque elas mesmas, ou alguém que conhecem, foram informadas e tomaram ciência do que fazemos por meio da campanha de sensibilização que fazemos quando iniciamos o programa para vítimas de violência sexual, e algumas são transferidas de outras instalações de saúde. E agora, a polícia de Bangui, e mais particularmente a brigada de proteção de menores, com a tarefa de lidar com casos de violência sexual, já começou a enviar vítimas para nós.

Nosso programa no hospital geral e a unidade de VVS administrada por MSF no centro de saúde Castor, que também é em Bangui, são as únicas instalações na RCA que oferecem tratamento integrado às vítimas de violência sexual. Esses cuidados médicos e psicológicos são essenciais – juntamente com o apoio de amigos e familiares – para que elas tenham a esperança de que um dia irão se curar e superar seu trauma.”

*O nome foi alterado.

MSF começou a trabalhar na RCA em 1996. Desde 2013, a organização dobrou sua assistência médica e ampliou seus programas para responder às emergências no país.
 

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