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República Centro-Africana: após 18 meses isoladas em um complexo, famílias deslocadas decidem que é seguro voltar para casa

11/09/2015
Sob exílio voluntário para fugir da violência, 400 pessoas enfrentaram condições precárias por mais de um ano

Foto: MSF

Ao longo dos últimos 18 meses, 400 pessoas viveram sob exílio voluntário dentro de sua própria cidade, atrás de muros altos e portões fechados no complexo de Bishop, em Berberati, na República Centro-Africana (RCA), para escapar da violência. A maioria delas são comerciantes muçulmanos e suas famílias. Mas, nas últimas semanas, elas finalmente decidiram que era seguro o bastante para voltarem para casa.

Dentro do complexo, as condições de vida eram degradantes. As famílias receberam cuidados médicos básicos de uma equipe da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), que administrava uma clínica móvel ali várias vezes por semana. Aqueles que precisavam de cuidados especializados eram transferidos ao hospital universitário de Berberati, onde MSF também atua. Nos 18 meses entre fevereiro de 2014 e julho de 2015, as equipes móveis de MSF realizaram mais de 4.800 consultas médicas dentro do complexo.

A equipe de MSF também ofereceu suprimentos alimentares às pessoas abrigadas no complexo, com o apoio do Programa Mundial de Alimentos (PMA).

Um primeiro grupo de pessoas deslocadas voltaram às suas casas no distrito de Poto Poto, em Berberati, em julho de 2015, após autoridades locais, com o apoio de organizações locais e internacionais, lançarem um “processo de coesão social” entre as diferentes comunidades da cidade. No início de agosto, as outras famílias deixaram o complexo e também retornaram para casa.   

“A volta das pessoas deslocadas é bem recebida pela população”, disse Ben, um líder comunitário no bairro de Poto Poto. “Esse é o resultado de um trabalho de longo prazo realizado por autoridades locais em parceria com outras organizações.”

Na medida em que foram embora, MSF distribuiu suprimentos alimentares para o equivalente a um mês para cada família. A maioria das pessoas abrigadas no complexo perderam tudo, e reconstruir suas vidas e estruturar tudo novamente como comerciantes não será fácil. Amadou, um dos deslocados que voltou para casa, disse: “Estamos muito felizes por estarmos de volta ao nosso bairro. No entanto, ainda há muito a ser feito para reconquistar nossa qualidade de vida.”

Após 18 meses ajudando as pessoas no complexo de Bishop, a equipe de MSF comemorou a volta delas para casa. “Após um ano e meio vivendo em condições precárias e excluídas do resto do mundo, essas famílias podem, finalmente, voltar para casa”, disse Geraldine Duc, coordenadora médica de MSF em Berberati. “Embora eles tenham de superar o medo e reconstruir o que foi destruído, suas vidas estão lentamente voltando ao normal.”

Em outros locais da RCA, a situação não é tão positiva, e MSF continua preocupada com a condição das pessoas que continuam abrigadas em complexos e temendo por suas vidas. Em Carnot, por exemplo, cerca de 500 pessoas estão vivendo confinadas dentro de uma igreja desde fevereiro de 2014.

Uma em cada cinco pessoas na RCA estão deslocadas dentro do país ou vivendo como refugiadas em países vizinhos. Em julho de 2015, havia 368 mil deslocados na RCA, incluindo 30 mil na capital, Bangui, enquanto cerca de 460 mil refugiados centro-africanos estão vivendo em Camarões, no Chade e na República Democrática do Congo (RDC).  

MSF atua na RCA desde 1997 e, atualmente, administra 15 projetos no país. Uma equipe da organização começou a trabalhar em Berberati em janeiro de 2014 para prestar assistência às vítimas do conflito e garantir que as pessoas tivessem acesso a cuidados médicos. Hoje, os profissionais de MSF atuam na ala pediátrica e na unidade nutricional do hospital universitário de Berberati. Em 2015, 2.349 crianças foram admitidas na ala pediátrica e 787 crianças foram tratadas para desnutrição. Equipes de MSF também apoiam quatro centros de saúde em vilarejos nos arredores, realizando 7.580 consultas médicas entre janeiro e junho de 2015.

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