Relatos de sobrevivência em meio à guerra no Líbano

Mais de 1 milhão de pessoas foram deslocadas desde o início da escalada dos conflitos no país

Edifícios residenciais destruídos no bairro densamente povoado no sul de Beirute.| Maryam Srour/MSF

No Líbano, a escalada da violência e os contínuos bombardeios aéreos israelenses já deixaram mais de 1.460 mortos e mais de 1 milhão de pessoas deslocadas, de acordo com as autoridades locais. Muitas famílias já foram deslocadas repetidas vezes.

Médicos Sem Fronteiras (MSF) iniciou uma resposta de emergência com clínicas móveis, distribuição de itens essenciais, apoio a hospitais e abrigos. No sul do país, onde muitas pessoas buscaram refúgio, nossas equipes reuniram relatos de sobrevivência em meio à guerra.

Khadija com a filha, Sanaa, de 8 anos de idade, e o filho, Ali, de 12 anos. © Emin Ozmen/Magnum Photos

Khadijanão saiu de casa com uma mala.
Saiu segurando as mãos dos filhos enquanto fugia dos bombardeios.

Por volta das 3h da manhã de segunda-feira, 2 de março, Khadija fugiu de Ebba, no distrito de Nabatiyeh, com o marido, a filha, Sanaa, de 8 anos de idade, e o filho, Ali, de 12. Na escuridão, as estradas estavam congestionadas de carros. Os estrondos dos ataques aéreos ecoavam. O que deveria ter sido um trajeto curto até um local seguro se transformou em horas de viagem. Ao meio-dia, chegaram a Anout, no distrito de Chouf – exaustos, famintos e sem saber o que viria a seguir.

Eles se dirigiram a uma escola que havia sido designada como abrigo coletivo, mas, quando chegaram, as portas ainda estavam fechadas. Quando o abrigo finalmente abriu, a realidade lá dentro era avassaladora: três famílias, num total de até 17 pessoas, dividindo um único cômodo. Khadija tentou imaginar seus filhos dormindo ali, vivendo ali, tentando ser crianças ali. Ela não conseguiu.

Eles partiram.

Naquela noite, encontraram uma alternativa improvisada: um contêiner de metal reaproveitado. Um pequeno espaço onde poderiam, pelo menos, respirar. O marido dela também começou a trabalhar, fazendo pequenos serviços em um caminhão sempre que podia, tentando manter a família, dia após dia.

A vida dentro do contêiner é uma negociação constante com a escassez. Eles carregam água para dentro do lugar em jarros e baldes, para se banhar e limpar o ambiente. À noite, dependem de uma pequena lanterna a pilhas ou de velas. As rotinas mais simples — tomar banho, cozinhar, dormir — exigem mais esforço do que jamais exigiram. E nada mais parece temporário.

Khadija está tentando manter a família unida, embora ela mesma encontre dificuldades para se manter firme. O marido é diabético e Khadija toma medicação de uso contínuo para tratar um distúrbio nervoso que surgiu após dois anos de estresse — estresse que começou com a guerra e só se agravou com o deslocamento. “Não sei para onde ir caso meu estado piore.” O restante da sua família está espalhado pelo país: parentes deslocados em Saida, Barja, Beirute. Todos estão em outro lugar, e ninguém está realmente seguro. Khadija diz que o Líbano parece ter se tornado um mapa de paradas temporárias.

 

Hussein, de 59 anos, fugiu de Bint Jbeil com a família em meio aos bombardeios no sul do Líbano. Ele, a mulher e as três filhas fugiram de casa de madrugada, sem ter destino certo. O que deveria ser uma viagem curta entre uma cidade e outra se transformou em um trajeto de 17 horas e um sofrimento que ainda não teve fim. 

Hajje Zaynab, 80 anos de idade, está vivendo em um espaço com outras 23 pessoas. © Emin Ozmen/Magnum Photos

“A diabetes não me derrubou.
A hipertensão também não vai.”

A jornada de Hajje Zaynab, de 80 anos de idade, em busca de segurança em Anout foi uma verdadeira provação. Como tantos outros, ela passou horas na estrada, dormindo sentada no carro em intervalos curtos e agitados.

Atualmente, ela vive com outras pessoas em um abrigo coletivo onde antes era uma escola. São 23 pessoas divindo uma única sala de aula, tentando dormir apesar da falta de travesseiros, colchões e cobertores.

A casa de Hajje em Yater foi atingida por Israel. A perda é enorme, mas Hajje fala sobre a possibilidade de retornar com uma determinação inabalável. Ela se refere ao seu lar simplesmente como “a terra”, com uma ternura amorosa reservada a um amigo íntimo. Na clínica, essa mesma determinação se manifesta em pequenos momentos. O médico pede que elappermaneç ali para uma segunda medição da pressão arterial, pois da primeira vez estava muito alta. Hajje levanta a cabeça, com os olhos brilhantes de desafio, e diz com firmeza: “A diabetes tentou e não conseguiu me derrubar. A hipertensão também não vai conseguir.”

Enquanto milhares de pessoas continuam sendo forçadas a deixar suas casas, MSF reforça o apelo pela proteção de civis e pelo acesso contínuo a cuidados de saúde.

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