Relato de sobrevivência no Líbano: “Não importa onde eu esteja, não estou em casa”

Khadija foi forçada a deixar sua casa em meio à escalada da violência no Líbano e compartilha seu relato

Salam Kabboul/MSF

Em menos de duas semanas, mais de 800 mil pessoas foram forçadas a deixar suas casas no Líbano, em meio à escalada da violência. Khadija, de 56 anos de idade, é uma delas. Aqui, ela compartilha seu relato.

“Quando a guerra começou, em 8 de outubro de 2023, fomos para Beirute e ficamos lá por um ano, até que minha mãe faleceu, em fevereiro de 2024. Eu permaneci em Beirute, enquanto minha irmã e seus filhos se mudaram para Marwaniyeh, no sul do Líbano.

Após o cessar-fogo, em novembro de 2024, decidi voltar para Odaisseh, para a casa da minha família, em busca da segurança que havia perdido.

Fui até o vilarejo e tentei consertar a casa o máximo possível. No início, fiquei muito feliz; afinal, essa casa é meu refúgio, minha segurança e minha estabilidade.

Infelizmente, depois de passar quatro meses lá, não me sentia mais segura¹. Era uma ansiedade constante, medo, tensão e explosões.

Não havia vida, nem pessoas. O vilarejo estava devastado.

Tentei ficar, mas simplesmente não consegui. A vida no vilarejo é mais do que apenas ter comida, água ou um teto sobre a cabeça. Apesar da destruição, tentei aguentar, mas precisava me sentir segura. E não havia segurança. Nenhuma segurança. Quando meus nervos já estavam completamente esgotados, tive que vir para Marwaniyeh ficar com minha irmã. Acabei indo parar no pronto-socorro, porque tive um colapso nervoso. Agora estou morando com minha irmã e seus três filhos. No entanto, como sou solteira e não tenho filhos, não sou oficialmente considerada uma “unidade familiar”, então fui simplesmente registrada no cadastro da minha irmã.

Só quero saber: se não faço parte de uma “família”, como vou me virar? Como vou sobreviver? O fardo já é tão pesado para minha irmã, uma viúva com três filhos. Então como vou me sustentar? Como vou conseguir viver? Isso significa que meu destino é simplesmente ficar mudando de um lugar para outro para sempre?

Não importa aonde eu vá, sempre serei uma filha do Sul, da terra do Sul.”

Meu pai trabalhou no exterior por 35 longos anos para construir nosso lar, nosso reino. Mesmo que tivesse apenas um cômodo, era nosso. Cada pedra, cada canto guarda uma memória no meu coração. Não importa onde eu esteja, não estou em casa. Não há estabilidade. Hoje estou aqui, mas daqui a uma hora, não sei onde estarei. Não sei quando me pedirão para ir embora. Tudo o que meus olhos veem não me pertence. Não significa nada para mim.

Eu só quero minha casa. Quero voltar para a casa da minha família, onde cresci. Onde [as memórias de] minha mãe, meu pai e meus irmãos viviam em cada canto.

Choro até pelas próprias pedras. As pessoas dizem: “As pedras podem ser substituídas”. Talvez. Mas o que se foi nunca volta a ser exatamente como era. Carreguei aquelas pedras com minhas próprias mãos e as coloquei no chão.

Eu mesma plantei aquelas plantas e esperei que brotassem diante dos meus olhos. Imagine a dor de alguém que trabalhou durante 35 anos para construir uma casa e, no fim, vê-la ser destruída?

Não me importaria de morar numa barraca, desde que fosse no meu terreno, no meu vilarejo, e que eu estivesse em segurança. Não tenho culpa do que está acontecendo. As crianças não têm culpa. Os idosos não têm culpa. Os doentes não têm culpa. O que algum deles fez para merecer isso?

Minha irmã é viúva, e nenhuma de nós tem emprego. Como vamos conseguir pagar pela comida, pelo gás e pelas despesas diárias? Vivemos dia a dia, hora a hora. Às vezes, fazemos apenas uma ou duas refeições, até pulamos refeiçõespara alimentar as crianças.

Se um médico me perguntasse: “Onde dói?”, eu diria que tudo dói. Tudo. Tenho medo de tudo agora.”

Meu sobrinho tem asma, e minha irmã tem diabetes. Quanto a mim, nem sei. Tenho muito medo de ir ao médico, com receio de descobrir que algo está errado. Estou constantemente ansiosa e com medo. Passei a ter medo de tudo. Se um médico me perguntasse: “Onde dói?”, eu diria que tudo dói. Tudo. Tenho medo de tudo agora.

Gritar se tornou minha única válvula de escape. Sinto uma pressão imensa dentro de mim – medo e raiva – como se uma mão estivesse me sufocando. Estou com tanta raiva! Estou tão triste. Tento me manter firme. Durante aqueles quatro meses em Odaisseh, me esforcei tanto para permanecer forte, a ponto de as pessoas me dizerem: “Você é tão forte, ninguém fez o que você fez. Você deu vida às pessoas. Você nos devolveu a força. Você nos trouxe de volta à vida. Você nos anima.”

Mas, no fim das contas, quando a noite cai, fico sozinha, como uma criança procurando pela mãe. Sou uma menina de 56 anos. Quero minha mãe!Perdi minha mãe por causa da guerra. Ela não estava doente mas, como teve que deixar sua casa depois de décadas de trabalho árduo e sabia que nunca mais voltaria, morreu por causa do coração partido. Quando se perde a família, perde-se a sensação de segurança. Então imagine como é perder a pátria, sua casa e a terra de onde veio?

Onde quer que eu vá, as pessoas perguntam: “De onde você é?”

Eu respondo: “Do Sul…”

“Você é uma deslocada?”

‘Não! Sou libanesa’. Por que me chamam de ‘deslocada’se estou no meu próprio país?”

 

 

1 Apesar do acordo de cessar-fogo assinado em novembro de 2024, os bombardeios israelenses com drones e aviões de guerra continuaram em várias regiões do Líbano, atingindo principalmente as aldeias da fronteira sul quase diariamente.

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