Refugiados sírios enfrentam medo diário no Líbano: “Vivemos em constante ansiedade e terror”

Milhares de pessoas que foram forçadas a fugir da Síria para se refugiar no Líbano agora enfrentam restrições de movimento e têm dificuldades em acessar serviços de saúde

Cidade de Arsal, no Líbano. © Carmen Yahchouchi/MSF

* Os nomes das pessoas neste artigo foram alterados para proteger o anonimato.

“Vivemos em constante ansiedade e terror. A morte se tornou mais misericordiosa do que viver aqui”, diz Umm Khattab, uma refugiada síria que, por anos, tem chamado de lar uma tenda frágil ao longo da fronteira nordeste do Líbano. “Eu desejo a morte”, diz ela.

As palavras dela captam a dura realidade enfrentada por dezenas de milhares de refugiados em Hermel, Qaa e Arsal, no Líbano, onde acampamentos improvisados de lonas e restos de materiais pontilham a paisagem árida. Esses abrigos frágeis oferecem pouca proteção contra os elementos agressivos da natureza e menos ainda contra a crescente onda de sentimento antirrefugiados no Líbano. Os refugiados, aglomerados em espaços inadequados com chão de terra e sem aquecimento, lidam diariamente com o medo nos postos de controle de segurança e das tensões locais.

“O medo mantém minha família de 10 pessoas encolhida dentro da barraca o dia todo”, diz Wael, um pai de 36 anos de idade com hipertensão e diabetes. “Nunca saímos da tenda após as 18h, pois é quando o toque de recolher para sírios é imposto. As crianças nunca saem e enfrentam bullying por parte das crianças locais.”

Wael é paciente da clínica de Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Hermel há alguns anos e recebe medicamentos essenciais para sua condição crônica, mas medidas recentes tornaram cada vez mais difícil o acesso a cuidados vitais.

Desde abril, o Líbano intensificou os ataques e as medidas de segurança para resolver a questão de pessoas não registradas no país. Como resultado, os pacientes sírios que procuram cuidados de saúde nas clínicas de MSF na província de Baalbek-Hermel enfrentam obstáculos crescentes por causa do medo e das restrições à liberdade de movimento.

O medo faz com que meu nível de açúcar no sangue suba e tenho medo de não ter como baixá-lo.”
Wael, refugiado sírio

Ansiedade e medo

Para muitos refugiados na província de Baalbek-Hermel, a decisão de procurar ajuda médica é agora cercada de medo. Wael, por exemplo, precisa atravessar um posto de controle para chegar à clínica de MSF em Hermel.

“Sempre fico ansioso quando tenho consulta na clínica de MSF”, confidencia Wael. “Tenho medo dos postos de segurança. Minha consulta estava marcada para o dia 20 de maio, mas tive medo de sair por causa de uma campanha de segurança na área, então decidi não ir. O medo faz com que meu nível de açúcar no sangue suba e tenho medo de não ter como baixá-lo.”

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Durante essas campanhas de segurança, os cidadãos sírios com documentos vencidos são frequentemente detidos em postos de controle e deportados à força de volta para a Síria, geralmente sem a chance de contatar suas famílias no Líbano.

Meu remédio acabou, e eu não tenho meios nem coragem para ir buscar mais.”
Amer, refugiado sírio

Outros pacientes com doenças crônicas têm recorrido ao racionamento de medicamentos ou abandonado completamente o tratamento por medo de sair de suas tendas para buscá-los. A poucos quilômetros de distância, em Qaa, cidade vizinha, Amer, outro homem de 36 anos de idade que vive com hipertensão, ficou completamente sem medicação há meses.

“Meu remédio acabou, e eu não tenho meios nem coragem para ir buscar mais”, diz Amer. “Tenho pesadelos de ser perseguido pelas autoridades. Não me atrevo a atravessar o posto de controle e ser levado para longe da minha família, talvez para sempre.”

Amer, um refugiado sírio de 36 anos no Líbano, segura e embalagem vazia do medicamento para hipertensão. © Carmen Yahchouchi

 

“Eu sofro de pressão alta”, diz Talal, um homem de 60 anos de idade, no chão de sua tenda deteriorada na cidade de Arsal. “Comecei a tomar os medicamentos há dois meses por causa dos batimentos cardíacos acelerados, e minha pressão arterial regularmente sobe acima do normal.”

A única maneira que Talal tinha de atravessar a paisagem montanhosa de Arsal para pegar seus remédios era pilotando uma motocicleta antiga que recentemente foi confiscada. Uma recente repressão em todo o país contra veículos não registrados no Líbano fez com que muitos sírios perdessem suas motocicletas – que muitas vezes são seu único meio de transporte após a crise econômica.

“Era o nosso único meio de cuidar das nossas necessidades”, lamenta ele. “Se eu quiser comprar comida para minha família ou conseguir minha consulta médica e medicamentos na clínica de MSF, precisarei alugar uma moto ou um carrinho ‘tuk-tuk’, que é mais barato que um carro, mas ainda assim muito caro para nós.”

Cuidados de saúde

MSF está presente na província de Baalbek-Hermel, no nordeste do país, desde 2010. Há mais de uma década, MSF oferece serviços médicos gratuitos e de alta qualidade, incluindo pediatria, cuidados de saúde sexual e reprodutiva, tratamento para doenças não transmissíveis, vacinação contra doenças evitáveis e apoio à saúde mental tanto para refugiados como para a comunidade local.

Atualmente, as equipes de MSF administram uma clínica em Arsal e outra em Hermel, além de apoiar o acesso à saúde secundária por meio de hospitais parceiros. No entanto, mesmo no meio desse farol de assistência, o número de ausências nas consultas cresce à medida que o medo aumenta o seu domínio sobre a comunidade de refugiados.

Eu estava gritando na escuridão da noite, e ninguém podia me levar a uma clínica.”
Umm Omar, refugiada síria

Ao lado do abrigo de Amer, a duas tendas de distância, vive Umm Omar, que deu à luz em um parto domiciliar há menos de um mês. A memória de Umm Omar da noite em que sua bolsa rompeu inesperadamente é nebulosa, mas ela lembra claramente como o medo da comunidade de atravessar os postos de controle do exército a manteve confinada ao chão de terra da tenda, lutando contra as dores do parto sem anestesia.

“Eu estava gritando na escuridão da noite, e ninguém podia me levar a uma clínica”, diz Umm Omar enquanto embala seu recém-nascido. “Eles chamaram uma outra refugiada aqui, cuja mãe era parteira. Felizmente, ela fez o parto do meu bebê com o que lembrava dessa prática. Mas ainda não posso sair do acampamento para obter a certidão de nascimento dele.”

Ao refletirem sobre o passado, os refugiados frequentemente relatam a perigosa jornada em direção ao Líbano com palavras semelhantes – fugiram da devastação apenas com as roupas do corpo e encontraram esperança para sobreviver nas colinas libanesas.

Situação piorou com a crise

Inicialmente recebidos de forma calorosa pela comunidade anfitriã, o refúgio das pessoas sírias no Líbano foi afetado em meio ao colapso econômico do país. “No começo, a comunidade nos ajudou quando viemos para Arsal”, diz Maya, que passou mais tempo de sua vida no Líbano do que na Síria. “Eles nos deram alguns itens para nos estabelecermos. Depois me matricularam na escola, e comecei a frequentar as aulas. A comunidade nos recebeu bem no início e não nos fez sentir como estranhos.”

No entanto, à medida que o Líbano enfrenta seu quinto ano de grave crise econômica, os refugiados sírios enfrentam agora mais intolerância no país. As dificuldades econômicas, agravadas pelo medo de se locomover no Líbano, forçaram os refugiados a uma escolha impossível: optar pela sua segurança ou pela saúde. Em uma posição ainda mais baixa na lista de prioridades para os refugiados sírios neste momento, está a saúde mental.

Tento confortar meus filhos, mas por dentro estou mais assustada do que eles.”
Umm Khattab, refugiada síria

“Vivemos em constante ansiedade e terror. Nem consigo dormir por causa dessas campanhas de segurança e do meu medo pelos meus filhos”, diz Umm Khattab, que tem sofrido crises de ansiedade desde que seu filho foi deportado do Líbano, no final de 2023. “Os corações de nossos filhos aceleram de medo e ansiedade durante essas campanhas, basta ouvirmos a frase ‘Eles estão chegando!’ Tento confortar meus filhos, mas por dentro estou mais assustada do que eles.”
“Após vários anos de deslocamento, alguns refugiados sírios desenvolveram sintomas psicológicos adicionais”, diz Amani Al Mashaqba, gerente de atividades de saúde mental de MSF em Baalbek-Hermel.

As roupas onde Umm Khattab escondeu o filho durante uma incursão noturna aos acampamentos de refugiados. ©Carmen Yahchouchi

 

“Um elevado sofrimento psicológico está presente nos refugiados devido a repetidos eventos de crise. Mudanças no comportamento relacionadas com a exposição a eventos traumáticos foram relatadas pelos nossos pacientes de saúde mental, tanto em adultos como em crianças”, relata.

“Suas vidas foram impactadas e mudadas, e nada é mais como antes. Eles saem menos, têm menos momentos de relaxamento, famílias estão separadas, e as pessoas se tornaram menos abertas do que costumavam ser. As pessoas estão cansadas. Sentem-se inseguras, deprimidas e desanimadas. Os jovens não sabem como lidar com a vida — não podem voltar atrás, mas também não conseguem seguir adiante. Estão presos em um estado de limbo perpétuo que afeta toda a família”, explica Amani Al Mashaqba.

Se o nosso lugar na Síria fosse seguro, eu não ficaria aqui nem por um minuto.”
Umm Khattab, refugiada síria

“Todos estamos no limite”, diz Umm Khattab, descrevendo inadvertidamente os sintomas de episódios pós-traumáticos. “Quando ouvimos alguém falando alto ou fazendo barulho, pensamos que uma operação de segurança começou e entramos em pânico.” Testemunhos semelhantes são compartilhados por refugiados em Arsal e Hermel.
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O impacto físico e mental sobre a população refugiada é profundo. “Nossa principal esperança é viver em segurança e não sermos abordados pelas forças de segurança. O medo é o nosso principal sofrimento aqui”, diz outro refugiado. Esse medo generalizado não é apenas uma barreira aos cuidados de saúde, mas um companheiro constante nas suas vidas cotidianas.

“Acredite, se o nosso lugar na Síria fosse seguro, eu não ficaria aqui nem por um minuto. O que faremos na Síria? Não temos mais nada lá. Agora desejamos a morte, porque a morte se tornou mais misericordiosa do que viver aqui”, desabafa Umm Khattab.

A guerra na Síria, que começou em 2011, provocou destruição e violência generalizadas, deslocando milhões de pessoas para os países vizinhos como Líbano, Turquia, Jordânia e Iraque, entre outros. A instabilidade contínua tornou a Síria insegura para muitos, dificultando o retorno das pessoas à sua terra natal.

Refugiados sírios que buscam cuidados de saúde no nordeste do Líbano enfrentam obstáculos crescentes devido aos medos e restrições de movimento. O acesso das comunidades vulneráveis aos cuidados de saúde não deve ser impedido por medo ou intimidação. Pacientes não deveriam ter que escolher entre sua segurança e a busca por atendimento médico. “Tudo o que peço é segurança” —um apelo que ecoa o profundo anseio por estabilidade que define a experiência dos refugiados no Líbano hoje.

 

 

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