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RDC: Nova onda de violência em Kivu Sul

11/03/2010
Com medo de ataques, civis evitam até mesmo ir ao hospital onde equipes de MSF atuam

A organização médico-humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) está profundamente preocupada com o agravamento rápido da situação na área isolada de Haut Plateaux, na região de Uvira, em Kivu Sul, na República Democrática do Congo (RDC).

Milhares de civis estão encurralados pelo conflito que assola a região desde o início de fevereiro deste ano, entre o exército congolês (FARDC), rebeldes do FDLR e diversos grupos armados. Violências contra os civis são frequentes, além do que, as constantes ameaças impedem pessoas feridas de chegar ao hospital local, onde uma equipe cirúrgica de MSF está trabalhando. Atualmente, MSF é a única organização médica fornecendo cuidados médicos diretos na região.

“Nós ouvimos de pessoas que chegaram em nossa estrutura médica que existem muitos civis com medo de vir ao hospital, eles temem constantemente o ataque de grupos armados. Não existe lugar seguro onde eles possam se esconder”, disse Philippe Havet, o chefe da missão de MSF na RDC. “Hauts Plateaux é uma área muito isolada com montanhas que chegam a 3 mil metros de altura e sem nenhuma estrada. Os confrontos entre os combatentes são muito acirrados e os civis são vítimas diretas. Nós tememos que muitas pessoas possam vir a morrer, porque elas não podem chegar ao hospital e receber o assistência médica de que necessitam para terem suas vidas salvas.”

Desde o início de fevereiro, a intensa batalha em Hauts Plateaux forçou mais de 10 mil pessoas a abandonarem suas vilas (Kitoga, Mugutu, Birunga e Kangova) e eles tem buscado refúgio na área de Mukumba. Em 10 de fevereiro, uma equipe médica de MSF começou a prestar assistência médica emergencial em Hauts Plateaux para as famílias deslocadas. Desde então, MSF levou cuidados médicos à vila de Kihuha para mais de 750 pacientes sofrendo principalmente de diarreia aguda e infecções respiratórias.

A equipe também tem recebido dezenas de pessoas feridas, incluindo crianças, precisando de cuidados cirúrgicos de emergência. Uma segunda equipe de MSF, especializada em cirurgia emergencial, chegou alguns dias depois ao hospital na vila próxima de Katanga, que é equipado com uma ala de operações, capaz de atender os civis feridos nos violentos confrontos. Entretanto, a equipe tem conduzido poucas cirurgias porque os civis estão extremamente assustados para ir até o hospital buscar ajuda.

Atualmente MSF é a única organização internacional humanitária levando atendimento médico direto à região de Hauts Plateaux. As equipes de MSF enfrentam grandes desafios nos seus esforços para levar cuidados médicos às famílias deslocadas.

“Leva entre cinco a seis horas a pé para se chegar até nossa base médica em Kihuha e mais duas horas de lá até o hospital em Katanga, onde nossa equipe cirúrgica se encontra,” disse Steve Avoci, cirurgião de MSF em Katanga. “Aqui é muito isolado e as condições são muito difíceis. Poucos dias atrás, um paciente chegou precisando de cirurgia urgente. Era uma cirurgia complicada e era impossível referir ele para outra estrutura apropriada, então um cirurgião de MSF, baseado em Bukavu, me ajudou pelo telefone a operar o paciente ferido.”

Com a deterioração gradual da situação em Hauts Plateaux, MSF está extremamente preocupada com o destino de milhares de pessoas deslocadas internamente, presas no conflito. MSF pede que os grupos armados respeitem as leis humanitárias internacionais, a segurança dos civis e permitam o acesso imediato de cuidados médicos de emergência para os feridos durante o conflito.

“Civis feridos precisam desesperadamente de proteção e assistência médica emergencial. Eles merecem o direito de ter acesso sem obstrução a nossas equipes médicas”, disse Phillippe Havet.

MSF está atualmente trabalhando em Kalonge e Kitutu, em Kivu Sul, dando apoio a centros de saúde e utilizando clínicas móveis para providenciar cuidados primários e assistência de emergência para deslocados e famílias que moram na região. MSF também está apoiando o Hospital Baraka e um centro de tratamento de cólera em Fizi, tendo como alvo as maiores causa de morte e doença (nomeadamente malária, tuberculose e cólera), com ênfase em saúde reprodutiva. Em Kivu Norte, apesar da atual onda de violência e insegurança, MSF organiza programas médicos em Rutshuru, Nyanzale, Masisi, Mweso, e Kitchanga. Setenta e seis expatriados estão trabalhando junto com 1.144 colegas congoleses nos projetos de MSF em Kivu Norte e Kivu Sul.

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