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RDC: "Mulheres merecem cuidados excelentes em qualquer parte do mundo"

30/05/2019
De clínicas matinais a emergências noturnas, a obstetriz britânica Hannah compartilha sua experiência trabalhando em uma parte remota da República Democrática do Congo
RDC: "Mulheres merecem cuidados excelentes em qualquer parte do mundo"

Foto: Sara Creta/MSF

Fui despertada, como de costume, pelos gritos com megafones dando conselhos sobre como prevenir a cólera.

São apenas 5 da manhã, mas não posso reclamar quando somos nós que os pagamos para acordarem a cidade. As pessoas podem estar na cama ainda, mas pelo menos agora elas sabem como tratar sua água potável.

Uma mistura volátil

Médicos Sem Fronteiras (MSF) trabalha na República Democrática do Congo desde 1981 e não pretendemos partir tão cedo.

Embora isso possa não parecer a definição de medicina de emergência divulgada pela mídia, confrontos e o deslocamento constantes da população contribuem para as taxas de mortalidade registradas no país, que raramente caem abaixo do limiar de "emergência".

O projeto em que trabalho está aberto há sete anos, embora estejamos apoiando este centro de saúde, Nyange, há apenas sete meses. Eu estive aqui por três desses meses e a melhoria nos cuidados que eu já pude observar é impressionante.

A três horas de distância da base principal, Nyange é uma cidade em crescimento, com uma população em movimento. As minas de ouro locais atraem os jovens em uma corrida por ouro quase ao estilo do Velho Oeste, e também atraem outras multidões, na esperança de ajudar os trabalhadores a gastar seus lucros: empresários, garçons e trabalhadores do sexo.

É uma mistura volátil, criando uma população com necessidades únicas de saúde. No entanto, com um período de transferência para o hospital de pelo menos três horas, esta é também uma população que necessita de um centro de saúde local robusto.

A clínica pré-natal

Depois de ligar para a base para as verificações de segurança padrão, meu dia começa corretamente com o repasse da manhã. Foi uma noite normal com três partos; as mães e os bebês estão bem.

A obstetriz de MSF, Hannah Thompson, verifica uma paciente em Nyange

A obstetriz de MSF, Hannah Thompson, verifica uma paciente em Nyange

 

Com uma obstetriz alocada na maternidade, o resto de nós começa a ronda da manhã com a clínica pré-natal.

Cerca de 40 mulheres chegaram – todas para a primeira consulta – e meu papel é principalmente supervisionar e treinar as obstetrizes do Ministério da Saúde que cuidam delas. No entanto, com tantas mulheres para atender, não posso evitar ficar ocupada.

Após o registro, cada mulher faz exames de sangue para HIV, sífilis, malária e anemia. Triamos para desnutrição, fazemos exames de urina, palpações abdominais e administramos uma ampla gama de medicamentos profiláticos.

Algumas mulheres estão aguardando atendimento há cinco horas. Às vezes me pergunto por que esperam pacientemente por tanto tempo sob o sol, até me lembrar que, antes da chegada de MSF, não havia nada. A taxa de mortalidade materna é alta e as mulheres querem receber cuidados.

Confiança da comunidade

Há cinco obstetrizes do Ministério da Saúde trabalhando neste centro, que realiza cerca de 120 partos por mês. É um trabalho árduo, mas elas são dedicadas e orgulhosas de onde estão.

As mulheres sabem que o cuidado aqui é seguro e vêm de vilarejos a muitos quilômetros de distância para dar à luz. Medidas simples, como fornecimento correto de ocitocina (um medicamento que estimula as contrações) e o uso adequado do partograma (uma ferramenta para medir o progresso do trabalho de parto) já estão ajudando a prevenir muitos dos problemas que antes eram comuns, como hemorragia e trabalho de parto prolongado.

Transferir pacientes ainda é complicado: algumas mulheres precisam pegar mototáxis, o que não é fácil em trabalho de parto, mas, cada vez mais, MSF é capaz de ajudar com o transporte em nossos próprios veículos. Talvez ainda não seja a solução mais confortável, mas, definitivamente, melhorou muito.

No meio da noite

No meio da noite, o enfermeiro chefe me chama. Ele me diz que uma mulher em trabalho de parto está inconsciente, mas ele é um pouco vago nos detalhes.

É 1h da madrugada, mas eu acordo dois enfermeiros da minha equipe, pois acho que posso precisar de apoio. Telefono para a base para verificar a situação de segurança e seguimos para o centro de saúde de carro. Ele fica ao lado do hotel, mas a segurança é sempre a prioridade.

A primeira coisa que vejo quando chego é a família da mulher reunida ansiosamente do lado de fora da porta. Algumas coisas são iguais no mundo todo. Dentro do centro de saúde, eu encontro a mulher deitada em um colchão no chão da sala de parto. Ela realmente está inconsciente e, depois de um minuto, ela começa a convulsionar.

Enquanto uma enfermeira faz observações, pergunto à família se a mulher tem epilepsia ou tomou algum remédio tradicional. Eles dizem não a ambas perguntas. Sua pressão arterial volta ao normal e diagnosticamos eclâmpsia atípica, uma condição incomum, segundo os relatos. Nós imediatamente começamos a dar sulfato de magnésio, e sou muito grata mais uma vez que, graças a MSF, minha paciente tem acesso a esses medicamentos.

Uma grande multípara

Depois de uma hora, a mulher parou de convulsionar e já estava consciente o suficiente para falar conosco. Ela está totalmente dilatada e, como também descobrimos, é uma “grande multípara” – o que significa que ela é uma mulher que deu à luz cinco ou mais vezes. Ambos os fatores estão a favor dela, já que não temos opção de transferir pacientes à noite.

Ela está claramente exausta, mas nós a encorajamos a andar e, eventualmente, a empurrar o beber. Dentro de meia hora, ela dá à luz uma menina saudável, gritando e muito bem-vinda.

Com mãe e bebê estáveis e dormindo, eu volto para a minha cama para uma última hora de descanso.

A melhor chance de sucesso

No repasse da manhã, todos estamos com os olhos um pouco cansados, mas satisfeitos com um bom resultado.

A mulher se junta a nós em nossa jornada de volta à base principal. Ela será observada no hospital, mas todos temos certeza de que ela ficará bem.

Observo-a enquanto partimos em nossa jornada de três horas, que mal pode ser descrita como uma viagem em estrada normal. Ela já está sentada, comendo e amamentando seu bebê; mais uma vez, algumas coisas são iguais em qualquer parte do mundo, quer você esteja em Nyange ou em Newcastle upon Tyne.

E essa é, em última análise, a razão pela qual trabalho para MSF: porque as mulheres merecem cuidados excelentes e a melhor chance de sucesso em todo o mundo.

 

 

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