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Quênia: o preconceito como obstáculo no tratamento de HIV

24/02/2017
Além da rejeição à primeira linha de medicamentos antirretrovirais, o menino John, de 12 anos, precisa também lidar com o estigma
Quênia: o preconceito como obstáculo no tratamento de HIV

Foto: Damaris Giuliana/MSF

John, nome fictício, tem 12 anos e não se lembra exatamente quando começou a tomar os antirretrovirais. Diz que tinha 3, 4 ou 5 anos quando soube ter sido infectado pelo HIV. A notícia veio quando ele estava muito doente e foi levado ao hospital por não parar de vomitar. Ele vive em Homa Bay, região à beira do lago Vitória, águas que marcam parte das fronteiras do Quênia com Uganda e Tanzânia. John foi logo testado para HIV porque a prevalência do vírus é alta na região. Pesquisa de 2012 feita pelo governo queniano mostrou que 25,7% da população dali tem HIV, enquanto a média no país é de 5,6%.

Foi em Homa Bay que, há 20 anos, a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) abriu seu primeiro projeto para tratamento de HIV no Quênia, onde os antirretrovirais só chegaram em 2001. Quinze anos depois, mais de 10 mil pacientes ainda estavam em tratamento antirretroviral. Em 2012, deu-se início a um processo de transferência de gestão da unidade para o governo, concluído três anos depois. MSF manteve apoio técnico à clínica para lidar, particularmente, com crianças, adolescentes e falhas na aderência ao tratamento.

Acompanhado da mãe, John comparece à chamada Clínica B. Uma das iniciativas de MSF ali foi treinar profissionais para aconselhar pessoas que vivem com HIV de forma a encorajá-las ao tratamento e ajudá-las a superar dificuldades como o estigma e os efeitos colaterais dos antirretrovirais.

John frequenta o grupo de crianças que está com dificuldades para se manterem na segunda linha de antirretrovirais. Esses medicamentos são divididos em três linhas; quando uma não funciona – seja porque o vírus desenvolveu resistência, o organismo reagiu mal ou porque a pessoa não toma da forma adequada - é necessário passar para o outro tipo de medicamento. Se a terceira linha não fizer efeito, não existe atualmente nenhum outro recurso para controlar a carga viral, ou seja, manter o vírus indetectável. Com a carga elevada de vírus, a imunidade cai e abre as portas do organismo para doenças oportunistas, como a tuberculose – é o que caracteriza a Aids (Síndrome de Imunodeficiência Adquirida).

Pamela Adoyo é a conselheira que acompanha John. Ela explica que diversos motivos podem levar pessoas a não tomarem os antirretrovirais como indicado:  compartilhamento de dose individual com membros da família que têm vergonha de ir ao hospital; violência doméstica; no caso das crianças, muitas são órfãs ou com pais que trabalham o dia todo e precisam tomar a medicação por conta própria, às vezes sem entender que é para a vida toda. Também há questões relacionadas a alguns professores que revistam mochilas e questionam publicamente para que são os comprimidos. “As crianças acabam dizendo que é para tuberculose, diabetes ou outras doenças crônicas”, conta. “Algumas descartam as pílulas na rua.”

Quando John fez seu relato à jornalista de MSF, estava com a mãe e a conselheira. Sentados dentro de um Tukul – um tipo de construção rudimentar típica do interior da África Oriental – o menino se demonstrou bastante tímido, quase monossilábico durante a maior parte dos cerca de 50 minutos que durou o encontro. Ao ser questionado pela conselheira o motivo de seus exames de carga viral não apresentarem bons resultados, ele respondeu: “Não sei”, deitando a cabeça sobre os braços.

John relata que sentia muitos efeitos colaterais com os antirretrovirais de primeira linha, como náuseas e fadiga. A mãe revela que só soube que ele não tomava os comprimidos de forma adequada por causa do exame. “Agora eu dou os remédios e ensinei a avó dele a dar também”, afirma.

É comum, segundo Pamela, que pessoas só revelem que não estão tomando os antirretrovirais e exponham suas dúvidas e dificuldades após serem confrontadas com os exames. “Elas precisam ser informadas de que se não tomarem a medicação, vão morrer. Se tomarem, poderão fazer o que quiserem em suas vidas.”  

John evita demonstrar sentimentos e precisa ser muito estimulado para contar sobre o seu dia a dia. Gosta de matemática, ciências e uma disciplina chamada estudos sociais. “Meu sonho é ser médico para ajudar as pessoas”. Sua maior motivação para ir à escola, porém, é o futebol, que joga sempre nos intervalos. Seu sorriso finalmente aparece, de leve, quando afirma ser um bom meio-campista – e só volta quando vai jogar bola para tirar foto.

Mais sobre a escola ele não revela. Quando a conselheira pede que fale sobre a relação com colegas e professores, John fica bastante agitado, tampa o rosto com as mãos e encolhe-se quase como se quisesse se esconder debaixo da mesa. Pouco antes, havia revelado que só gostava de conversar sobre HIV com as crianças do grupo de aconselhamento. “Com elas, eu me sinto livre e elas também se sentem livres comigo.”

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