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Quando é preciso entender a cultura para tratar o corpo

29/03/2017
Antropólogo de MSF relata suas pesquisas em Homa Bay, no Quênia, onde ritual tradicional para as viúvas as torna mais vulneráveis ao HIV
Quando é preciso entender a cultura para tratar o corpo

Foto: Jane Linekar/MSF

Antropólogo Jean-François Véran (Foto: Eduardo Zappia)Quando você foi chamado para uma pesquisa operacional sobre HIV em Homa Bay, no Quênia, uma das questões apontadas foi a vulnerabilidade das viúvas. Como a cultura do povo Luo, predominante na região, afeta essas mulheres?
Antropólogo Jean-François Véran: Uma primeira observação é que, geralmente, as sociedades providenciam algum tipo de suporte para as viúvas. Num país ocidental, a viúva tem uma pensão, vai ter uma assistência do Estado. Em outros contextos, as viúvas recebem outro tipo de assistência. Então, o fato de as viúvas serem “herdadas” nada mais é que a resposta de uma sociedade para a questão de sua manutenção física e social. No caso de Homa Bay em particular, o sistema de herança das viúvas permite a integração de uma mulher isolada a um conjunto social, familiar, econômico, que a permite viver, continuar tendo filhos e educá-los. O fato de um homem, de um familiar do marido que faleceu, herdar essa viúva é importante porque ele vai assumir a responsabilidade que seria do marido. Ele não vai viver com aquela pessoa, mas ele vai, por exemplo, ajudar a construir uma nova casa, trabalhar na plantação e na colheita. Ele vai dar um apoio no decorrer da vida.   

Qualquer parente do marido pode herdar a viúva?
JFV: Geralmente, sim. Parentes do marido, porque a população Luo está estruturada num sistema em que a mulher vive dentro da família do marido (sistema dito “virilocal”). Então, ser herdada por um parente permite à viúva, que já está fisicamente dentro do espaço da família do marido, manter-se nessa família. A questão dos ritos sexuais não é o “x” do problema, mas também não pode ser ignorada. Dentro da sociedade Luo tradicional, a sexualidade é tida como um momento importante para a regulação das atividades, tanto econômicas como espirituais. O sexo, por exemplo, marca o início e o fim de cada ciclo agrícola. Então, no início de cada ciclo tem que haver relações sexuais entre os casais casados. A regra é que o marido vai transar com a esposa, respeitando o princípio de senioridade. Isso significa que os patriarcas, os chefes de família, terão relação primeiro. Se eles tiverem filhos casados que pertençam à sua unidade doméstica [casas uma ao lado da outra], o mais velho vai transar com a esposa e isso até chegar ao caçula. Um ritual bastante simples. A sogra vai avisar a nora que é a hora de ela transar.

E como se dá o ritual com as viúvas?
JFV: Existe o rito da purificação (cleansing). Considera-se que a viúva precisa ser limpa das impurezas do marido para poder participar novamente dos espaços sociais, estar disponível para relações sexuais e afetivas. Então, ela vai transar com outro homem, geralmente a pessoa que vai herdá-la. Este ato acontece sem camisinha, porque o fator da purificação é o sêmen.

Não importa a razão que tenha causado a morte do marido?
JFV: Esse é um ritual tradicional. Depois do HIV, virou uma bomba. Primeiro porque o vírus provocou a multiplicação exponencial do número de viúvas. Trinta anos atrás, a taxa de mortalidade homem/mulher era basicamente a mesma. Depois da chegada dos antirretrovirais na região, em 2001, passou a ter uma grande discrepância. A taxa de mortalidade entre os homens no hospital de Homa Bay é de 19,9%, e das mulheres, de 8,5%. Nelas o HIV é detectado mais cedo por causa da maternidade, existe política especial para as mulheres, elas têm muito mais portas de entrada no serviço de saúde. Sobretudo, a maior adesão ao tratamento das mulheres se explica pelo sentimento de responsabilidade que elas têm com seus filhos. Para os homens não há políticas específicas e, portanto, não existe detecção precoce. E eles têm um etos de gênero que os predispõem a negligenciar. Existe um fenômeno aritmético, com o crescimento exponencial de viúvas. Como os homens não se tratam, há uma legião de viúvas de 22, 23, 24 anos. São mulheres jovens inseridas num sistema tradicional que não foi pensado nem para ter tantas viúvas nem para ter viúvas tão jovens.

E como isto está afetando este sistema?
JFV: Entre outras questões, há brigas entre os casais. A esposa sabe que o sobrinho do marido faleceu de Aids e que ele tem de transar com a viúva do sobrinho sem camisinha. Fica apavorada. O HIV virou, de certa forma, um argumento político para essas mulheres que antes não tinham como contestar o sistema. Os homens também têm medo. Com mais viúvas e menos homens disponíveis, essas mulheres estão desprotegidas socialmente. Essa vulnerabilidade extrema tem consequências sobre duas gerações de mulheres. Elas mesmas, que precisam se virar como nunca, e suas filhas, que muitas vezes são dadas para criação em famílias que vão empurrá-las para a autonomia o mais rápido possível. Meninas de 12 ou 13 anos querem ter calcinhas, querem sabonete. Como conseguem? Sexo transacional. Vão transar com mototaxistas ou com os professores, quando recebem salário. Já as viúvas vão trocar sexo por peixe.

Chegamos à população de pescadores....
JFV: É hoje um negócio gigantesco. Você pergunta para as viúvas o que elas pretendem fazer e, mesmo na área rural de Ndhiwa, elas respondem “entrar para o mercado de peixe”. Porque não tem indústria, não tem trabalho, não tem emprego, não tem comércio, não tem nada! O lago Vitória era de pesca tradicional, artesanal, de alimentação e subsistência. Virou uma gigantesca plataforma de produção, alimentando o mercado mundial, devido ao sucesso comercial da tilápia, o peixe da região. Bem mais que os ritos sexuais, é a grande vulnerabilidade das mulheres em famílias dizimadas pelo HIV, conjugada ao crescimento exponencial da pecuária no Lago Vitória que explica a alta prevalência do HIV nesta região.

Elas fazem sexo para se alimentar ou para poderem vender peixes?
JFV: São três categorias: a primeira de mulheres que vivem no mesmo círculo social dos pescadores e querem peixe para comer; a segunda são mulheres que conseguem peixe para vender, tornando-se intermediárias. Isso dá um bom dinheiro, mas como você vai comprar peixe para vender se não tem dinheiro? O sexo pode funcionar como capital inicial. É vulnerabilidade, mas também uma forma de emancipação das mulheres. Esse é o paradoxo. Muitas estão se vendo livres do sistema tradicional da herança que não as apoia mais. A terceira categoria é formada por mulheres que por vários motivos (soropositivas, religião...), se mantem fora deste circuito. Elas se organizam em comunidades de mulheres, colocando o peixe para secar, espantando pássaros, tirando as redes, cozinhando para os pescadores. Sigam extremamente vulneráveis, mas conquistaram alguma autonomia dos homens.

Qual a confusão que se faz sobre a contaminação e os ritos sexuais?
JFV: Quem está dentro do sistema acredita que, se você não respeita a tradição, pode pegar uma doença muito grave chamada chira, que tem os mesmos sintomas do HIV. Enquanto dizemos “o sexo contamina”, eles consideram que “o sexo purifica”. Há aí uma inversão.

O que fazer neste caso específico?
JFV: É preciso adaptar o discurso, separando as dimensões espirituais das dimensões do tratamento. Se você disser para alguém que, para se curar de um mal físico, tem de renunciar ao seu aparato espiritual, é desnecessário. É contraproducente mexer com as crenças. É preciso adaptar o discurso para que faça sentido para essa população. Que pode ser chira, pode. Mas nós só temos teste para HIV, então, podemos fazer o exame. Se der positivo, não é chira, é HIV. E nós podemos tratar isso.

Qual a proposta da Unidade Médica Brasileira (Bramu) de MSF para melhorar esta abordagem?
JFV: A Bramu ofereceu um pacote integrado com diagnóstico a partir da antropologia, com transferência das observações das ciências sociais para decisões operacionais concretas. É como um trabalho de tradução. Temos isso, como fazemos? No que impacta? Definimos um plano de ação com cerca de 30 medidas e MSF-Brasil enviou outra antropóloga para implementar esse pacote de recomendações em quatro meses. Estamos avaliando os resultados.