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Psicóloga de MSF trabalha auto-estima das mulheres para evitar o desmame precoce

07/10/2004
Na semana mundial do aleitamento materno, Andréa Chagas explica porque muitas mulheres optam pela alimentação artificial em detrimento do leite materno e fala do trabalho que é realizado no centro de MSF, no complexo da Maré, para reverter essa situação

A psicóloga Andréa Chagas, do Centro de Atenção Integral à Saúde de MSF em Marcílio Dias, Complexo da Maré, Rio de Janeiro, vem há oito anos trabalhando com a questão da importância do espaço terapêutico na gestação. Primeiramente, no ambulatório do Hospital Pedro Ernesto, depois numa unidade de saúde na comunidade da Mangueira e agora no centro de saúde de MSF em Marcílio Dias. Nesse período, Andréa percebeu que o desmame precoce ou, em alguns casos, a decisão da mãe de não dar o peito à criança está relacionado à baixa auto-estima das mulheres, principalmente as que estão inseridas num meio ambiente onde estão presentes a pobreza e a violência. Nessa entrevista, Andréa Chagas fala um pouco do trabalho que vem desenvolvendo no centro de saúde de MSF em Marcílio Dias com gestantes e mães.

Como você percebeu essa relação entre o desmame precoce e a baixa auto-estima das mulheres?

Sempre se coloca a questão da amamentação como sendo uma coisa boa para a criança. Mas a amamentação tem uma série de questões envolvidas que requerem muito trabalho, muita disponibilidade e dedicação, por parte da mãe. Muitas vezes você atende mulheres que até sabem da importância do ato de amamentar, mas são mulheres que vêm de experiências onde muitas outras coisas, que também são de grande importância, não se tem. O leite materno passa a ser mais uma coisa considerada importante, mas que pode não se ter também. Então, você encontra essas mulheres, que têm um histórico muito grande de falta e abandono e percebe que, após esses processos de desvalorização, elas acabam desenvolvendo uma idéia de que o que vem delas não deve ser importante também. Pra muitas mulheres, acaba sendo muito mais valorizado aquele leite de comerciais de televisão, onde aparecem bebês gordinhos, branquinhos, loirinhos, de olhos azuis, que são, na maioria das vezes, muito diferentes daquele bebê que ela tem em casa.

Como você tem trabalhado essa questão da auto-estima nas mulheres que freqüentam o centro de saúde?

Quando conseguimos identificar essas questões de baixa de auto-estima no grupo de gestantes, ou nas gestantes que freqüentam o centro para realizar o pré-natal - porque essas questões emergem normalmente na gravidez - nós trabalhamos no reforço dessa auto-estima, situando essa mulher com as possibilidades que ela pode ter diante das dificuldades. E aí, o trabalho das agentes comunitárias de saúde passa a ser fundamental, já que elas fazem visitas regulares ao domicílio dos nossos usuários. Há pouco tempo, vimos uma situação de uma família onde uma criança com 15 dias de vida não era amamentada com leite materno, mas sim com leite artificial. Por causa desse problema, identificado pela agente comunitária de saúde, decidimos por acompanhá-la na visita domiciliar. Encontramos nesse atendimento uma situação muito mais grave. Além da criança não ser amamentada no peito, ninguém pegava a criança no colo. A mamadeira ficava encaixada no carrinho do bebê. O trabalho teve que ser muito mais minucioso, que é trabalhar o contato nessa família. Portanto, quando estranhamos o fato de uma criança recém nascida estar sendo amamentada de forma artificial outras questões podem estar por trás disso.

Você já está colhendo histórias de sucesso?

Com certeza. Nós temos aqui uma mulher que nos procurou para dizer que estava com dificuldades e, por isso, desmamando o bebê, após dois meses de seu nascimento. Queixava-se de dores no momento da amamentação, e conflitos domésticos. Começamos a pensar, com ela, a forma como ela estava amamentando e valorizando a forma como ela poderia fazer. E nós passamos a dar uma atenção especial a essa mulher, estando realmente disponível para recebê-la, porque eu acredito que, cuidando da mulher, você vai estar desenvolvendo nela a possibilidade de ela cuidar melhor do outro. Hoje essa criança já está com mais de um ano e continua mamando no peito, é claro que como uma alimentação complementar. Agora estamos podendo acompanhar um outro processo de trabalho, que é o processo do desmame, um momento muito delicado para a mãe também. E o bebê hoje está lindo e muito saudável.

Qual o diferencial desse trabalho para a comunidade de Marcílio Dias?

A possibilidade das pessoas que procuram o serviço, de contar com um atendimento que busca ser um meio ambiente bom. É o conceito de D.W. Winnicott, onde o individuo necessita de um espaço para a subjetividade, porque facilita o escoamento e a administração da tensão psíquica. É a tensão entre aquilo que o indivíduo necessita/deseja e o que é possível em função da realidade (princípio do prazer; princípio da realidade). Esse espaço precisa ser um meio ambiente identificado com o outro, capaz de atitudes de suporte e acolhimento e capaz de apresentar limites coerentes. A estrutura oferecida por MSF faz uma grande diferença no desenvolvimento deste trabalho. Eu aqui tenho a sorte de ter mais de 80% de demanda espontânea, mulheres que chegam buscando o atendimento psicológico. E isso é muito importante. Porque revela claramente, que quando a pessoa tem acesso a um espaço, que possa contribuir para uma melhora da sua situação de vida, ela realmente escolhe este caminho. Esse é o nosso diferencial aqui.