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Projeto de HIV em Eshowe, África do Sul, atinge meta 90-90-90 um ano antes do prazo de 2020

13/06/2019
Parceria com população local foi essencial para que a meta fosse atingida
Projeto de HIV em Eshowe, África do Sul, atinge meta 90-90-90 um ano antes do prazo de 2020

Foto: Greg Lomas/MSF

A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) divulgou esta semana os resultados de uma pesquisa sobre seu projeto comunitário para tratar HIV/TB em Eshowe, KwaZulu-Natal, África do Sul. A pesquisa mostra que o projeto atingiu as metas do UNAIDS de 90-90-90[1] um ano antes do prazo de 2020, com resultados de 90-94-95, ou seja: 90% das pessoas que vivem com o HIV sabem de sua condição, 94% destas estavam em tratamento antirretroviral e 95% tinham carga viral suprimida. Os resultados sustentam a visão de MSF de que as intervenções a nível comunitário podem alcançar e apoiar diretamente mais pessoas vivendo com HIV que não buscam os serviços convencionais de saúde, o que é fundamental para se antecipar à epidemia do HIV.

Juntamente a resultados semelhantes, provenientes de várias outras pesquisas sobre HIV, incluindo duas divulgadas no SAAIDS esta semana[2], estes resultados de MSF oferecem fortes evidências de que alcançar as metas 90-90-90 é possível na África do Sul, com dados esperançosos que sugerem que o número de novas infecções está diminuindo em certas regiões. A meta 90-90-90 é um indicador importante do sucesso da resposta ao HIV de um país, com os resultados nacionais da África do Sul estimados em 85-71-86 (HSRC, 2018). "Mostramos que é possível chegar a 90-90-90 em uma área com uma das maiores taxas de infecção por HIV no país, onde uma em cada quatro pessoas vive com o HIV. Estes resultados foram alcançados graças ao envolvimento total de toda a comunidade. Todos – da sociedade civil local e de grupos de pacientes, profissionais de saúde e profissionais de saúde tradicionais, líderes tradicionais e seus membros – estiveram profundamente envolvidos na concepção e no desenvolvimento do projeto desde seu início”, disse o dr. Liesbet Ohler, referente médico do projeto em Eshowe. "Nós asseguramos que 94% das pessoas que testaram HIV-positivo iniciaram o tratamento, incluindo pessoas que são muito menos propensas a fazerem teste de HIV e procurarem os cuidados, como homens."

Esta pesquisa do Epicentre, o centro de pesquisas epidemiológicas de MSF, que incluiu 3.286 pessoas, com idades entre 15 e 59 anos, é sequência de uma outra pesquisa, de 2013, realizada na mesma região, para mostrar quais atividades junto à comunidade deveriam ser priorizadas. A pesquisa mais recente revelou um aumento significativo, entre 2013 e 2018, na conscientização-geral sobre o status do HIV (aumentou em 14%) e no número de pessoas que iniciaram tratamento antirretroviral (aumento de 24%). Entre os homens, houve um aumento impressionante no conhecimento sobre seu status de HIV (de 68% para 83%) e no início do tratamento (de 68% para 87%). No geral, a proporção de pessoas vivendo com HIV com carga viral suprimida[3] aumentou de 56% (2013) para 84% (2018), significando uma redução dramática no número de pessoas com potencial para transmitir HIV[4] e sugerindo uma redução em novas infecções. Os resultados preliminares da incidência do HIV mostram uma tendência de queda: de 1,2%, em 2013, para 0,2%, em 2018.

No entanto, MSF adverte que os resultados da pesquisa, embora muito positivos, não são uma declaração clara de vitória, uma vez que ainda existem desafios significativos remanescentes entre grupos etários específicos. "Embora tenha havido um declínio na incidência do HIV entre mulheres de 15 a 29 anos, de 2,9% para 1,2%, esse número permanece alto e aponta para o risco contínuo enfrentado por meninas adolescentes e mulheres jovens", disse a dra. Laura Trivino, coordenadora-médica de MSF para a África do Sul. "Ainda há dificuldades em atingir os homens. Mais da metade dos homens jovens entre 15 e 29 anos diagnosticados com HIV ainda não estão em tratamento. Esperamos que essas descobertas ajudem a concentrar nossas energias coletivas para alcançar esses grupos que continuam sendo os mais vulneráveis ao HIV.”

O projeto “Bending the Curves” (Desviando as Curvas, na tradução livre para o português), que começou em 2011, antes das metas 90-90-90, foi estabelecido pelo UNAIDS em 2013, com o objetivo de melhorar a situação das novas infecções por HIV e doenças e mortes relacionadas ao HIV. Diversas atividades foram lançadas em parceria com as comunidades e com o Departamento de Saúde de KwaZulu-Natal para prevenir a infecção de HIV, aumentar o teste de HIV, vincular rapidamente as pessoas a cuidados e apoiar sua adesão, retenção e supressão no tratamento. Hoje o projeto abrange 10 clínicas e dois hospitais. No início, o projeto investiu em estratégias de prevenção e teste de HIV baseadas na comunidade, incluindo extensivos testes de porta em porta por profissionais leigos, com mais de 120 mil testes de porta em porta realizados entre 2012 e 2018. Entre 2015 e 2018, 1,35 milhões de preservativos foram distribuídos anualmente.

"Como Eshowe chegou a 90-94-95? Eu diria que é o poder da parceria. Tivemos o compromisso total da liderança tradicional e uma estreita colaboração com os departamentos de Saúde e de Educação em cada etapa", diz Musa Ndlovu, coordenador-geral adjunto de MSF em Eshowe. "Nos primeiros dias deste projeto, era quase impossível imaginar as pessoas falando sobre HIV. Hoje as pessoas até param nossos veículos de MSF e pedem teste de HIV. Nós não fizemos isso pela comunidade, nós fizemos com eles." 



[1]  A meta 90-90-90 do UNAIDS visa garantir que, até 2020, 90% de todas as pessoas que vivem com HIV saibam seu status; 90% das pessoas que vivem com HIV tenham iniciado o tratamento antirretroviral; e 90% das pessoas sob tratamento tenham carga viral indetectável em sua corrente sanguínea (“supressão viral”).

[2] 1. Pesquisa Nacional sobre Prevalência, Incidência, Comportamento e Comunicação sobre o HIV na África do Sul (HSRC, 2017); 2. Sistema Provisório de Vigilância de Incidentes do HIV (HIPSS) nos subdistritos de Vulindlela e Greater Edendale em KwaZulu Natal; 3. Estudo de Avaliação do DREAMS de incidência de HIV em eThekwini e uMgungundlovu em KwaZulu-Natal e cidade de Joanesburgo e Ekurhuleni em Gauteng.

[3] A supressão viral significa que o tratamento anti-retroviral suprime com sucesso a quantidade de vírus HIV no sangue de uma pessoa, garantindo a saúde geral e reduzindo as chances de transmissão do HIV. Foi definido como carga viral <1.000 cópias/ml

[4] O marco do estudo HPTN 052 (2011) confirmou que as pessoas que vivem com o HIV que estavam realizando o tratamento com sucesso e tinham supressão viral tiveram uma chance 96% menor de transmissão do HIV. www.aidsmap.com/Treatment-is-prevention-HPTN-052-study-shows-96-reduction-in-transmission-when-HIV-positive-partner-starts-treatment-early/page/1879665/

 

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